Chapter 2
Capítulo 2
Lucas começa a reparar mais em Isabela, notando seus cabelos cacheados, seu sorriso e seu jeito de tratar as pessoas, enquanto a amizade entre eles se aprofunda com pequenos gestos e olhares.
Na manhã seguinte, eu cheguei na escola com o caderno de projetos debaixo do braço e uma ansiedade besta no estômago. Não que eu estivesse procurando o Lucas. Claro que não. Era apenas... uma terça-feira comum.
Ele estava encostado no portão, segurando dois copos de suco.
— Maracujá de novo — disse ele, me entregando um. — Mas se você preferir outro, a cantina tem laranja também.
— Maracujá está perfeito.
Peguei o copo e nossos dedos se tocaram por um segundo. Ele desviou o olhar rápido demais.
Caminhamos juntos até a sala, e eu senti o peso do olhar dele em mim. Não era um olhar invasivo, sabe? Era mais como se ele estivesse tentando gravar alguma coisa. Quando virei o rosto, ele desviou.
— O que foi? — perguntei.
— Nada. — Ele limpou a garganta. — É que seu cabelo está diferente hoje.
Toquei os fios sem jeito. — Só passei um creme novo.
— Ficou bonito. — A frase saiu tão baixa que quase se perdeu no barulho do corredor. Mas eu ouvi. E meu rosto esquentou.
Na sala, Dona Lúcia já estava na lousa, desenhando um gráfico de funções que parecia mais um mapa do tesouro. Sentei e abri o caderno, mas minha concentração estava em outro lugar.
Lucas se inclinou para o lado.
— Você trouxe a casa dos sonhos?
— Trouxe. — Passei o caderno para ele, sem jeito. — Ainda não está finalizada.
Ele folheou devagar, os olhos percorrendo cada linha. Eu observava suas expressões — a franzida de testa quando ele analisava um detalhe, o leve sorriso quando encontrava algo que gostava.
— Isabela, isso é incrível. — Ele apontou para o esboço da fachada. — Essa área envidraçada aqui, voltada pro nascente... você pensou na luz natural.
— É meio óbvio, né? Uma arquiteta que não pensa em luz natural...
— Não é óbvio. — Ele me encarou, sério. — É talento.
Eu não sabia onde colocar as mãos. — Você está exagerando.
— Não estou. — Ele virou a página e parou em um croqui mais antigo, de quando eu tinha treze anos. — Olha esse telhado verde. Você já pensava em sustentabilidade antes de saber o nome disso.
— Era só um telhado com plantas.
— Que absorve água da chuva, isola termicamente e ainda é bonito. — Ele sorriu. — É genial, Isabela.
Meu coração disparou. Não era só o elogio. Era o jeito que ele falava, como se levasse meu sonho a sério.
No intervalo, fomos para a mesa do refeitório. Ana apareceu do nada, sentou ao meu lado e cruzou os braços.
— Vocês dois, hein? — Ela olhou de mim para Lucas. — Já estão grudados.
— A gente só conversa — respondi.
— "Conversa" — repetiu ela, fazendo aspas com os dedos. — É, confio.
Lucas riu, sem se ofender.
— Ela está desconfiada de mim — disse ele, baixinho, como se fosse um segredo.
— Ela desconfia de todo mundo. É o dom dela.
Ana revirou os olhos, mas estava sorrindo. — Vou buscar um salgadinho. Quando eu voltar, quero ver vocês dois com cara de amigos mesmo, não de "amigos".
Ela saiu, e eu balancei a cabeça.
— Ela é assim.
— Gostei dela. — Lucas mordeu o lanche. — É direta.
Ficamos em silêncio por um momento. O sol batia no rosto dele, iluminando os fios loiros, e ele apertou os olhos.
— Você sempre sorri assim? — perguntou ele, de repente.
— Assim como?
— Tipo... — Ele gesticulou, procurando a palavra. — Como se fosse fácil. Como se não precisasse de motivo.
— Acho que sim. Sorrir é mais legal que ficar de cara fechada.
Ele apoiou o queixo na mão e me observou. — É bonito.
Dessa vez, não teve como disfarçar. Minhas bochechas queimaram.
— Você fala isso pra todas as meninas que conhece?
— Não. — Ele riu, baixinho. — Só pra você.
O sinal tocou, e eu nunca agradeci tanto por um intervalo acabar. Levantei tão rápido que derrubei o copo vazio. Lucas segurou meu braço.
— Calma. Não vai fugir de mim, vai?
— Não. — A palavra saiu estranha, meio engasgada. — Claro que não.
Ele soltou meu braço devagar, como se estivesse relutando.
O resto da semana seguiu nesse ritmo. Olhares que duravam um segundo a mais. Sorrisos trocados do nada. Conversas sobre arquitetura e basquete e músicas que ninguém mais conhecia.
Na sexta-feira, na saída, ele me chamou.
— Isabela, espera.
Parei no meio do pátio, a mochila pesando nos ombros.
— O que foi?
Ele chegou perto. Muito perto. Pude ver os detalhes dos olhos dele, o tom exato de azul, as sardas quase invisíveis na pele clara.
— Você quer ir comigo no sábado visitar a exposição de arquitetura no centro? — Ele falou rápido, como se tivesse ensaiado e esquecido o texto. — Eu vi um cartaz. É sobre construções sustentáveis. Achei que você ia gostar.
Meu coração deu um salto.
— Claro. — A resposta saiu antes que eu pudesse pensar em fingir desinteresse. — Que horas?
— Uma da tarde. — Ele sorriu, aliviado. — Passo na sua casa.
— Você não sabe onde eu moro.
— Então me diz.
Passei o endereço, e ele repetiu em voz baixa, como se estivesse decorando.
— Amanhã, então.
— Amanhã.
Ele virou e foi embora, as mãos nos bolsos, o passo leve. Fiquei ali, vendo ele sumir na esquina, com um sorriso bobo no rosto.
Quando cheguei em casa, abri o caderno de projetos e desenhei uma janela. Grande, de vidro, que deixava entrar toda a luz do mundo.
E, pela primeira vez, imaginei alguém sentado ao meu lado, olhando para ela também.