Chapter 3
A Primeira Lição
Aren inicia seu treinamento especial com o diretor, que revela segredos sobre seu poder e a escuridão antiga. Enquanto isso, Kael, Mira e Daren lidam com o artefato, que começa a corromper Kael. O capítulo termina com um sinal de que a escuridão está se aproximando.
Na manhã seguinte, Aren acordou antes do amanhecer. As marcas em seus braços ainda brilhavam, mas agora com uma luz mais suave, como se tivessem se acostumado à sua pele. Ele vestiu o uniforme da academia — uma túnica cinza com detalhes azuis — e desceu para o pátio. O ar da manhã era fresco, e os primeiros raios de sol pintavam as montanhas de dourado.
O diretor o esperava perto da fonte central, com as mãos cruzadas atrás das costas. Ao lado dele, estava uma figura que Aren não reconhecia: uma mulher alta, de cabelos prateados e olhos cor de âmbar, vestindo um manto vermelho que parecia dançar com o vento.
— Aren — disse o diretor, com um aceno. — Esta é a mestra Lira. Ela será sua instrutora nos próximos dias.
A mestra Lira inclinou a cabeça, mas seus olhos não se desviaram de Aren. Havia algo neles que o fazia sentir-se nu, como se ela pudesse ver através de sua alma.
— Dizem que você despertou o poder dos herdeiros — disse ela, com uma voz que soava como sinos ao vento. — Vamos ver se isso é verdade.
Ela estendeu a mão, e uma esfera de luz azul apareceu em sua palma. A esfera flutuou até Aren, pairando diante de seu peito.
— Toque-a — ordenou Lira. — E tente sentir a energia dentro dela.
Aren hesitou. A última vez que tocara uma pedra espiritual, nada acontecera. Mas agora era diferente. Ele ergueu a mão e tocou a esfera.
No instante em que seus dedos roçaram a superfície, uma onda de calor percorreu seu braço. As marcas em sua pele brilharam intensamente, e a esfera explodiu em mil fragmentos de luz que se dissiparam no ar.
A mestra Lira arqueou uma sobrancelha.
— Interessante. Você não apenas sentiu a energia, mas a absorveu. Isso é raro.
O diretor observava em silêncio, com uma expressão que misturava orgulho e preocupação.
— O poder de um herdeiro não é como o cultivo comum — explicou Lira, começando a caminhar ao redor de Aren. — A maioria dos alunos precisa extrair energia espiritual do ambiente, armazená-la e moldá-la. Mas você… você é um canal. A energia flui através de você, mas não se acumula. É como um rio, não como um lago.
Aren franziu a testa.
— Isso significa que não posso armazenar poder?
— Significa que você não precisa. Seu poder é a própria energia divina que permeia o mundo. Você não a controla — você a comanda. Mas isso tem um preço.
Lira parou diante dele e inclinou a cabeça.
— Se você não aprender a direcionar esse fluxo, ele o consumirá. Os herdeiros do passado queimaram como tochas quando tentaram usar mais poder do que podiam suportar.
Aren sentiu um frio na espinha. As marcas em seus braços pareceram pulsar mais rápido, como se ouvissem a advertência.
— Então me ensine — disse ele, com firmeza. — Quero aprender.
A mestra Lira sorriu, um sorriso fino que não alcançava seus olhos.
— Boa resposta. Começaremos com exercícios de respiração e meditação. Você precisa aprender a sentir o fluxo antes de tentar controlá-lo.
Ela o conduziu a uma clareira nos fundos da academia, cercada por árvores antigas. O chão estava coberto de folhas secas, e o silêncio era tão profundo que Aren podia ouvir o próprio coração.
— Sente-se — disse Lira, indicando uma pedra plana no centro da clareira. — Feche os olhos e respire. Sinta o ar entrando e saindo de seus pulmões. Depois, tente sentir a energia ao seu redor.
Aren obedeceu. Sentou-se na pedra, fechou os olhos e respirou fundo. No início, não sentiu nada além do vento fresco e do cheiro de terra molhada. Mas, aos poucos, começou a perceber algo mais: uma vibração suave, como se o ar estivesse vivo.
As marcas em seus braços brilharam, e ele sentiu a energia fluir para dentro de si, como água entrando em um recipiente vazio. Era uma sensação estranha, ao mesmo tempo familiar e nova.
— Você está indo bem — murmurou Lira. — Agora, tente empurrar essa energia para fora, para a palma de sua mão.
Aren concentrou-se, imaginando a energia se movendo de seu peito para o braço. As marcas brilharam mais forte, e ele sentiu um formigamento na mão direita. Abriu os olhos e viu uma pequena chama dourada dançando em sua palma.
— Eu consegui — sussurrou ele, maravilhado.
Mas, no momento seguinte, a chama cresceu descontroladamente, queimando sua mão. Aren gritou e sacudiu o braço, apagando a chama. A pele estava vermelha e dolorida.
— Calma — disse Lira, aproximando-se. — Isso é normal. O poder dos herdeiros é imprevisível no início. Você precisa aprender a controlar sua emoção. Raiva, medo, excitação — tudo isso afeta o fluxo.
Ela colocou a mão sobre a de Aren, e uma luz azul envolveu a queimadura. A dor desapareceu instantaneamente.
— Obrigado — disse ele, aliviado.
— Não agradeça ainda. Você tem muito a aprender. Mas mostrou potencial. Vamos continuar.
O treinamento durou horas. Aren aprendeu a sentir a energia, a deixá-la fluir e a direcioná-la em pequenas quantidades. Cada vez que perdia o controle, Lira o corrigia com paciência, mas sem complacência.
Quando o sol começou a se pôr, Aren estava exausto, mas também animado. Pela primeira vez, sentia que estava no caminho certo.
— Chega por hoje — disse Lira, com um aceno. — Descanse. Amanhã teremos mais.
Aren levantou-se, com as pernas trêmulas. As marcas em seus braços agora brilhavam com uma luz constante, como se tivessem se acalmado.
— Mestra Lira… — começou ele. — O que acontece com os herdeiros que perdem o controle?
Lira olhou para ele por um longo momento. Seus olhos âmbar pareciam ver além das palavras.
— Eles se tornam parte da escuridão que tentam combater — respondeu ela, em voz baixa. — Por isso você precisa ter cuidado, Aren. Seu poder é uma bênção, mas também pode ser uma maldição.
Ela virou-se e começou a caminhar de volta para a academia.
— Durma bem. Amanhã, começaremos a falar sobre a escuridão antiga.
Aren ficou ali, sozinho na clareira, enquanto as estrelas começavam a aparecer no céu. O vento soprava entre as árvores, e ele podia sentir a energia da montanha pulsando ao seu redor.
No dormitório dos alunos, a atmosfera era diferente. Kael estava sentado em sua cama, com o artefato púrpura em mãos. A superfície do objeto brilhava com uma luz sinistra, e sombras pareciam dançar em seu interior.
— Kael, pare com isso — disse Mira, da cama ao lado. — Esse artefato está mudando você.
— Não está mudando nada — respondeu Kael, sem desviar o olhar. — Está me mostrando o que posso ser.
Daren, que estava encostado na parede, cruzou os braços.
— Nós abandonamos Aren por causa disso. Você acha que vale a pena?
Kael ergueu os olhos, e por um instante, seus olhos pareceram brilhar com uma luz púrpura.
— Aren é o passado. Isso aqui é o futuro. Se vocês não querem fazer parte disso, podem ir embora.
Mira e Daren trocaram olhares preocupados, mas nenhum deles se moveu.
Naquela noite, enquanto Aren dormia, um sonho o visitou. Ele estava em uma caverna escura, com paredes cobertas de cristais que brilhavam fracamente. No centro da caverna, havia uma figura encapuzada, que segurava um cajado negro.
— Herdeiro — disse a figura, com uma voz que ecoava como trovão distante. — Você acordou cedo demais. O equilíbrio ainda não está pronto.
— Quem é você? — perguntou Aren, tentando se aproximar, mas seus pés pareciam presos ao chão.
— Sou o que resta do que veio antes. E estou observando.
A figura ergueu o cajado, e a caverna inteira tremeu. Os cristais brilharam intensamente, e Aren sentiu uma onda de energia tentando puxá-lo para as profundezas.
Ele acordou com um sobressalto, suando frio. As marcas em seus braços brilhavam com uma luz ofuscante, e ele podia sentir o coração batendo descontroladamente.
Lá fora, a lua estava cheia, e uma sombra escura passou sobre a academia, como se algo estivesse se movendo nas nuvens. Aren levantou-se e foi até a janela. Olhando para as montanhas ao longe, viu um clarão púrpura no horizonte, na direção das ruínas.
— A escuridão está se aproximando — murmurou ele, com um aperto no peito.
E, pela primeira vez, sentiu medo do que estava por vir.