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Chapter 3

O Caminho do Abismo

Kael desce a montanha em direção ao castelo do Barão Valdrick. Durante a viagem, ele enfrenta as lembranças de sua avó e de Lyra, além de um encontro com um velho mercador que revela mais sobre a crueldade do barão. Kael chega a uma aldeia devastada, onde testemunha o sofrimento causado pelo nobre, e sua fúria cresce. Ao final, ele avista o castelo ao longe, mas uma figura encapuzada o observa das sombras, sugerindo que Mestre Elara continua a monitorar seus passos.

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Kael desceu a montanha com passos firmes, mas o coração pesava dentro do peito. A lâmina negra em seu cinto parecia pulsar em sintonia com sua respiração, como se a escuridão da forja ainda vibrasse nela. O sol da manhã feria seus olhos, acostumados à penumbra da caverna de Zarthus, e cada passo o afastava mais daquele refúgio de sombras e ensinamentos.

A trilha era íngreme, coberta por pedras soltas e raízes retorcidas. Kael desviava dos obstáculos com a agilidade que o treino lhe dera, mas sua mente vagava por territórios mais perigosos. As palavras de Zarthus ainda ecoavam: "A escolha final será sua." Que escolha? Ele já havia feito sua escolha no momento em que vira a avó cair. Vingança. Era a única coisa que o mantinha de pé.

No entanto, à medida que descia, a paisagem mudava. As árvores escuras e retorcidas das Montanhas Sombrias davam lugar a uma floresta mais aberta, onde a luz do sol penetrava em feixes dourados. Pássaros cantavam, e o cheiro de terra úmida e flores silvestres enchia o ar. Era bonito, e isso incomodava Kael. Como o mundo podia ser tão sereno quando dentro dele tudo era caos?

Ele parou junto a um riacho para beber água. Ajoelhou-se, e seu reflexo dançou na superfície límpida. O rosto que via era o mesmo de antes, mas os olhos... os olhos pareciam mais fundos, mais escuros. Havia uma tensão neles, como se um animal enjaulado espreitasse por trás das pupilas.

— Você ainda está aí, Kael? — murmurou para si mesmo.

A resposta veio na forma de uma lembrança: a avó, sentada à beira do fogo, contando histórias de heróis que nunca desistiam. Ela acreditava que o bem sempre venceria. Mas o bem não salvara Pedra Fria. O bem não impedira os mercenários de arrastarem Lyra para longe.

Kael fechou os olhos e forçou a lembrança para longe. Não podia se dar ao luxo de fraquejar.

Continuou a caminhada. No fim da tarde, avistou uma fumaça ao longe. A princípio, pensou ser uma fogueira de caçadores, mas ao se aproximar, viu que era uma aldeia. Pequena, com casas de madeira e um moinho desativado. Algo estava errado, porém. As portas estavam arrombadas, e restos de carroças quebradas espalhavam-se pela estrada.

Kael apertou o punho da lâmina e entrou na aldeia. O silêncio era pesado, quebrado apenas pelo gemido do vento. Ele passou por uma casa onde uma cadeira estava tombada, uma xícara quebrada no chão. Marcas de garras nas paredes. Não, não garras — marcas de espadas.

— Há alguém aqui? — chamou, a voz ecoando vazia.

Uma porta rangeu. Kael virou-se, pronto para sacar a lâmina, mas era apenas um velho, apoiado em uma bengala, o rosto marcado por cicatrizes recentes.

— Você não é um deles — disse o velho, a voz rouca. — Pelo seu olhar, você é como nós. Um sobrevivente.

Kael relaxou ligeiramente. — O que aconteceu aqui?

O velho cuspiu no chão. — Os homens do Barão Valdrick. Passaram por aqui há três dias, levando tudo o que podiam. Quem resistiu, morreu. Minha filha... levaram minha filha.

O estômago de Kael se contraiu. — Eles estavam procurando algo?

— Uma moça. Disseram que ela tinha um dom. Disseram que o barão precisava dela. Levaram também velhos pergaminhos, objetos estranhos. E depois queimaram o resto.

— Lyra — sussurrou Kael.

O velho o encarou. — Você a conhece?

— Ela é... era da minha vila. Foi sequestrada também.

O velho balançou a cabeça. — Então você sabe. O barão é uma praga. Dizem que ele quer abrir um portal para algo antigo, algo que dorme nas profundezas. Minha avó contava histórias sobre isso, quando eu era menino. Dizia que um dia alguém viria para parar a loucura.

Kael sentiu o peso da lâmina em seu cinto. — Eu vou parar.

O velho o estudou por um momento, os olhos nublados pela idade e pela perda. — Você parece jovem demais para carregar tanto ódio. Mas também parece determinado. Cuidado, rapaz. O ódio é uma faca de dois gumes. Pode cortar o inimigo, mas também pode cortar você.

Kael não respondeu. Ofereceu ao velho um pouco de sua comida, que ele aceitou com gratidão. Depois, seguiu caminho, deixando a aldeia para trás. As palavras do velho ecoaram junto com as de Zarthus, formando um coro incômodo em sua mente.

O sol se pôs, e Kael acampou em uma clareira. Acendeu uma pequena fogueira, mais pelo conforto da luz do que pelo calor. A lâmina negra repousava em seu colo, e ele a observava, tentando entender o que sentia. Era poder, sim, mas também era um fardo. Cada vez que a empunhava, sentia uma pontada de algo sombrio, como se a espada quisesse guiá-lo para um caminho sem volta.

— Não vou me perder — disse em voz alta. — Eu controlo a espada. Ela não me controla.

Mas mesmo enquanto falava, uma sombra passou por entre as árvores. Kael ergueu a cabeça, mas não viu nada. Apenas o vento balançando os galhos. Ainda assim, sentiu que estava sendo observado. Um arrepio percorreu sua espinha.

Ele não dormiu bem. Sonhou com a avó, com Lyra, com o barão rindo enquanto o castelo queimava. Acordou com o suor frio escorrendo pelas costas, o coração disparado. A fogueira havia se apagado, e a lua estava alta, prateando a clareira.

Kael levantou-se e decidiu continuar a viagem. A noite era clara, e ele conseguia enxergar o suficiente para não tropeçar. Quanto mais cedo chegasse ao castelo, mais cedo poderia acabar com tudo.

Andou por horas, até que o terreno começou a mudar novamente. As árvores rarearam, dando lugar a campos arados e, ao longe, uma estrada de pedra. E no horizonte, recortado contra o céu noturno, erguia-se o castelo do Barão Valdrick. Torres negras, muralhas grossas, bandeiras esfarrapadas tremulando ao vento. Parecia uma fortaleza de ossos e cinzas.

Kael parou no topo de uma colina, observando. Seu coração batia forte, não de medo, mas de antecipação. Lyra estava ali, em algum lugar. Talvez a avó também estivesse, em espírito, observando-o. Ele tocou a lâmina.

— Eu vou conseguir — disse, mais para si mesmo do que para qualquer outro.

Mas, enquanto falava, uma figura encapuzada surgiu das sombras atrás dele. Kael virou-se rápido, a mão no cabo da espada.

— Calma, jovem — disse a figura, uma voz feminina, serena, mas com um tom de autoridade. — Não vim para lutar.

Kael apertou os olhos. — Quem é você?

— Alguém que observa o fluxo do destino. Meu nome é Elara. E tenho acompanhado sua jornada desde o início.

— Você trabalha para o barão?

Ela riu baixinho. — Não. Trabalho para o equilíbrio. E, neste momento, você representa uma ameaça a esse equilíbrio.

— Eu represento a vingança — corrigiu Kael, a voz dura.

— Vingança ou destruição? — Elara deu um passo à frente, e a luz da lua revelou seus traços: olhos penetrantes, vestes elegantes, um ar de sabedoria que lembrava Zarthus, mas também algo mais frio. — Você carrega a Lâmina do Crepúsculo. Ela foi forjada para consumir. Você acha que pode usá-la sem se perder?

— Já estou perdido — disse Kael. — Não tenho mais nada a perder.

Elara inclinou a cabeça. — Engano seu. Você ainda tem Lyra. E, enquanto ela viver, haverá algo dentro de você que pode ser salvo.

Kael sentiu um nó na garganta. — O que você quer?

— Apenas que reflita. O castelo está à sua frente. Dentro dele, você encontrará o barão, o artefato e a moça. Mas também encontrará uma escolha. E essa escolha definirá não apenas o seu destino, mas o de muitos.

Ela fez um gesto com a mão, e uma brisa fria passou entre eles. Quando Kael piscou, Elara havia desaparecido, como se nunca tivesse estado ali.

Ele ficou parado por um longo momento, o coração aos saltos. Depois, respirou fundo e começou a descer a colina em direção ao castelo. Não importava o que Elara ou Zarthus dissessem. Ele tinha um objetivo, e nada o faria desistir.

Mas, no fundo, uma pequena dúvida brotou, como uma semente em terra árida. E, ao cruzar a ponte levadiça, ele sentiu o peso daquela dúvida nos ombros, ao lado do peso da lâmina.

O castelo o engoliu em suas sombras, e a noite se fechou ao seu redor.

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