Chapter 2
Capítulo 2: Notas Soltas
Ana decide ir ao show de Pedro em um bar pequeno. Lá, a música a envolve e, após a apresentação, eles conversam e compartilham vulnerabilidades. Pedro revela um pouco de seu passado sombrio, e a conexão entre eles se aprofunda. O capítulo termina com Ana sentindo que Pedro esconde algo, mas incapaz de se afastar.
Passei a noite em claro, relendo o papel amassado com o endereço do bar. As letras escritas à mão pareciam dançar sob a luz fraca do abajur, como se quisessem me convencer a ir. E eu queria. Mas aquela vozinha insistente, a mesma que me fazia duvidar de cada quadro, cochichava: "E se for uma armadilha? E se ele for só mais um cara que toca para impressionar garotas?"
De manhã, Sofia apareceu na porta do meu apartamento com um café e um olhar inquisitivo.
— Você parece que viu um fantasma. Ou um músico. — Ela riu, sentando na ponta da minha cama. — O que houve? Vai vê-lo hoje?
Eu tomei o café em silêncio, sentindo o calor descer pela garganta. — Talvez.
— "Talvez" é o seu jeito de dizer "sim, mas estou com medo". — Ela revirou os olhos. — Ana, você passa a vida esperando por algo que te tire da rotina. Agora que apareceu, vai deixar passar?
Ela tinha razão. Como sempre. Respirei fundo. — Vou. Hoje à noite.
Sofia sorriu, satisfeita, e me ajudou a escolher a roupa. Optei por um vestido leve, azul-marinho, que realçava meus olhos. Nada muito chamativo. Queria parecer interessante, mas não desesperada.
O bar ficava numa rua estreita, escondido entre lojas fechadas. Uma placa de neon piscava "O Som do Beco". Lá dentro, a atmosfera era íntima: mesas de madeira, iluminação baixa, um cheiro de cerveja e suor. Poucas pessoas. No fundo, um palco minúsculo com um banquinho e um microfone.
Pedro estava afinando o violão, de costas para o público. Eu sentei perto do palco, num canto, tentando parecer casual. Meu coração batia contra as costelas.
Ele se virou e me viu. Um sorriso iluminou seu rosto, e eu senti o chão sumir.
— Ana. Você veio. — Ele se aproximou, o violão pendurado no ombro. — Fico feliz.
— Eu disse que talvez aparecesse. — Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— "Talvez" é a palavra mais linda do dicionário. — Ele piscou, e eu ri, nervosa.
O show começou com uma música instrumental, dedilhada com tanta delicadeza que parecia uma oração. Depois, ele cantou. A voz era rouca, cheia de falhas, mas cada nota carregava uma emoção crua. Eu me perdi na melodia, esquecendo onde estava.
Entre uma música e outra, ele falou sobre a composição: "Essa é sobre uma garota que eu vi num festival. Ela tinha tinta nos dedos e um olhar que perguntava 'e agora?'".
Ele olhou para mim. O público riu, e eu corei.
Depois do show, ele me encontrou perto do balcão.
— Gostou?
— Sua voz... é diferente. Não parece ensaiada. — Eu disse, sincera.
— Acho que é a única coisa verdadeira em mim. — Ele baixou os olhos. — Posso te oferecer algo? Um suco, uma cerveja?
— Um suco, vai.
Sentamos numa mesa afastada. Ele parecia mais tímido agora, sem o violão como escudo.
— Você toca bem. De verdade. — Falei, quebrando o silêncio.
— Obrigado. Mas não é só técnica. É... — Ele hesitou. — É sobre colocar a dor pra fora. Cada acorde é uma cicatriz.
Fiquei em silêncio. Aquela frase ressoou em mim.
— E você? Sua arte também é sobre cicatrizes? — Ele perguntou, inclinando-se.
— Acho que sim. Pinto paisagens, mas sempre tem um toque de tristeza. Uma árvore torta, um céu nublado. — Sorri sem graça. — É mais fácil esconder em formas do que em palavras.
Ele me olhou por um longo tempo. Depois, disse: — Você tem medo de se mostrar, não é?
— Todos temos. — Respondi.
— Sim. Mas alguns de nós escondem coisas que podem destruir quem amamos.
Uma sombra passou por seu rosto. Eu quis perguntar, mas ele rapidamente mudou de assunto.
— Quer ouvir uma música que nunca toquei pra ninguém?
Assenti, curiosa.
Ele tirou o violão do estojo e começou a tocar. Era uma melodia lenta, melancólica, com acordes dissonantes que pareciam gritar. A letra falava de um erro, de uma escolha que custou caro, de um nome que não se podia mencionar. Marcos. Ele não disse o nome, mas eu senti.
Quando terminou, o silêncio era pesado.
— Quem é Marcos? — Perguntei, sem pensar.
Ele empalideceu. — Como sabe?
— Você falou no meio da música. "O eco de Marcos ainda me assombra."
Ele passou a mão no cabelo, nervoso. — É... alguém do passado. Algo que fiz. Não posso falar sobre isso agora.
O ar entre nós ficou denso. Eu queria insistir, mas vi a dor em seus olhos. Algo dentro de mim dizia para ter paciência.
— Tudo bem. — Murmurei. — Quando quiser, estarei aqui.
Ele segurou minha mão sobre a mesa. O toque era quente, e meu coração disparou.
— Obrigado, Ana. Você é diferente.
Ficamos ali, conversando sobre arte, música, sonhos. Ele me contou sobre a infância difícil, a mãe que o criou sozinha, a fuga para a música. Eu falei sobre meu pai ausente, a sensação de nunca ser suficiente. Pela primeira vez, me senti ouvida de verdade.
Quando o bar fechou, ele me acompanhou até a porta do meu prédio. A noite estava fria, e as estrelas pareciam mais brilhantes.
— Posso te ver de novo? — Ele perguntou, com um tom quase infantil.
— Amanhã? — Sugeri, surpreendendo a mim mesma.
Ele sorriu. — Amanhã.
Então, antes que eu pudesse me despedir, ele se inclinou e roçou os lábios nos meus. Um beijo rápido, tímido. Mas que acendeu algo dentro de mim.
— Até amanhã, Ana. — Ele sussurrou, e se foi.
Entrei no prédio com o coração na boca. Subi as escadas flutuando. Mas, ao fechar a porta do meu apartamento, percebi que ele não tinha me dado o número de telefone. Nem eu pedi.
E, na minha mente, ecoava a palavra: Marcos. Quem era ele? O que Pedro escondia?
Peguei o celular e digitei o nome no buscador, mas não achei nada. Talvez fosse só um amigo do passado. Mas a melodia ainda soava nos meus ouvidos, e a letra falava de perda e culpa.
Naquela noite, sonhei com cores escuras. E com um par de olhos que prometiam segredos.