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Chapter 3

Capítulo 3

Lara corre sozinha pela noite, perseguida pelos homens de Silva, enquanto Miguel enfrenta os capangas. Ela encontra refúgio em um beco, mas descobre que a barra de ferro tem um compartimento secreto com um chip. Miguel aparece ferido, e juntos fogem para a floresta, onde uma nova ameaça os espera.

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Lara corria sem olhar para trás, os pés batendo no asfalto molhado. O som da luta se dissipava, engolido pela chuva e pelos gritos. Ela virou em um beco estreito, o coração pulsando na garganta. As pernas doíam, os pulmões queimavam, mas ela não parava.

— Ali! — uma voz ecoou atrás.

Lara acelerou, desviando de latas e entulhos. O beco terminava em um muro alto. Ela praguejou baixo, olhando ao redor. Uma caixa d'água enferrujada encostada na parede. Subiu, as mãos escorregando na superfície molhada. Alcançou o topo do muro, jogou o corpo para o outro lado, caindo em um jardim abandonado.

Ficou imóvel por um instante, ouvindo os passos se afastarem. A chuva lavava o rosto, misturando-se ao suor. Levantou-se devagar, examinando o local. Uma casa velha, janelas quebradas, mato alto. Escondeu-se atrás de um arbusto, a barra de ferro apertada contra o peito.

Os minutos se arrastaram. A chuva diminuía, transformando-se em garoa fina. Lara tentou controlar a respiração, forçando a mente a se acalmar. Precisava pensar. Miguel estava sozinho contra quantos? Dois? Três? Ela não sabia.

— Idiota — murmurou, mais para si mesma. — Por que fez isso?

A resposta veio na forma de uma lembrança: o olhar dele antes de empurrá-la. Não era apenas proteção. Era culpa. Ele carregava o peso do passado, do círculo de Silva. E ela, sem querer, carregava uma peça desse quebra-cabeça.

Lara olhou para a barra de ferro. As marcas eram sutis, quase invisíveis na penumbra. Mas estavam lá: um símbolo gravado no metal, um círculo com uma linha cortando ao meio. Ela passou o dedo sobre ele, sentindo a textura.

— O que você esconde? — sussurrou.

De repente, um rangido. Lara ergueu a cabeça, os sentidos em alerta. O portão da casa rangeu, abrindo-se devagar. Ela prendeu a respiração, apertando a barra. Uma figura emergiu da escuridão, mancando.

— Miguel? — a voz dela saiu trêmula.

Ele cambaleou, a mão pressionando o ombro. Sangue escorria entre os dedos, misturando-se à chuva. Lara correu até ele, segurando-o antes que caísse.

— Você está ferido.

— Só um arranhão — ele disse, a voz rouca. — Precisamos sair daqui. Eles chamaram reforços.

Lara ajudou-o a sentar-se contra o muro. Rasgou um pedaço da própria camisa, pressionando contra o ferimento. Miguel estremeceu, mas não gritou.

— Por que fez isso? — perguntou ela, os olhos fixos no sangue. — Podia ter morrido.

— Não ia deixar eles te pegarem.

— Por quê?

Ele a encarou, os olhos escuros e cansados. — Porque você é a única chance que tenho de enterrar o passado. Essa barra, as marcas... você sabe o que significa?

Lara negou com a cabeça.

— É a chave — continuou ele. — Silva quer isso porque prova a existência do círculo. Provas que podem destruí-lo.

— E o que eu tenho a ver com isso?

— Você encontrou a barra. Ou melhor, alguém te deu. Quem?

Lara hesitou. A memória veio como um soco: o rosto do pai, os olhos assustados, as últimas palavras antes de desaparecer. — Meu pai. Ele me deu antes de... antes de ser levado.

Miguel fechou os olhos, soltando um suspiro. — Então é pior do que pensei. Seu pai sabia. Ele estava no círculo.

— O quê? Não! Meu pai era um professor. Não tinha nada a ver com isso.

— Ele te deu a barra, Lara. E as marcas provam que ele fazia parte. Silva o levou por isso.

O mundo pareceu desabar. Lara sentiu o chão fugir, as pernas fraquejarem. Ela segurou a barra com mais força, as unhas cravando na palma.

— Não... não pode ser.

— É a verdade. E você precisa aceitar. — Miguel tentou se levantar, cambaleando. — Agora, vamos. Antes que eles nos encontrem.

Lara ajudou-o a ficar de pé. Ele apoiou o braço no ombro dela, e juntos seguiram para os fundos do jardim. Uma cerca de arame farpado, um buraco na parte inferior. Passaram por ele, arranhando a pele.

Do outro lado, a floresta se estendia, escura e silenciosa. A lua mal aparecia entre as nuvens. Lara sentiu o cheiro de terra molhada, de folhas podres.

— Quanto tempo até a fazenda? — perguntou ela.

— Se não pararmos, umas quatro horas. Mas com esse ferimento... talvez mais.

— Vamos devagar. Não podemos arriscar.

Miguel assentiu, os dentes cerrados contra a dor. Caminharam em silêncio, os passos abafados pelo chão macio. A cada barulho, Lara parava, o coração disparado. Mas a floresta parecia vazia, apenas o som dos próprios corpos.

Depois de uma hora, Miguel parou, apoiando-se em uma árvore.

— Preciso descansar. Só um minuto.

Lara sentou-se ao lado dele, a barra no colo. Olhou para o símbolo, tentando entender. Seu pai, um professor de história, envolvido em um círculo criminoso? Não fazia sentido. Mas as provas estavam ali, frias e inegáveis.

— O que você sabe sobre meu pai? — perguntou ela, a voz baixa.

Miguel limpou o suor da testa. — Conheci ele uma vez. Há anos. Ele estava com Silva, discutindo algo. Depois disso, nunca mais o vi.

— E você? Por que saiu do círculo?

— Porque vi o que eles faziam. Pessoas inocentes morrendo, famílias destruídas. Não queria ser parte daquilo.

— Mas você era.

Ele a encarou, os olhos sombrios. — Era. E carrego isso todos os dias. Mas agora tenho chance de consertar. A barra é a prova. Com ela, posso entregar Silva e todos os outros.

— E depois? O que você vai fazer?

Miguel desviou o olhar. — Não sei. Talvez sumir. Recomeçar.

Lara sentiu um aperto no peito. A ideia de perdê-lo, mesmo depois de tudo, era estranhamente dolorosa. Ela baixou a cabeça, escondendo o rosto.

— Precisamos continuar — disse ele, levantando-se com esforço.

Ela o ajudou, e seguiram em frente. A floresta ficava mais densa, os galhos arranhando seus braços. A cada passo, o cansaço pesava mais. Mas Lara não reclamava. Não podia.

De repente, Miguel parou, erguendo a mão.

— Escuta.

Lara prendeu a respiração. Um som distante, quase imperceptível. Motores. Muitos motores, aproximando-se.

— Eles estão vindo de carro — disse ele, o rosto pálido. — Pela estrada. Vão nos cortar o caminho.

— O que fazemos?

Miguel olhou ao redor, os olhos rápidos. — Tem uma caverna perto. Podemos nos esconder lá até eles passarem.

— E se nos encontrarem?

— Não vão. A entrada é escondida. Mas precisamos correr.

Lara segurou o braço dele, ajudando-o a acelerar o passo. Os motores ficavam mais altos, as luzes dos faróis varrendo a floresta. Eles se jogaram para dentro de um matagal, rastejando até uma fenda na rocha.

Miguel entrou primeiro, puxando-a. A caverna era estreita, o ar úmido e frio. Eles se enfiaram no fundo, encolhidos, enquanto as luzes passavam lá fora.

— Acho que não nos viram — sussurrou Lara.

— Ainda não. Mas vão voltar.

Ela olhou para ele, o rosto iluminado pelo brilho distante dos faróis. O sangue dele manchava a roupa dela. A barra de ferro pesava em suas mãos.

— Miguel... — começou ela.

— Não. Não agora. Depois.

Ela calou-se, sentindo o calor do corpo dele contra o seu. O coração batia forte, mas não era só medo. Era algo mais, algo que ela não queria nomear.

Os motores se afastaram, o silêncio voltando. Mas antes que pudessem respirar aliviados, um novo som os fez gelar: passos. Passos pesados, aproximando-se da entrada da caverna.

— Estão aqui — sussurrou Miguel, a faca brilhando na mão. — Fica atrás de mim.

Lara apertou a barra, o coração na boca. A sombra de uma figura bloqueou a entrada.

— Saiam. Sabemos que estão aí.

A voz era familiar. Muito familiar. Lara sentiu o sangue gelar.

— Comandante Silva.

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