Chapter 2
O Retorno do Herdeiro
Aren retorna à Academia Celestial com as marcas divinas nos braços, causando alvoroço entre alunos e mestres. Kael, Mira e Daren testemunham seu poder e sentem remorso e medo. O diretor o convoca para uma conversa privada, revelando que ele é o herdeiro de uma linhagem de deuses antigos e que seu despertar acendeu uma ameaça ancestral.
A caminhada de volta para a Academia Celestial foi longa e silenciosa. Aren avançava com passos lentos, sentindo o cansaço nos ossos, mas também uma energia nova pulsando em seu peito. As marcas douradas em seus braços haviam diminuído de intensidade, mas ainda brilhavam como brasas sob a luz do entardecer. Ele não sabia como apagá-las, nem se queria apagá-las.
A névoa da montanha começava a se dissipar, revelando os contornos da academia no horizonte. As torres de pedra branca refletiam os últimos raios de sol, e as bandeiras azuis dançavam ao vento. Aren parou por um momento, observando o lugar que por anos fora seu lar — e também sua prisão de humilhações.
— O que vão pensar de mim agora? — murmurou ele, olhando para as próprias mãos.
Ele não teve tempo de responder à própria pergunta. Um grupo de alunos que treinava nos campos próximos o avistou. Primeiro, foram apenas olhares curiosos. Depois, sussurros. Alguém apontou para os braços de Aren, e os sussurros se transformaram em exclamações.
— Olhem! São marcas de energia!
— Ele nunca teve poder… Como é possível?
— Aquela luz no céu… Foi ele?
Aren tentou ignorar os olhares e continuou caminhando em direção ao portão principal. Mas, ao atravessar o pátio central, viu rostos conhecidos se aproximando. Kael, Mira e Daren estavam ali, parados perto da fonte de pedra, com expressões que misturavam choque e culpa.
Kael foi o primeiro a falar. Deu dois passos à frente, o artefato púrpura ainda pendurado em seu cinto.
— Aren… Você está bem? — perguntou ele, com a voz hesitante.
Aren parou. Olhou para Kael, depois para Mira, que desviava o olhar, e para Daren, que parecia prestes a dizer algo, mas engolia as palavras.
— Estou vivo — respondeu Aren, com a voz fria. — Diferente do que vocês esperavam, não?
Mira ergueu os olhos, finalmente.
— Nós não queríamos… — começou ela, mas Aren a interrompeu.
— Não queriam o quê? Me deixar para morrer? Funcionou bem.
O silêncio caiu sobre o grupo. Alguns alunos se aproximaram, curiosos, formando um círculo ao redor deles. Daren deu um passo à frente, com as mãos abertas.
— Aren, a gente se desesperou. A criatura era forte demais…
— E vocês correram — completou Aren, sem esconder a amargura. — Eu pedi ajuda. Gritei. E vocês fugiram.
Kael apertou os punhos. Seu rosto endureceu.
— Você não entende. A gente tinha que sobreviver. Você nunca teve poder, sempre foi um peso…
— E agora? — interrompeu Aren, erguendo o braço. As marcas douradas brilharam com mais intensidade, e uma aura de luz envolveu sua mão. — Ainda sou um peso, Kael?
Kael recuou um passo, os olhos arregalados. Mira segurou o braço de Daren, que parecia paralisado. Os alunos ao redor murmuravam, alguns com medo, outros com admiração.
Antes que a tensão pudesse crescer, uma voz grave cortou o ar:
— O que está acontecendo aqui?
Todos se viraram. O instrutor Valdus descia as escadas do salão principal, com o olhar severo. Quando viu Aren e as marcas em seus braços, seu rosto mudou de expressão — primeiro surpresa, depois descrença.
— Aren? — disse ele, aproximando-se. — Isso… Isso é energia espiritual?
Aren não respondeu. Apenas olhou para o instrutor, lembrando-se de todas as vezes em que ouvira aquela voz dizer que ele não tinha talento.
Valdus estendeu a mão para tocar as marcas, mas Aren recuou.
— Não toque em mim — disse ele, com a voz firme.
O instrutor franziu a testa, mas não insistiu. Em vez disso, virou-se para os alunos ao redor.
— Todos de volta aos treinos! Isso não é um espetáculo!
Os alunos se dispersaram, embora muitos ainda olhassem para trás. Kael, Mira e Daren permaneceram onde estavam, sem saber o que fazer. Valdus os encarou.
— Vocês três. Venham comigo. E você, Aren. O diretor quer vê-lo.
O coração de Aren acelerou. O diretor raramente chamava alguém para uma conversa privada. Ele assentiu e seguiu o instrutor, deixando os três ex-amigos para trás.
O caminho até a torre do diretor era familiar para Aren — ele já subira aquelas escadas algumas vezes para entregar relatórios ou receber advertências por notas baixas. Mas desta vez, tudo era diferente. Seus passos ecoavam nos corredores de pedra, e as marcas em seus braços pulsavam suavemente, como se respondessem à energia do lugar.
Valdus parou diante de uma porta de madeira escura, com entalhes que representavam dragões e estrelas.
— Espere aqui — disse ele, e entrou.
Aren ficou sozinho no corredor. Ouviu vozes abafadas do outro lado da porta, mas não conseguiu distinguir as palavras. Passaram-se alguns minutos até que a porta se abrisse novamente.
— Pode entrar — disse Valdus, com um tom mais suave do que Aren jamais ouvira.
Ele entrou. O escritório do diretor era amplo, com estantes cheias de livros antigos e um grande mapa do continente pendurado na parede. Uma lareira crepitava no canto, espalhando uma luz quente pelo ambiente. E, atrás de uma escrivaninha de carvalho, estava o diretor.
Era um homem idoso, de cabelos grisalhos e olhos atentos que pareciam enxergar além das aparências. Ele usava um manto azul-escuro com bordados prateados, e em seu pescoço pendia um medalhão que brilhava fracamente.
— Sente-se, Aren — disse ele, indicando uma cadeira à frente da escrivaninha.
Aren obedeceu, sentindo o peso do olhar do diretor sobre si.
— Instrutor Valdus, pode nos deixar a sós — acrescentou o diretor.
Valdus hesitou, mas inclinou a cabeça e saiu, fechando a porta atrás de si.
O silêncio se instalou por um momento. O diretor observou Aren com atenção, especialmente as marcas em seus braços.
— Você sabe o que são essas marcas? — perguntou ele, finalmente.
Aren negou com a cabeça.
— Elas apareceram quando… quando ouvi uma voz. Nas ruínas.
O diretor ergueu uma sobrancelha.
— Uma voz? O que ela disse?
Aren respirou fundo.
— Ela disse: “Chegou a hora de despertar, herdeiro dos deuses.”
O diretor fechou os olhos por um instante. Quando os abriu novamente, havia algo diferente em seu olhar — algo entre preocupação e reverência.
— Há muito tempo, antes da fundação desta academia, existiam seres que governavam o mundo. Não reis ou imperadores, mas deuses antigos, ligados à própria essência da criação. Eles tinham herdeiros, escolhidos para carregar seu poder quando os deuses partissem. Mas esses herdeiros desapareceram há séculos. Acreditava-se que a linhagem havia se extinguido.
Aren sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Você está dizendo que eu…
— Você é um herdeiro — completou o diretor. — Seu poder estava adormecido, esperando o momento certo para despertar. E, pelo que vi hoje, esse momento chegou.
Aren olhou para as próprias mãos. As marcas brilhavam suavemente, como se ouvissem a conversa.
— Mas por que agora? Por que nas ruínas, com aquela criatura?
O diretor apoiou os cotovelos na mesa e entrelaçou os dedos.
— O artefato que seus amigos roubaram… ele não é um simples objeto de poder. Ele é uma chave. E seu despertar pode ter acionado algo que deveria permanecer adormecido.
— O que quer dizer?
O diretor hesitou. Pela primeira vez, Aren viu algo como medo em seus olhos.
— Há uma escuridão antiga sob estas montanhas. Ela estava selada, mas seu poder pode tê-la enfraquecido. Se essa escuridão despertar…
Ele não terminou a frase. Em vez disso, levantou-se e caminhou até a janela, olhando para o horizonte onde o sol já se punha.
— Você tem um destino, Aren. Mas também tem uma escolha. Pode usar esse poder para se vingar daqueles que o humilharam, ou pode usá-lo para proteger o que ainda resta.
Aren ficou em silêncio por um longo momento. Lembrou-se de Kael, Mira e Daren fugindo. Lembrou-se das risadas no teste de poderes. Mas também lembrou-se da voz antiga, que falara com tanta certeza.
— Eu quero entender — disse ele, finalmente. — Quero saber quem eu sou.
O diretor virou-se e sorriu, um sorriso cansado, mas esperançoso.
— Então comece amanhã. Haverá um treinamento especial para você. Mas, antes disso, descanse. O caminho à sua frente será difícil.
Aren levantou-se e fez uma reverência. Ao se virar para sair, o diretor o chamou mais uma vez.
— Aren. Cuidado com seus ex-amigos. O artefato que eles roubaram não é seguro. E, se eles tentarem usá-lo, as consequências podem ser desastrosas.
Aren assentiu e saiu da sala.
Ao descer as escadas da torre, ele sentiu o peso das palavras do diretor. O herdeiro dos deuses. Uma escuridão antiga. Um artefato perigoso. E, em meio a tudo isso, três pessoas que ele um dia chamara de amigos.
Ele parou no pátio, olhando para o céu estrelado. As marcas em seus braços brilhavam fracamente, como estrelas caídas em sua pele.
— Não importa o que venha — murmurou ele. — Eu não vou fugir.
Lá longe, nos dormitórios dos alunos, Kael segurava o artefato púrpura em suas mãos, sentindo uma energia estranha percorrer seus dedos. Mira observava da cama, preocupada. Daren caminhava de um lado para o outro.
— Nós erramos — disse Daren, finalmente.
— Não interessa mais — respondeu Kael, com os olhos fixos no artefato. — Agora, temos isso. E com isso, podemos ser mais fortes do que ele.
Mas, mesmo enquanto falava, uma sombra escura passou por seus olhos, e o artefato pulsou com uma luz sinistra.
Nas profundezas da montanha, algo acordou. E riu.