Chapter 2
Capítulo 2
Lara e Miguel fogem pelos becos escuros, trocando farpas e revelações perigosas. A perseguição os leva a um esconderijo improvisado, onde a tensão entre eles cresce. Lara descobre mais sobre o passado de Miguel, mas novas ameaças surgem, forçando-os a uma escolha arriscada.
A chuva castigava o asfalto, transformando a rua num espelho de luzes tremulas. Lara seguiu Miguel pelo beco, os pés escorregando nas poças. Ele não olhava para trás, apenas puxava-a com firmeza, os dedos frios envoltos nos dela.
— Para onde estamos indo? — perguntou ela, a voz cortada pelo vento.
— Para um lugar seguro. Por enquanto.
O tom dele não admitia discussão. Lara mordeu a língua, sentindo o gosto metálico do sangue e do medo. As sirenes aproximavam-se, mas Miguel desviou por uma passagem estreita entre dois prédios, onde o cheiro de lixo e urina era sufocante.
Ele parou diante de uma porta de metal enferrujada, enfiando a faca na fechadura. Um clique seco, e a porta cedeu. Miguel empurrou Lara para dentro, fechando atrás de si. O silêncio que os envolveu era denso, quebrado apenas pela respiração ofegante de ambos.
— Aqui estamos — murmurou ele, acendendo um isqueiro. A chama revelou um porão abandonado, com caixas empilhadas e teias de aranha. — Não é o Hilton, mas serve.
Lara encostou-se na parede, a barra de ferro ainda firme na mão. Examinou o espaço, procurando saídas. Só havia uma porta — a que tinham acabado de cruzar.
— Confia em mim? — perguntou Miguel, sentando-se numa caixa.
— Não.
Ele riu, um som baixo e amargo. — Pelo menos é honesta.
— Você ainda não respondeu — insistiu Lara, os olhos faiscando. — Por que está me ajudando?
Miguel inclinou a cabeça, observando-a como se ela fosse um enigma. — Já trabalhei para Silva. Conheço os métodos dele. Você não merece o que ele planeja.
— E o que ele planeja?
O silêncio se alongou. A chuva tamborilava no teto de zinco, criando uma melodia inquietante.
— Coisas que não se dizem em voz alta — respondeu ele, finalmente. — Mas você sabe, não sabe? Sabe o que carrega.
Lara apertou a barra de ferro. — Não vou te contar.
— Não estou pedindo. Só quero entender por que vale a pena arriscar minha vida por você.
— Você não arrisca nada. Pode ir embora quando quiser.
Miguel levantou-se, aproximando-se devagar. Lara sentiu o calor do corpo dele, mesmo no frio do porão. Ele parou a poucos centímetros dela, os olhos fixos nos dela.
— Se eu fosse embora, você morreria. E, por algum motivo idiota, isso me incomoda.
A confissão pairou no ar, crua e inesperada. Lara desviou o olhar, sentindo o coração disparar. Não era o momento para fraquezas.
— Precisamos de um plano — disse ela, mudando de assunto. — Silva vai revirar a cidade.
— Já tenho um plano. Mas você não vai gostar.
— Fala.
Ele deu um passo para trás, os braços cruzados. — Conheço um lugar fora da cidade. Uma fazenda abandonada, longe das rotas dele. Se chegarmos lá, podemos respirar por alguns dias. Mas a viagem é perigosa. A pé, pela floresta.
Lara pensou nas próprias pernas doloridas, nos joelhos arranhados. — Quanto tempo?
— Seis horas, se não encontrarmos problemas. E vamos encontrar.
— Então vamos.
Miguel ergueu uma sobrancelha. — Assim, fácil?
— Não tenho escolha. E você está aqui, não está? Então também não tem.
Ele sorriu, um sorriso sem humor. — Toca. Mas precisamos de suprimentos. Tem um mercado a duas quadras. Vou buscar comida e água.
— Sozinho?
— Você fica aqui. É mais seguro.
Lara quis protestar, mas a lógica venceu. Ela era um alvo ambulante. — Volta rápido.
— Sempre volto. — Ele pegou a faca, guardou-a no cinto. — Tranca a porta por dentro. Só abre para mim.
— Como vou saber que é você?
— Vou bater três vezes. Depois duas. Código antigo.
Ela concordou com a cabeça. Miguel deslizou para fora, a porta fechando-se com um clique. Lara correu o ferrolho, sentindo o peso do metal. Sozinha, o silêncio era ensurdecedor.
Os minutos se arrastaram. A chuva diminuíra, transformando-se em garoa. Lara sentou-se no chão, a barra de ferro ao lado. Fechou os olhos, tentando controlar a respiração.
Então ouviu. Passos. Muitos passos, ecoando lá fora. Vozes abafadas.
— Vasculhem cada beco! Ela está por aqui!
O coração de Lara disparou. Levantou-se, pegando a barra. Os passos aproximavam-se da porta. Ela prendeu a respiração, os dedos suados no metal.
Uma batida. Três vezes. Depois duas.
— Sou eu — a voz de Miguel, baixa e urgente.
Lara destrancou, abrindo a porta. Ele entrou rápido, os braços carregados com uma mochila. Fechou a porta, trancando-a novamente.
— Eles estão por toda parte — disse ele, ofegante. — Temos que sair agora. Pelos fundos.
— Pelos fundos? Não tem saída.
— Tem. Uma escada de incêndio. Leva ao telhado. Depois pulamos para o prédio ao lado.
Lara olhou para a escuridão do porão. — E se não der certo?
— Dá. Confia em mim.
Ela respirou fundo. As palavras dele ecoaram na mente. Confia em mim. Não tinha escolha. Assentiu.
Miguel puxou-a, guiando-a por entre caixas até uma escada de metal enferrujada. Subiram, os degraus gemendo. No topo, uma alçapão. Ele empurrou, e a noite fria os engoliu.
O telhado era escorregadio, a superfície molhada. Lá embaixo, lanternas varriam as ruas. Miguel apontou para o prédio vizinho, a uma distância de dois metros.
— Vamos pular.
— Você tá louco?
— É a única saída. Vai primeiro. Eu seguro.
Lara olhou para o abismo. O medo apertou o peito, mas a raiva era maior. Não ia morrer ali, acuada como um rato. Tomou impulso e saltou.
O impacto foi bruto, os joelhos dobrando. Ela caiu de lado, rolando no telhado do outro prédio. Levantou-se a tempo de ver Miguel saltar, aterrissando com graça felina.
— Vamos — disse ele, puxando-a. — Eles vão ouvir o barulho.
Correram pelo telhado, saltando para outro, e mais outro. Até que, finalmente, desceram por uma escada de incêndio até um beco vazio. A rua estava deserta.
Miguel parou, as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego. — Conseguimos. Por enquanto.
Lara inclinou-se, tossindo. — E agora?
Ele ergueu a cabeça, os olhos brilhando na escuridão. — Agora, seguimos para a floresta. Mas antes, preciso de uma resposta.
— O quê?
— Por que você tem isso? — Ele apontou para a barra de ferro. — Não é uma arma comum. Tem marcas. Marcas que reconheço.
Lara gelou. A barra era mais do que parecia. Ela a segurou com mais força.
— Não é da sua conta.
— É, sim. Porque essas marcas são do mesmo grupo que me treinou. Você está carregando uma peça do passado que eu pensava ter enterrado.
O silêncio caiu entre eles, pesado como chumbo. Lara olhou para a barra, depois para ele. A verdade estava na ponta da língua, mas o medo a segurava.
— Você não é apenas um mercenário — disse ela, finalmente. — Você é um deles. Um ex-membro do círculo de Silva.
Miguel não negou. Apenas a encarou, os olhos duros.
— E agora? — perguntou Lara, a voz trêmula.
— Agora, você decide se ainda confia em mim sabendo disso.
Lara hesitou. O vento uivava entre os prédios, trazendo o som distante de vozes. O cerco estava se fechando. Ela olhou para a barra, depois para Miguel. A escolha era impossível.
— Precisamos ir — disse ela, evitando a pergunta.
Miguel assentiu, mas o olhar dele dizia que a conversa não tinha terminado. Virou-se e começou a caminhar, os passos rápidos e decididos.
Lara seguiu, a barra de ferro pesando na mão. O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: o passado de Miguel era tão sombrio quanto o dela. E, naquela cidade de segredos, a verdade poderia matá-los.
De repente, um carro preto parou na esquina, os faróis cegando-os. Portas se abriram. Vozes metálicas cortaram a noite:
— Comandante Silva quer vocês vivos. Mas não necessariamente inteiros.
Miguel empurrou Lara para trás, colocando-se na frente. A faca brilhou na mão dele.
— Corre — sussurrou ele. — E não olha para trás.
Lara vacilou, mas os passos dos homens se aproximavam. Não havia tempo para discutir. Ela girou nos calcanhares e correu para a escuridão, o coração batendo como um tambor de guerra.
Atrás dela, o som de luta. E depois, um grito abafado.
Ela não olhou para trás.