Chapter 1
Capítulo 1
Ana, uma artista plástica de 24 anos que se sente presa a uma rotina previsível e insegura sobre seu talento, é convencida por sua amiga Sofia a ir a um festival de rua. Lá, ela se depara com a apresentação de um músico chamado Pedro, cuja performance a emociona profundamente. Após uma troca de olhares e um breve acidente com o violão de Pedro, eles iniciam uma conversa que revela uma conexão inesperada. O capítulo termina com Ana ansiosa para reencontrá-lo no dia seguinte.
A minha vida era uma tela com cores previsíveis. Acordava, tomava café, passava horas no ateliê tentando transformar sentimentos em formas, e depois ia dormir com a sensação de que faltava algo. Eu não conseguia nomear aquele vazio, apenas sentia. Como uma nota musical que insiste em ficar fora do acorde, mas que você não consegue identificar de onde vem. Aos 24 anos, eu já deveria ter encontrado meu caminho, não? Mas a verdade é que a insegurança era minha companheira mais fiel. Cada pincelada que eu dava era uma pergunta silenciosa: "É o suficiente? Sou o suficiente?"
Sofia, minha amiga de longa data, era o oposto de mim. Enquanto eu me perdia em devaneios, ela tinha os pés no chão e uma agenda cheia de planos práticos.
— Ana, você não pode passar o sábado inteiro trancada aqui. Vai ter um festival na praça central, com música, comida, arte ao vivo... — Ela disse, me puxando pelo braço. — Você precisa se mostrar, ver outras coisas. Inspiração, lembra?
Eu suspirei, olhando para a tela inacabada à minha frente. Uma paisagem urbana cinzenta, sem vida. Talvez ela tivesse razão. Talvez eu precisasse de algo novo.
— Tá bom, mas só por algumas horas.
O festival era tudo o que ela prometeu e mais um pouco. Barracas coloridas, cheiro de especiarias, crianças correndo e, no centro, um palco improvisado. Uma banda estava tocando, mas a multidão era densa e eu mal conseguia ouvir. Sofia logo se distraiu com um amigo e me deixou sozinha. Andei sem rumo, sentindo o sol quente na pele, quando uma melodia me parou.
Era um som diferente. Não era o rock genérico que tocava no palco principal. Vinha de um canto mais afastado, perto de uma fonte. Uma guitarra acústica, dedilhada com uma precisão que parecia nascer da alma. Eu segui o som, curiosa.
Ele estava sentado em um banco de pedra, os olhos fechados, os dedos voando sobre as cordas. O cabelo escuro caía sobre o rosto, mas eu conseguia ver a concentração, a entrega total. A música era triste, mas bonita. Cheia de notas que pareciam contar uma história. Eu parei a alguns metros, hipnotizada.
Quando a música terminou, ele abriu os olhos. E me viu.
Por um segundo, o mundo ao redor sumiu. O barulho da multidão, o cheiro de comida, o calor. Só existia aquele olhar intenso, meio melancólico, que parecia enxergar através de mim. Eu quis desviar, mas não consegui. Fiquei parada, como uma tola.
— Gostou? — Ele perguntou, com a voz rouca, como se não falasse há horas.
— É... sim. Muito. — Minha voz saiu mais baixa que o normal. — Você compôs?
Ele assentiu, um sorriso tímido surgindo no canto da boca. — É nova. Ainda estou testando.
— Parece completa para mim. — Eu disse, antes de pensar. Era a verdade.
Ele me estudou por um momento, e eu me senti exposta. Ele não estava apenas me olhando, estava me lendo. Como se pudesse ver as tintas secas da minha alma.
— Você é artista? — Ele perguntou, apontando para minhas mãos. Olhei para elas, manchadas de têmpera. Sujeira que eu nem tinha percebido.
— Tento ser. — Respondi, envergonhada.
— Não tente. Só seja. — Ele disse, simples. — A música não me perguntou se eu podia, ela simplesmente veio. Você precisa deixar a arte vir.
Fiquei sem palavras. Aquela frase ecoou em mim, como se ele tivesse aberto uma janela que eu mantinha fechada. Antes que eu pudesse responder, um grupo de pessoas se aproximou, pedindo autógrafos e fotos. Ele me olhou por cima dos ombros, com uma expressão que parecia dizer "me espera".
Mas eu não esperei. Me afastei, confusa. Meu coração batia acelerado, e eu não sabia por quê. Encontrei Sofia mais tarde, e ela notou meu silêncio.
— O que foi? Você viu um fantasma?
— Não. Vi um músico. — Murmurei, e ela riu.
No dia seguinte, quando o despertador tocou, eu tinha uma sensação estranha. Como se algo tivesse mudado, mesmo que eu não soubesse o quê. Decidi voltar ao festival, só para ver se ele ainda estava lá. Uma desculpa qualquer: "preciso de uma referência para meu próximo quadro".
Ele estava no mesmo lugar, dedilhando outra melodia. Dessa vez, uma mulher dançava perto dele, e ele sorria. Um sorriso aberto, que iluminava o rosto. Algo apertou dentro de mim. Ciúmes? Não, não podia ser.
Ele me viu antes que eu pudesse fugir. Levantou a mão, num aceno tímido. A mulher parou de dançar e olhou na minha direção. Então, ele se levantou, se desculpou com ela e veio até mim.
— Pensei que não voltaria. — Ele disse, sem rodeios.
— Por que pensou?
— Porque você parece o tipo de pessoa que foge de coisas que não entende.
Ele estava certo. E eu odiei um pouco por isso. Mas também me senti vista.
— Meu nome é Pedro. — Ele estendeu a mão.
— Ana.
Apertei sua mão. O contato foi curto, mas eletrizante. Ele soltou devagar, como se não quisesse.
— Posso te mostrar uma música que estou compondo? É sobre... encontros inesperados.
Eu queria dizer não, voltar para minha rotina previsível, onde ninguém mexia comigo. Mas algo maior me puxou.
— Tudo bem.
Ele sorriu, sentou no banco e começou a tocar. E naquela melodia, eu senti o começo de algo que eu não sabia nomear. Algo que, lá no fundo, eu sabia que iria bagunçar todas as cores da minha vida.
Quando a música terminou, o silêncio era denso. Eu só conseguia pensar: "E agora?"
Pedro guardou o violão e me encarou.
— Amanhã, tem um show meu num bar pequeno, perto daqui. Se você quiser ir... posso te reservar um bom lugar.
O convite pairou no ar. Eu podia recusar, fingir que aquilo não significava nada. Mas a insegurança que sempre me acompanhava parecia, naquele instante, um pouco menor.
— Talvez eu apareça.
Ele anotou o endereço num papel amassado e me entregou. Nossos dedos se tocaram de novo.
— Espero que sim, Ana. — Ele disse, e a forma como pronunciou meu nome fez meu estômago revirar.
Enquanto eu caminhava de volta para casa, o papel queimava na minha mão. Eu olhei para o céu, para as nuvens que se moviam lentamente, e pensei que, talvez, o destino tivesse outros planos para mim. Planos que envolviam aquele músico de olhar triste e mãos que falavam.
Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei imaginando o que aconteceria se eu fosse ao show. Se eu não fosse. As possibilidades se desenhavam como esboços imperfeitos. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não queria apagá-los.