Chapter 1
Capítulo 1
Lara entra em uma sala abandonada para se esconder, perseguida pelos homens do Comandante Silva. Miguel, aliado e ameaça, a surpreende ali, forçando uma colaboração tensa. Durante a chuva, passos dos perseguidores pressionam os dois, tornando clara a necessidade de confiança mútua – mesmo que contra a vontade. O capítulo termina com Miguel tomando uma decisão ousada diante de um perigo iminente.
“Você não devia estar aqui.”
A voz de Miguel partiu a escuridão antes mesmo que Lara enxergasse seu rosto. O choque percorreu sua espinha; ela já imaginava perigos, mas não esperava por ele. Trancou a porta atrás de si com mãos trêmulas, tentando ignorar o zunido dos passos vindos do corredor. O frio cortava, mas o medo era mais afiado.
A sala era pequena, cheirava a cimento úmido e promessas quebradas. Lara encostou-se na parede oposta, olhos atentos a cada movimento de Miguel. Ele parecia uma sombra com músculos, imponente e impenetrável. O olhar — duro, mas não cruel — varria o ambiente, avaliando possibilidades.
Lá fora, a tempestade engrossava, abafando sons e aumentando a tensão. Os passos dos perseguidores batiam como martelos, ecoando através das paredes finas. Lara cerrou os punhos, forçando a respiração a ficar lenta. Não podia se dar ao luxo de vacilar.
Miguel cruzou os braços. “Se te encontrarem comigo, vai complicar tudo.” Ele falava baixo, mas cada palavra tinha peso de pedra.
“Se me encontrarem sozinha, complicará mais ainda.” Lara contra-atacou, a voz vacilando só no final. Sabia que estar ali com ele não era seguro, mas, no fundo, reconhecia que pior seria enfrentar Silva de mãos vazias.
O silêncio voltou, preenchido pelo trovão distante. O contato dos olhares era uma batalha surda. Miguel, sempre calculista, manteve a expressão imóvel. Mas algo nos ombros tensos traía a inquietação. Lara limitou-se a observar, tentando decifrá-lo — e a si mesma.
O perigo aproximava-se. Os passos agora estavam do outro lado da porta. Lara segurou o fôlego, encostando-se ainda mais à parede, dedos procurando algo no bolso. Miguel sinalizou com a mão para que ficasse quieta.
Do corredor, vozes abafadas:
“Ela tem que estar aqui! Vasculhem tudo!”
Lara mordeu o lábio até sentir gosto de sangue. Miguel rapidamente girou a maçaneta, travando a porta com o corpo. Olhou para ela, voz quase inaudível:
“Confia em mim por cinco minutos?”
Ela hesitou. Miguel não era confiável, mas ali, entre paredes descascadas e inimigos à porta, tinha pouco a perder. Apenas assentiu.
Os perseguidores começaram a forçar a maçaneta. Miguel sacou uma pequena faca, deslizando-a pela fresta da porta como se conhecesse cada detalhe do prédio. Um rangido, e a porta parecia emperrada de verdade. Lara entendeu: ele bloqueou o mecanismo. Era engenhoso, como sempre.
Mas a pressão dos do outro lado aumentava. Pancadas ecoaram. Lara resistiu à vontade de recuar; precisava parecer invisível. Miguel mantinha-se imóvel, olhos fixos na porta, ouvindo cada som, cada intervalo entre as marteladas.
De repente, silêncio. Uma batida mais forte, e os passos afastaram-se.
“Eles vão tentar a janela dos fundos,” sussurrou Miguel, sem desviar o olhar. “Temos pouco tempo.”
Lara aproximou-se. “Por que está me ajudando? Você trabalha pra eles.”
Ele não respondeu de imediato. O silêncio doía mais que uma resposta dura.
“Algumas regras são feitas para serem quebradas. Outras, para serem impostas.” O sussurro saiu grave, sem emoção. “Agora, fica atrás de mim.”
Ela se moveu obediente, não por temor, mas pelo instinto de sobrevivência. Miguel examinou a única janela — suja, gradeada, mas parcialmente aberta. A chuva entrava em filetes, tornando o chão escorregadio.
Miguel olhou sobre o ombro. “Você consegue correr?”
“Se for preciso.”
“Então esteja pronta.”
Do lado de fora, vozes subiram em tom. “Peguem-na viva! O Comandante quer respostas!”
Lara sentiu a menção ao nome como um golpe. Silva. Ele nunca desistia. O medo quase a paralisava, mas a presença de Miguel — mesmo envolta em mistério e perigo — trazia uma pontada de esperança inesperada.
Miguel se abaixou, forçando a grade enferrujada. O metal gemeu, mas cedeu alguns milímetros. Ele enfiou a faca por baixo, fazendo alavanca.
Enquanto ele lutava com o metal, Lara aproveitou o tempo para vasculhar a sala. Achou uma barra de ferro caída num canto. Pegou-a, sentindo o peso reconfortante na mão.
“Inteligente,” Miguel murmurou, notando o gesto. “Vai precisar.”
Os passos voltaram, mais próximos, agora vindos dos fundos.
Miguel parou, suor escorrendo pela testa. A grade cedeu, finalmente solta.
“Agora,” disse ele, abrindo espaço. “Primeiro você.”
Lara lançou-lhe um olhar desconfiado, mas não hesitou. Escorregou pela janela, sentindo os joelhos ralar no cimento. Do lado de fora, a tempestade era violenta, mas ao menos havia liberdade — por alguns segundos.
Miguel veio logo atrás, caindo com agilidade felina. Mal haviam saído, ouviram gritos no interior da sala. “Eles escaparam!”
Miguel agarrou Lara pelo braço, puxando-a para uma viela escura. Os dois correram, desviando de detritos e poças. Lara sentia o peito em chamas, mas o instinto gritava para não parar.
Em uma esquina, Miguel finalmente desacelerou. Olhou ao redor, atento, antes de liberar o braço de Lara. O olhar dele estava mais brando, mas ainda cheio de dúvidas e comando.
“Onde está o que eles procuram?”
Lara hesitou, olhos fixos nos dele. “Não posso dizer… ainda.”
Miguel deu um meio sorriso, cansado. “Então terá que confiar em mim por mais que cinco minutos.”
A sirene distante cortou o ar. Vozes e lanternas se aproximavam pela rua. Miguel se virou bruscamente, empurrando Lara contra a parede.
“Fique atrás de mim. E não faça nada estúpido.”
A adrenalina pulsou. Lara se preparou. A qualquer momento, alguém dobraria a esquina. O jogo estava longe de acabar — e, agora, era impossível voltar atrás.