Chapter 3
O Estúdio Escondido
Sofia, perturbada pelo sussurro de alerta, decide investigar a parede suspeita no corredor e descobre um estúdio oculto. Lá, encontra o diário de Eliza Montenegro, que revela segredos sobre um homem perigoso e uma verdade que pode estar ligada à sua própria família. O capítulo termina com Sofia ouvindo passos na casa, indicando que não está mais sozinha.
Sofia ficou imóvel no corredor, o cartão de Arthur Mendes ainda apertado entre os dedos. O sussurro ecoava em sua mente: "Não confie nele." Ela olhou para a escada, onde a silhueta havia apontado, e sentiu um calafrio. A luz do entardecer já enfraquecia, projetando sombras compridas nas paredes. Ela precisava agir antes que a noite caísse de vez.
Guardou o cartão no bolso e caminhou até o ponto do corredor onde notara a espessura extra da parede. Passou a mão sobre o papel de parede antigo, sentindo uma ligeira ondulação. Ali, escondida por décadas de poeira, havia uma junta quase imperceptível. Sofia apertou a área, procurando por um mecanismo. Nada. Então, lembrou-se do desenho no caderno desaparecido: a janela alta, o cavalete, a anotação sobre a luz da manhã. Se o estúdio existia, deveria ter uma entrada.
Ela desceu ao térreo, pegou uma lanterna no carro e voltou ao corredor. Examinou o rodapé, as tábuas do assoalho. Próximo à parede suspeita, uma tábua estava mais solta que as outras. Sofia se ajoelhou e forçou a madeira com a ponta dos dedos. Ela cedeu, revelando um buraco escuro. Enfiou a mão e tateou até encontrar algo frio e metálico: uma chave.
Seu coração acelerou. Ela levantou-se e examinou a parede novamente. Desta vez, notou uma pequena fenda na altura do ombro, quase invisível sob a camada de tinta descascada. Inseriu a chave e sentiu um clique. Com um empurrão, um painel inteiro se moveu para dentro, revelando uma abertura estreita e escura.
Sofia acendeu a lanterna e espiou. Um corredor curto levava a uma porta de madeira maciça. Ela entrou, sentindo o cheiro de mofo e tinta seca. A porta rangeu ao ser empurrada. A luz da lanterna varreu o ambiente, revelando um cômodo exatamente como no desenho: uma janela alta na parede oposta, agora coberta por uma cortina empoeirada, e no centro, um cavalete de madeira com uma tela inacabada.
Ela se aproximou do cavalete. A pintura mostrava o rosto de uma mulher — Eliza Montenegro, reconheceu. Mas os olhos estavam cobertos por uma mancha escura, como se alguém tivesse tentado apagá-los. Ao lado do cavalete, uma mesa pequena com potes de tinta ressecados e um caderno aberto. Era o mesmo caderno que havia sumido da gaveta.
Sofia o pegou com mãos trêmulas. As páginas estavam cobertas pela caligrafia elegante de Eliza, intercalada com esboços. Ela folheou até uma entrada datada de 1978:
"Hoje senti sua presença novamente. Ele esteve no jardim. Sei que quer o que está escondido, mas não posso deixar. Se algo me acontecer, que estas páginas contem a verdade. Quem ler isto, cuidado: o homem que se diz historiador mente. Ele já esteve aqui antes, revirou meus pertences, fez perguntas. Desconfio que sabe mais do que revela. Deixei pistas para quem um dia herdar esta casa. Que encontre o estúdio e entenda."
Sofia prendeu a respiração. Arthur Mendes, o historiador, já conhecia Eliza? Ela leu a próxima entrada:
"Ele voltou hoje. Mostrou-me uma fotografia antiga, de uma mulher que dizia ser minha mãe. Menti, disse que não a conhecia. Mas reconheci o rosto — era a mesma mulher que aparece nos meus sonhos, a que me chama de filha. Quem é ele? Por que sabe tanto? Preciso esconder o diário no estúdio. Que a próxima habitante o encontre antes que ele destrua tudo."
Sofia sentiu o chão tremer sob seus pés. A mulher na foto — sua avó? Ela nunca conhecera a família de Eliza. O advogado dissera apenas que a casa pertencera a uma parente distante. Mas aquelas palavras sugeriam uma conexão mais profunda.
Um som a fez erguer a cabeça. Passos. Lentos, pesados, vindos do andar de baixo. Alguém estava na casa. Sofia apagou a lanterna e ficou imóvel, o coração batendo forte. Os passos subiam a escada. Ela olhou em volta, procurando um lugar para se esconder. O estúdio não tinha móveis além da mesa e do cavalete. A cortina da janela — poderia se enrolar nela?
Mas antes que pudesse se mover, os passos pararam no corredor, do lado de fora da porta do estúdio. Uma voz conhecida chamou:
— Sofia? Você está aí?
Era Arthur Mendes.
Ela não respondeu, segurando a respiração. Ouviu o rangido do assoalho enquanto ele se aproximava do painel aberto. A luz de uma lanterna varreu o corredor estreito. Sofia recuou para as sombras, apertando o diário contra o peito.
— Sei que está aí — disse Arthur, com um tom frio. — Encontrou o estúdio, não foi? Muito esperta. Mas você não deveria ter vindo aqui sozinha.
A silhueta dele preencheu a entrada. Sofia viu o brilho dos óculos, o contorno do casaco. Ele deu um passo para dentro do estúdio, a lanterna varrendo o chão.
Ela se moveu para o lado, tentando ficar fora do feixe de luz. Seu pé esbarrou em um pote de tinta, que rolou com um som seco. Arthur virou-se na direção do barulho.
— Não adianta se esconder. Precisamos conversar. Sobre Eliza. Sobre sua família.
Sofia sentiu o pânico crescer. Ela olhou para a janela alta. A cortina estava gasta, mas talvez pudesse aguentar seu peso. Se conseguisse abrir a janela e pular... mas era o segundo andar.
Arthur deu mais um passo. A lanterna iluminou o cavalete, revelando a tela inacabada. Ele parou, pareceu reconhecê-la.
— Então é verdade. Ela pintou isto.
Naquele instante, um sussurro surgiu das paredes, mais forte que antes, quase um grito:
— Fuja!
Sofia não hesitou. Jogou o diário para o lado, distraindo Arthur por um segundo, e correu em direção à porta. Passou por ele antes que pudesse reagir, desceu o corredor estreito, atravessou o painel e disparou escada abaixo. Ouviu os passos pesados atrás dela, mas não olhou para trás. Alcançou a porta da frente, destrancou-a e saiu correndo para o jardim, a noite fria envolvendo-a.
Ela só parou quando chegou ao portão, ofegante. Olhou para a casa. A luz do estúdio se acendeu no segundo andar, e a silhueta de Arthur Mendes apareceu na janela, observando-a. Sofia apertou o bolso do casaco — o diário estava ali. Ela o havia pegado no último instante, sem se lembrar como.
Agora, de pé na estrada escura, ela sabia que não podia voltar. Pelo menos não naquela noite. Mas também sabia que o diário de Eliza continha respostas — e que Arthur faria de tudo para recuperá-lo.
O vento soprou, trazendo o sussurro das paredes, agora distante e quase inaudível: "Volte... quando estiver pronta..."
Sofia olhou para o céu estrelado e respirou fundo. A luta mal havia começado.