Chapter 1
Capítulo 1
Isabela conhece Lucas, o novo aluno que entra em sua turma no primeiro ano do ensino médio, e uma conexão imediata surge entre eles.
— Cuidado com a porta! — gritei, mas já era tarde.
O menino loiro e alto que acabara de entrar na sala levou a porta de vidro na testa com um baque surdo que ecoou por todo o corredor. Ele cambaleou para trás, esfregando a testa, enquanto a turma inteira explodia em risadas.
— Isso doeu até em mim — sussurrou a Ana ao meu lado, os olhos arregalados.
Eu deveria ter sentido pena. Mas, em vez disso, uma risada escapou antes que eu pudesse segurá-la. Ele era bonito — daqueles que parecem ter saído de um comercial de protetor solar —, mas a testa vermelha e a expressão atordoada o tornavam estranhamente humano.
— Desculpa — falei, ainda rindo. — Eu vi você vindo e ia avisar, mas saiu mais rápido do que eu pensei.
Ele me encarou por um segundo. Depois, um sorriso torto apareceu no rosto dele.
— Pelo menos quebrou a vergonha, né? — Ele passou a mão pelos cabelos loiros bagunçados. — Sou o Lucas. Lucas Almeida. Acabei de me mudar pra cidade.
— Isabela Silva. — Apontei pra carteira ao meu lado. — Se quiser, pode sentar aqui. A vista não é lá essas coisas, mas o ar-condicionado pega bem desse lado.
Ele riu, um som baixo e quente, e se sentou ao meu lado. A mochila dele bateu na minha perna quando ele se acomodou.
— Verdade sobre o ar-condicionado — murmurou ele, inclinando a cabeça para sentir o vento gelado. — Na minha outra escola, o ar era tão fraco que a gente suava até no inverno.
— Nossa, que horror. — Fiz careta. — O pior tipo de sofrimento.
Ele riu de novo. E, de algum jeito, aquela risada fez a manhã de segunda-feira parecer menos cinza.
A professora Dona Lúcia entrou, batendo o giz na lousa para chamar atenção. Ela apresentou Lucas como "o novo aluno que veio de outra cidade", como se aquilo fosse um feito heroico, e pediu que ele se sentasse. Lucas já estava sentado. Mas ela não percebeu, porque Dona Lúcia nunca percebia nada.
Durante a aula de matemática — matéria que eu odiava com todas as forças —, Lucas puxou um caderno e começou a desenhar. Não rabiscos distraídos, mas formas geométricas perfeitas, ângulos calculados, linhas que se encontravam com precisão cirúrgica.
— Você desenha bem — comentei, inclinando a cabeça para ver melhor.
— É só um esboço. — Ele empurrou o caderno na minha direção. — Meu pai é engenheiro. Aprendi vendo ele.
— Eu quero ser arquiteta. — A frase saiu antes que eu pudesse pensar. Sempre saía assim, como se meu sonho fosse uma mola comprimida dentro do peito. — Desde pequena. Desenho plantas de casas desde os doze anos.
Lucas me olhou com um interesse genuíno que me pegou desprevenida.
— Sério? Que massa. — Ele virou o caderno e desenhou uma linha curva no centro. — Tipo, você já pensou em que estilo de construção te atrai mais?
— Moderno, com certeza. — Apontei para o desenho dele. — Linhas retas, espaços abertos, muita luz natural. Nada daquelas casas cheias de quinas e divisórias que mais parecem labirintos.
— Concordo. — Ele rabiscou algumas linhas adicionais. — Mas um toque de madeira no meio do concreto dá um aconchego.
— Também acho! — Eu me inclinei mais para perto, sentindo o cheiro de sabonete dele. — Você precisa ver o meu caderno de projetos. Tenho uma casa dos sonhos que desenhei mês passado que...
O sinal do intervalo tocou, me cortando no meio da frase. Eu pisquei, surpresa. Uma hora inteira tinha passado voando.
— Continua depois? — Lucas perguntou, guardando o caderno na mochila. — Quero ver essa casa dos sonhos.
— Claro. — Sorri, sentindo um calor no peito. — No recreio, a gente pode sentar naquela mesa perto do refeitório que tem mais sombra.
— Combinado.
Ele se levantou e saiu na frente, e eu fiquei ali, parada, observando-o ir. Ana se materializou ao meu lado, os olhos brilhando de fofoca.
— Isabela, você passou a aula inteira conversando com o novo garoto.
— A gente só estava falando de arquitetura.
— "Arquitetura"? — Ela arqueou uma sobrancelha. — É, claro. E eu sou a rainha da Inglaterra.
— Ana, juro. — Mas meu rosto estava quente, e eu sabia que estava corando. — Ele é legal, só isso.
— "Legal" — repetiu ela, imitando minha voz. — Vamos ver o quanto "legal" ele vai ser quando vocês estiverem trocando números de celular no recreio.
Eu revirei os olhos, mas não consegui parar de sorrir.
No recreio, encontrei Lucas na mesa combinada. Ele já tinha comprado dois sucos e um lanche, e me entregou um copo sem perguntar.
— Tomei a liberdade — disse ele, dando de ombros. — Você parece do tipo que gosta de suco de maracujá.
— Como você sabe?
— Palpite. — Ele sorriu, e eu peguei o copo.
O suco estava gelado e doce. Exatamente do jeito que eu gostava.
A gente conversou sobre tudo — sobre a mudança dele, sobre meu sonho de ser arquiteta, sobre as músicas que ouvíamos, os filmes que tínhamos visto, as matérias que odiávamos. Descobri que ele jogava basquete, que tinha um irmão mais novo, que se sentia sozinho na cidade nova. E que, assim como eu, adorava observar as pessoas.
— Você percebeu que a Dona Lúcia sempre esquece o giz na sala dos professores? — perguntou ele, apontando para a professora que passava com as mãos vazias.
— Percebi. Isso acontece umas três vezes por semana.
Ele riu, e eu ri junto.
O sinal tocou de novo, nos chamando de volta para a sala. Enquanto andávamos, Lucas parou de repente.
— Isabela?
— Hã? — Virei-me para ele.
Ele hesitou, os olhos azuis fixos nos meus. O vento bagunçou os cabelos loiros dele, e ele passou a mão por eles, distraído.
— Nada. — Ele sorriu, um sorriso diferente, mais suave. — É que... é bom ter alguém pra conversar. É isso.
— Também acho. — Meu coração deu um pulo estranho. — É bom ter você aqui, Lucas.
Ele não disse mais nada. Mas, quando voltamos para sala, ele sentou ao meu lado de novo, como se já fosse o lugar mais natural do mundo.
E, por algum motivo, eu soube que aquela tarde de segunda-feira seria o começo de algo que eu ainda não sabia nomear.
Na saída, enquanto eu guardava meus livros na mochila, Lucas apareceu ao meu lado.
— Posso te acompanhar até o ponto de ônibus?
— Pode.
Caminhamos juntos, o sol da tarde aquecendo nossos ombros. Ele falava sobre o time de basquete da escola, e eu ouvia, distraída, sentindo o peso leve da mochila e o calor do braço dele quase encostando no meu.
Quando chegamos ao ponto, ele parou.
— Então, amanhã tem mais, né?
— Tem. — Sorri. — Ar-condicionado e arquitetura.
— E suco de maracujá.
Ele riu, e eu entrei no ônibus. Enquanto ele se afastava, acenando, eu percebi que, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava contando os minutos para o fim da aula.
Eu estava contando as horas para o dia seguinte.