Chapter 2
Capítulo 2 — O Som da Memória
Sofia investiga o quarto com o espelho e encontra um esboço que sugere um cômodo oculto. Ao descer para atender a uma batida, conhece o Dr. Arthur Mendes, um historiador cético cuja visita a deixa inquieta. Quando ele parte, Sofia descobre que o esboço desapareceu e ouve um novo sussurro de alerta.
Sofia ficou imóvel por um longo instante, a mão ainda na maçaneta gelada. O coração batia tão forte que ela quase não ouvia o próprio pensamento. O quarto diante dela era escuro, mas a luz do corredor revelava o suficiente: uma cama de ferro, uma escrivaninha de madeira maciça e, na parede oposta, o espelho alto e emoldurado que refletia seu rosto pálido. Ela deu um passo para dentro, e o assoalho gemeu. O ar estava carregado de pó e de um cheiro adocicado, como flores secas. O sussurro que chamara seu nome havia cessado, mas a casa permanecia em alerta, cada som amplificado pelo silêncio.
O espelho era antigo, com moldura de gesso adornada por folhas e flores esculpidas. O vidro estava manchado, mas ainda assim ela viu seu próprio reflexo — e, por uma fração de segundo, a silhueta feminina atrás dela novamente. Sofia virou-se bruscamente, mas o quarto estava vazio. Apenas a cama, a escrivaninha e uma cortina pesada que cobria a janela. Ela respirou fundo, forçando a calma. "Foi a luz", murmurou. "A luz do corredor criando sombras."
Mas algo a fez caminhar até a escrivaninha. A superfície estava coberta por uma fina camada de poeira, e no centro havia um porta-retratos de prata virado para baixo. Sofia o pegou com cuidado. A foto mostrava uma mulher jovem, de cabelos escuros e olhos tristes, sentada em um jardim. No canto, escrito à mão: "Eliza, primavera de 1979." A antiga moradora. Sofia sentiu um arrepio percorrer a nuca. Ela colocou o retrato de volta e abriu a gaveta da escrivaninha. Dentro, um caderno de capa dura, com páginas amareladas e desenhos a carvão. Eram esboços da casa: ângulos de paredes, detalhes de janelas, plantas baixas. No meio do caderno, uma página estava dobrada. Sofia a desdobrou e viu o desenho de um cômodo que não existia na casa atual — um retângulo alongado, com uma janela alta e, no centro, algo parecido com um cavalete. Na margem, uma anotação: "Estúdio. A luz da manhã entra pela fresta."
Ela franziu o cenho. A planta da casa que o advogado lhe dera não mostrava nenhum estúdio. Havia um desnível estranho na parede do corredor do segundo andar, uma espessura extra que ela notara ao subir. Seria possível que houvesse um cômodo escondido? Uma parede falsa? Sofia passou os dedos sobre o desenho, sentindo a textura do papel. O sussurro voltou, baixinho, como um eco dentro da própria cabeça. "Escute..." Ela prendeu a respiração, tentando distinguir as palavras. "Não confie..."
Antes que pudesse processar, um som cortou o ar: uma batida forte e ritmada vinda do térreo. Alguém batia na porta da frente. Sofia sobressaltou-se, o caderno quase caindo de suas mãos. Ela o guardou na gaveta, fechou-a e saiu do quarto, os passos apressados no corredor. A escada rangeu sob seu peso enquanto descia. A batida soou novamente, mais insistente.
Ela abriu a porta e se deparou com um homem de meia-idade, barba grisalha bem aparada e óculos de aro grosso. Ele vestia um casaco surrado e segurava uma pasta de couro. O semblante era sério, analítico, como se estivesse avaliando cada detalhe ao redor.
— Sofia Almeida? — perguntou, com uma voz firme e autoritária.
— Sim. Quem é você?
— Dr. Arthur Mendes. Sou historiador, pesquiso a história desta região. Ouvi dizer que a casa foi herdada por você e gostaria de fazer algumas perguntas, se não se importar.
Sofia hesitou. Algo na postura do homem a deixava em alerta, mas a curiosidade falou mais alto. Ela se afastou para deixá-lo entrar.
— Só um momento. A casa está uma bagunça. Acabei de chegar.
Arthur Mendes entrou, examinando o saguão com olhos críticos. Ele passou os dedos pela parede, observando o papel de parede desbotado.
— Construção do final do século XIX — disse, quase para si mesmo. — Sólida, mas com problemas de umidade. Não é incomum ouvir barulhos estranhos em casas antigas, não acha?
Sofia franziu o cenho. O tom dele parecia quase um desafio.
— Sim, já notei alguns rangidos.
— E sussurros? Visões? — ele perguntou, com um sorriso irônico. — Desculpe, não quero parecer cético. Mas já vi muitos casos de pessoas que se deixam levar pela imaginação em lugares como este.
Ela não respondeu. Arthur Mendes deu alguns passos pelo corredor, parando diante do retrato de Eliza Montenegro.
— A antiga moradora. Eliza Montenegro, artista. Morreu em circunstâncias misteriosas, segundo os registros. Dizem que a casa guarda segredos. Mas, para mim, segredos são apenas fatos ainda não explicados pela ciência.
Sofia sentiu um arrepio. A maneira como ele falava de Eliza, como se ela fosse um objeto de estudo, a incomodava.
— Por que o interesse nesta casa? — perguntou.
— Estou escrevendo um livro sobre as construções históricas da região. Esta casa sempre me intrigou. Se você não se importa, gostaria de dar uma olhada no interior. Posso?
Ela hesitou novamente, mas assentiu. Ele passou pelo corredor, entrou na sala de estar, examinou as janelas, o lustre. Sofia o seguia, sentindo-se cada vez mais desconfortável. Quando ele se virou para subir a escada, ela o deteve.
— O andar de cima está em reforma. Melhor não subir.
Ele a encarou por um instante, os olhos atrás dos óculos grossos parecendo tentar ler seus pensamentos.
— Compreendo. Bem, aqui está meu cartão. Se ouvir algo estranho ou encontrar algo que ache relevante, me ligue. Estou hospedado no hotel da cidade.
Sofia pegou o cartão. "Dr. Arthur Mendes — Historiador e Pesquisador."
— Obrigada.
Ele fez uma leve reverência e saiu. Sofia fechou a porta, apoiou as costas contra a madeira e soltou um suspiro longo. O encontro a deixara ansiosa, mas ela não sabia dizer exatamente por quê. Talvez fosse o tom de superioridade dele, a maneira como desqualificava tudo que não pudesse explicar.
Ela subiu a escada novamente, decidida a examinar o esboço com mais cuidado. Mas quando abriu a gaveta da escrivaninha, o caderno não estava lá. Ela revirou a gaveta, procurou embaixo da cama, no armário. Nada. O caderno havia sumido. O suor frio escorreu por sua nuca. Ela tinha certeza de que o guardara ali. Ou será que a visão a enganara?
Um sussurro veio do corredor, tão claro quanto uma voz real:
— Ele é o perigo.
Sofia virou-se de repente. O corredor estava vazio, mas a luz do entardecer criava sombras nas paredes, e por um momento ela viu a silhueta feminina se mover, apontando para a escada. O sussurro se repetiu, mais urgente:
— Não confie nele.
Sofia apertou o cartão que ainda segurava. O nome do historiador queimava em sua mão. Ela olhou para a janela e viu o carro de Arthur Mendes se afastando pela estrada de terra. Algo naquela visita a fazia sentir que a casa havia ganhado um novo inimigo — e que o perigo não estava apenas nas paredes.