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Chapter 1

Capítulo 1

Nayla descobre que seus pais a entregaram como pagamento de uma dívida à máfia. Augusto, o chefe, chega para levá-la.

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— Você não pode estar falando sério.

Nayla segurou a borda da mesa da cozinha com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. O prato de barro com o almoço que ela mesma preparara esfriava na frente do pai, intocado.

Cláudio desviou o olhar. O bigode grisalho tremia enquanto ele passava a mão no rosto. Não era um homem que costumava evitar o olhar da filha.

— Foi a única saída, Nayla. O Augusto não aceita atraso. A gente tentou, juro que tentou.

— Tentaram o quê, exatamente? — a voz dela saiu mais aguda do que ela queria. — Me vender? Isso é o que vocês estão dizendo? Que me venderam?

Natália soluçou do outro lado da mesa. A mãe nunca fora de palavras duras, mas também nunca fora de coragem. Ela apertava um lenço amarelado contra o peito como se fosse um escudo.

— Não é vender, filha. É um acordo. O Augusto... ele disse que perdoa a dívida inteira se você casar com ele. A gente não tinha como pagar. Juro por Deus, a gente tentou de tudo.

Nayla sentiu o mundo girar. Ela tinha dezenove anos. Tinha acabado de terminar os estudos. Passava as manhãs ajudando na barraca da feira, carregando caixas de tomate e pesando laranjas na balança velha que o avô usara antes de morrer. Ela era baixa, magra, cabelo castanho caindo solto pelos ombros. Não era nenhuma princesa de novela.

— Casar — repetiu a palavra como se provasse um veneno. — Casar com um mafioso. O chefe da máfia. O homem que... — ela engoliu seco. — O homem que quebrou a perna do seu primo quando ele não pagou.

Cláudio franziu a testa.

— Isso foi diferente. O primo dele tava devendo fazia dois anos.

— Diferente? — Nayla riu, mas não tinha graça nenhuma. — Diferente como? A gente também tá devendo. A diferença é que eu sou a moeda de troca.

Ela se levantou. A cadeira raspou no chão de cimento com um som áspero. A casa pequena, de paredes descascadas e telhas que cantavam quando ventava, parecia ainda menor naquela hora. As lembranças de infância — brincar de esconde-esconde entre as barracas da feira, tomar caldo de cana na esquina, estudar à luz amarelada da sala — tudo parecia desabar sobre ela.

— Quanto? — perguntou, a voz baixa. — Quanto vocês devem?

Natália e Cláudio trocaram um olhar. O silêncio durou tempo demais.

— Muito, filha — a mãe finalmente falou. — Muito.

— Quanto é muito?

— Setenta mil.

Nayla piscou. Setenta mil reais. Era mais dinheiro do que ela tinha visto na vida inteira. Era o preço de um carro novo, de uma casa melhor, de uma cirurgia. Era o preço dela.

— E vocês acham que eu vou aceitar? Que vou arrumar minhas coisas e ir de boa vontade pra casa de um criminoso?

Cláudio ergueu a cabeça. Pela primeira vez, os olhos dele encontraram os dela.

— A escolha não é sua, Nayla. Nem minha. Nem da sua mãe. O Augusto vem buscar você hoje às seis horas.

O relógio na parede marcava quinze para as seis.

O coração de Nayla disparou. Ela olhou para a porta da cozinha, para a janela que dava para o quintal, para o portão de ferro que separava a casa da rua de terra batida.

— Hoje? — a voz falhou. — Agora?

— Ele é um homem ocupado — Natália murmurou, como se isso explicasse tudo.

Nayla apertou os olhos. As lágrimas queriam vir, mas ela não deixou. Em vez disso, sentiu algo crescer dentro do peito. Raiva. Medo. Mas também uma faísca teimosa que se recusava a apagar.

— Não vou — disse. — Vocês podem ter feito esse acordo, mas eu não assinei nada. Não sou propriedade de ninguém.

Cláudio suspirou. Parecia cansado, derrotado, velho além dos seus quarenta e cinco anos.

— Ele vai vir de qualquer jeito. Com ou sem a sua permissão.

— Então que venha. — Nayla cruzou os braços. — Vou dizer na cara dele que não aceito.

Natália soluçou mais alto.

— Filha, pelo amor de Deus, não faz isso. Você não sabe do que ele é capaz. O povo fala que ele já mandou matar homem por muito menos.

— E vocês me entregam assim mesmo?

Ninguém respondeu.

O silêncio foi cortado por um som grave, vindo da rua. Motor de carro. Motor potente, que não combinava com as vielas do bairro. Nayla sentiu o chão sumir debaixo dos pés.

— Ele chegou — Cláudio disse, a voz um fio.

O portão rangeu. Passos no cimento. Três batidas firmes na porta da frente.

Nayla respirou fundo. As mãos suavam. O coração martelava tão forte que ela achou que fosse explodir.

— Eu vou atender — disse, antes que alguém pudesse detê-la.

Ela caminhou até a sala. Cada passo parecia uma eternidade. A porta de madeira pintada de azul descascado estava ali, a poucos metros. Do outro lado, o homem que decidira comprá-la.

Nayla colocou a mão na maçaneta. Gélida. Ela girou.

A porta se abriu.

E lá estava ele.

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