Chapter 2
Capítulo 2: A Sombra no Abismo
Kael aceita o treinamento de Zarthus, mas a escuridão dentro dele cresce. Zarthus tenta ensinar-lhe controle, enquanto revela fragmentos de seu próprio passado e um propósito maior: proteger o artefato que o barão busca. Lyra é mantida refém, e uma figura misteriosa, Mestre Elara, observa de longe. O capítulo termina com Kael partindo para o castelo, determinado a resgatar Lyra, mas ciente de que sua vingança pode custar-lhe a alma.
A caverna se estendia como um ventre de pedra, iluminada apenas pelo brilho tênue das inscrições nas paredes. Kael ficou parado, os punhos ainda cerrados, o coração pulsando em um ritmo de guerra. Zarthus o observava com uma calma que parecia fora de lugar, como se o tempo ali dentro fluísse diferente.
— Sente-se — disse o antigo vilão, indicando uma pedra lisa no centro da câmara. — Sua fúria é um incêndio, mas incêndios consomem quem os acende.
Kael obedeceu, relutante. As pernas tremiam, não de medo, mas de uma exaustão que vinha da alma. Ele havia caminhado três dias sem dormir, alimentado apenas pela raiva. Agora, sentado, sentiu o peso do corpo como uma âncora.
— Você quer poder — continuou Zarthus, sentando-se em frente a ele. — Mas poder sem propósito é como uma espada sem lâmina: serve apenas para assustar.
— Eu tenho propósito — Kael cuspiu as palavras. — Vingança.
Zarthus balançou a cabeça, os olhos antigos brilhando na penumbra. — Vingança é uma chama que queima o portador primeiro. Já estive onde você está. Já perdi tudo. E jurei destruir aqueles que me fizeram mal. Mas depois de destruir tudo, olhei ao redor e vi apenas cinzas. E estava sozinho.
— Não me importa — Kael repetiu, mas a voz vacilou.
— Importa, sim. Você não veio até aqui apenas para morrer ou matar. Você veio porque ainda há uma centelha em você, uma que se recusa a apagar. É por isso que ainda está de pé, mesmo depois de tudo.
Kael abaixou a cabeça. As lembranças da avó, do sorriso de Lyra, do cheiro do pão no fogão — tudo parecia tão distante agora, como um sonho que se desfaz ao acordar. Ele queria odiar Zarthus por tocar naquela ferida, mas não conseguia. Havia algo na voz do homem que soava como verdade.
— O que você quer de mim? — perguntou Kael, a voz rouca.
— Quero te ensinar o que aprendi. Não para que se torne um destruidor, mas para que encontre um caminho diferente. O artefato que o barão busca não é apenas uma relíquia. É algo que pode desequilibrar o mundo. Se ele o encontrar, o sofrimento que você viu em Pedra Fria será apenas o começo.
Kael ergueu os olhos. — E Lyra? Ela está com ele.
— Sim. E ela é a chave. O barão acredita que ela sabe onde o artefato está escondido. Mas a verdade é que o artefato não está em lugar nenhum — ele está em algum lugar entre os mundos, e apenas alguém com o dom de Lyra pode acessá-lo.
— Ela é curandeira.
— E muito mais. O dom dela é raro, um fio de luz que conecta a vida. O barão quer usá-lo para abrir o selo.
Kael sentiu o estômago embrulhar. A imagem de Lyra amarrada, indefesa, alimentou a chama dentro dele. — Então preciso salvá-la antes que ele a force a fazer isso.
— Você precisa aprender a controlar a escuridão dentro de você primeiro. Caso contrário, ao chegar lá, você será apenas mais um monstro.
Zarthus levantou-se e caminhou até uma fenda na parede, de onde tirou um objeto embrulhado em pano. Quando o desenrolou, revelou uma lâmina negra, tão escura que parecia absorver a luz ao redor. — Esta é a Lâmina do Crepúsculo. Foi forjada nas profundezas do abismo, com o ódio de mil corações partidos. Eu a usei por séculos, até que percebi que ela me consumia. Agora, ela será sua — se você tiver força para empunhá-la sem se perder.
Kael estendeu a mão, mas hesitou. A lâmina parecia pulsar, chamando-o, sussurrando promessas de poder. Ele tocou o cabo, e uma corrente elétrica percorreu seu braço. Imagens invadiram sua mente: a avó caindo, Lyra sendo arrastada, o barão rindo. A dor voltou, mas agora misturada com uma sensação de controle, de força.
— Sinta — disse Zarthus. — Mas não se afogue. A espada é uma ferramenta, não um mestre.
Kael segurou a lâmina com firmeza. Ela pesava como uma extensão de seu próprio braço. Ele a ergueu, e a luz das inscrições na parede pareceu dançar em resposta.
— O treinamento começa amanhã — disse Zarthus. — Por hoje, descanse. Você precisará de todas as suas forças.
Kael não dormiu bem. Sonhou com fogo e sombras, com a voz de Lyra chamando seu nome, com o rosto pálido da avó. Acordou sobressaltado, o suor frio escorrendo pelas têmporas. A caverna estava silenciosa, exceto pelo respirar lento de Zarthus, que dormia encostado em uma parede.
Nos dias seguintes, Zarthus o ensinou a canalizar a energia da lâmina, a transformar a raiva em foco, a dor em determinação. Kael aprendeu golpes e posturas, mas também aprendeu a meditar, a silenciar a mente. Era difícil. A cada momento de quietude, as lembranças voltavam, e ele queria gritar, quebrar algo, correr para o castelo e destruir tudo.
— Você está lutando contra si mesmo — disse Zarthus um dia, enquanto Kael recuperava o fôlego após um treino exaustivo. — A vingança não é um destino, é um abismo. E você está na borda.
— E você? — Kael perguntou, ofegante. — O que te fez parar?
Zarthus ficou em silêncio por um longo momento. Depois, sentou-se em uma pedra e falou, a voz baixa: — Eu amei alguém. Uma mulher que via bondade em mim quando eu mesmo não via. Ela me mostrou que a destruição não preenche o vazio. E quando ela se foi, percebi que o que eu realmente queria não era vingança, mas conexão. Queria ser lembrado como algo mais do que um monstro.
Kael ouviu, e algo dentro dele se mexeu. Não era compaixão, mas uma ponta de dúvida. Será que ele também poderia encontrar algo além do ódio?
— Mas você falhou — disse Kael, duro. — Ela se foi.
— Sim. E eu carrego essa culpa todos os dias. Mas se eu pudesse voltar atrás, escolheria o amor em vez do ódio. Essa é a única lição que realmente importa.
Naquela noite, Kael ficou acordado, olhando para a lâmina negra. O reflexo de seu rosto na superfície escura parecia distorcido, os olhos faiscando vermelho. Ele pensou em Lyra, em seu sorriso, em como ela acreditava nas pessoas. Ele pensou em como ela o olhara na feira, como se visse algo de valor nele. Será que ainda havia tempo para ser mais do que um vingador?
Do lado de fora da caverna, uma figura encapuzada observava. Vestes elegantes e austeras, olhar penetrante. Mestre Elara sentia o fluxo do destino se alterar. O fio partido de Kael estava se emaranhando com o de Zarthus, e isso poderia trazer consequências imprevisíveis. Ela murmurou palavras antigas, selando a entrada da caverna com uma magia sutil. Ainda não era hora de intervir.
No amanhecer do sétimo dia, Zarthus chamou Kael.
— Você está pronto para partir. Sei que não consegui apagar sua sede de vingança, mas espero ter plantado uma semente. O castelo do barão fica a dois dias de viagem para o sul. Lá, você encontrará Lyra, e também o artefato. Lembre-se: a escolha final será sua. Poder ou propósito? Vingança ou redenção?
Kael ajustou a lâmina no cinto. Olhou para Zarthus, e pela primeira vez, viu não um vilão, mas um homem cansado, que carregava o peso de seus erros.
— Obrigado — disse Kael, a palavra saindo estranha em seus lábios.
Zarthus sorriu, um sorriso triste. — Volte inteiro, pequeno luto. E, se puder, volte como algo melhor.
Kael saiu da caverna, a luz do sol ferindo seus olhos acostumados à escuridão. O vento soprou, trazendo o cheiro de terra e sangue distante. Ele começou a descer a montanha, cada passo o aproximando do castelo, de Lyra, e de seu destino.
Mas, no fundo de seu coração, as palavras de Zarthus ecoavam como um sino: "A escolha final será sua."
E ele ainda não sabia o que escolheria.