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Chapter 2

Capítulo 2

Nayla enfrenta Augusto à porta de casa. Ele a trata como um negócio fechado, mas ela se recusa. A tensão escala até que ele faz uma proposta que muda tudo: ela pode escolher ir por bem ou ele a leva por mal. Ela escolhe ir, mas com uma condição.

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Ele era mais alto do que ela imaginava. Muito mais. O terno escuro parecia fora de lugar na varanda estreita da casa, como um carro importado estacionado numa rua de barro. Augusto tinha os olhos escuros, quase pretos, e uma cicatriz fina que cortava a sobrancelha esquerda. Não sorria. Apenas observava, como quem avalia um objeto antes de comprar.

— Nayla.

Ela ouviu o próprio nome na boca dele e sentiu um arrepio subir pela espinha. Não era pergunta. Era afirmação. Como se ele já soubesse tudo sobre ela antes mesmo de vê-la.

— Sim.

A voz saiu firme, mas as pernas tremiam por dentro. Ela segurou a borda da porta para disfarçar.

Augusto inclinou a cabeça, devagar.

— Seus pais já explicaram o acordo.

— Explicaram — ela respondeu. — Eu não aceito.

Por um segundo, nada aconteceu. O vento quente da tarde arrastou poeira pela rua. Uma criança passou de bicicleta lá longe, rindo. O mundo continuava normal do lado de fora, mas dentro dela tudo parecia prestes a quebrar.

Augusto não mudou a expressão. Não franziu a testa, não apertou os olhos. Apenas ficou ali, imóvel, como se o "não" dela fosse um mosquito incomodando e ele esperasse o barulho passar.

— Não é uma escolha — disse, finalmente.

— É minha vida. É minha escolha.

Ele deu um passo à frente. Não invadiu o espaço dela, mas chegou perto o bastante para que ela sentisse o cheiro de alfazema e fumaça. Ele tinha mãos grandes. Mãos que já tinham feito coisas que ela preferia não imaginar.

— Você é bonita — ele disse. A voz era baixa, calma. — Disseram que você era, mas eu não confio em palavras. Prefiro ver com meus próprios olhos.

Nayla sentiu o rosto queimar. Não era elogio. Era inspeção.

— Não sou mercadoria.

— Não. Você é o pagamento de uma dívida. São coisas diferentes.

Ela abriu a boca para responder, mas a voz morreu na garganta. Do outro lado da sala, ela via a sombra da mãe parada atrás da cortina. Natália não aparecia. Não vinha defender a filha. Ficava ali, escondida, soluçando baixinho.

— Seus pais me devem setenta mil reais — Augusto continuou. — Eu podia ter tomado a casa, o carro, as barracas da feira. Mas isso não cobre nem metade. Então eu ofereci um acordo. Um acordo justo.

— Justo? — a palavra escapou antes que ela conseguisse segurar. — Me sequestrar é justo?

— Não é sequestro. É casamento.

Ele disse aquilo com a mesma naturalidade com que se pede um café. Casamento. Como se fosse a coisa mais normal do mundo trocar uma filha por dinheiro.

— E se eu fugir?

Augusto sorriu. Foi a primeira vez que ele mostrou os dentes, e o sorriso não tinha nada de amigável.

— Pode tentar. Mas sua mãe tem asma, não tem? E seu pai vai continuar na feira. Seria uma pena se alguma coisa acontecesse com a barraca. Ou com eles.

O sangue de Nayla gelou. Ela olhou para os olhos dele, procurando um piscar de mentira, um tique de blefe. Mas ele estava calmo demais. Seguro demais. Ele já sabia que ela não tinha para onde correr.

— Você é um monstro — ela sussurrou.

— Sou um homem de negócios. Monstro é quem não paga o que deve.

Ele tirou um relógio do bolso. Olhou para os ponteiros, depois para ela.

— São seis e cinco. O carro está na esquina. Você vem agora, ou eu volto amanhã com outros métodos.

Nayla respirou fundo. As mãos suavam. O coração batia tão forte que ela achava que ele podia ouvir. Ela pensou em correr, em gritar, em jogar alguma coisa na cabeça dele. Mas pensou também na mãe tossindo de madrugada, no pai voltando da feira com as costas doendo, na casa que já não tinha mais nada além de dívidas.

Ela não estava escolhendo entre liberdade e cativeiro. Estava escolhendo entre sacrificar ela mesma ou sacrificar os pais.

— Está bem — a voz saiu baixa, quase um sopro. — Eu vou.

Augusto não pareceu surpreso. Apenas acenou com a cabeça, como se aquilo já estivesse decidido desde o começo.

— Boa escolha.

— Mas eu tenho uma condição.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Você não está em posição de pedir.

— Não é pedido. É condição. — Ela ergueu o queixo, forçando a coragem que não sentia. — Se eu vou casar com você, quero ver o contrato. Quero saber o que é meu e o que é seu. E quero poder sair de casa sem pedir licença.

Augusto a estudou por um longo momento. O vento bagunçou o cabelo castanho de Nayla, mas ela não se mexeu.

— Interessante — ele murmurou. — Você tem mais coragem do que aparenta.

— Não é coragem. É teimosia.

Ele riu. Um som curto, seco, mas era um riso.

— Pode ser. Mas teimosia pode ser útil. — Ele se virou, apontando para a rua. — O carro está ali. Você vem ou não?

Nayla olhou para trás. A cortina se mexeu. O rosto da mãe apareceu por um instante, molhado de lágrimas. Natália abriu a boca, mas nenhum som saiu.

— Vou — Nayla respondeu, sem se virar. — Mas um dia eu volto. E quando eu voltar, não vai ser para pagar dívida nenhuma.

Ela desceu os dois degraus da varanda e seguiu Augusto até o carro preto estacionado na esquina. O motor roncou quando ele abriu a porta para ela. Nayla parou por um segundo, o pé no meio-fio, o coração na mão.

Depois entrou.

A porta bateu. O carro arrancou. E a casa azul foi ficando cada vez menor no retrovisor.

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