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Chapter 1

Capítulo 1: O Fio Partido

Kael vive uma vida pacata em uma vila remota, trabalhando como lenhador e cuidando de sua avó doente. Durante uma feira, ele conhece Lyra, uma curandeira que desperta nele um sentimento de esperança. No entanto, a vila é atacada por mercenários a serviço de um nobre cruel, que busca um artefato ancestral escondido nas terras. Na tentativa de proteger sua avó e Lyra, Kael falha: sua avó é morta e Lyra é sequestrada. Consumido pela dor e pela culpa, Kael jura vingança e parte para as montanhas em busca de poder, deixando para trás sua antiga bondade.

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O sol poente tingia o horizonte de laranja e vermelho, pintando a vila de Pedra Fria com tons dourados. Kael apoiou o machado no ombro e enxugou o suor da testa com o dorso da mão. O dia de trabalho no bosque tinha sido longo, mas a imagem do lar o aguardava como um abraço silencioso. A cabana modesta no extremo da vila era tudo o que restava de sua família desde que seus pais partiram para o norte, anos atrás, e nunca mais voltaram. Agora, ele cuidava sozinho de sua avó, uma mulher sábia e cansada, cujos olhos já não viam além das sombras da vida.

Ao entrar, o cheiro de ervas e pão quente o envolveu. Lyra estava ali, debruçada sobre o fogão de barro, os cabelos claros trançados caindo sobre os ombros. Ela era a curandeira da vila, uma jovem que havia chegado há alguns meses, mas já conquistara o respeito de todos. — Sua avó dorme — disse ela, sem se virar. — A febre baixou, mas ela precisa de repouso.

Kael deixou o machado junto à porta e se aproximou, sentindo o peso do dia escorrer de seus ombros. — Obrigado, Lyra. Não sei o que faria sem você.

Ela sorriu, um sorriso tímido que iluminava seu rosto. — Cuidar dos outros é meu dom. E você cuida dela com tanto carinho que seria injusto não ajudar.

Eles jantaram em silêncio, mas era um silêncio confortável, como o de duas almas que se entendiam sem palavras. Kael observava Lyra enquanto ela contava histórias das plantas que colhia na floresta, dos segredos das raízes e das flores. Havia uma luz nela que ele sentia falta no mundo, uma bondade que parecia tão frágil quanto preciosa. Naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, ele permitiu-se sonhar com um futuro pacífico, com uma vida simples ao lado dela e de sua avó.

Mas o destino, como um fio partido, não se dobra aos desejos dos homens.

Três dias depois, a vila acordou sob o som de cascos e gritos. Os mercenários do Barão Valdrick, um nobre cruel que dominava as terras ao sul, invadiram Pedra Fria em busca de um artefato antigo que, segundo rumores, estava enterrado nas colinas próximas. Não encontraram o que procuravam, mas a violência não lhes era estranha. Pusera fogo em três casas, espancaram o ferreiro e levaram tudo o que podiam carregar.

Kael correu para casa assim que viu a fumaça. O coração batia descompassado, uma prece sem palavras nos lábios. Ao chegar, encontrou a porta arrombada e o chão salpicado de cinzas. Sua avó estava caída junto à lareira, o corpo imóvel, os olhos abertos para o nada. Uma mancha vermelha se espalhava lentamente sobre seu xale xadrez.

— Não... — a voz saiu um sussurro, um fio de ar que se desfez no ar.

Ele se ajoelhou, tocando o rosto frio da avó. As mãos tremiam. Uma raiva surda, quente, começou a crescer em seu peito, um fogo que queimava a tristeza. Levantou-se e saiu, o sangue zumbindo nos ouvidos. A vila estava em ruínas, pessoas choravam, corpos eram arrastados. E Lyra? Onde estava Lyra?

Um dos vizinhos, o velho Hargo, apontou para o leste. — Levaram a curandeira, Kael. Disseram que ela sabia onde estava o artefato. Amarraram-na e a puseram num cavalo. Eles foram para o castelo do barão.

Kael não ouviu o resto. Seus pés já o levavam para a estrada, mas Hargo segurou seu braço. — Não vá, rapaz. Você é só um lenhador. Eles têm espadas e magia. Você vai morrer.

— Então que eu morra — respondeu Kael, a voz rouca. — Mas não vou deixar que eles fiquem com ela.

Ele caminhou até a noite cair, e depois continuou sob a luz pálida da lua. A raiva o guiava, uma chama que não se apagava com o cansaço. Mas no fundo, uma voz pequena e antiga sussurrava: "Você não é um guerreiro. Você é um homem comum." Ele tentou abafá-la com lembranças da avó, do sorriso de Lyra, da dor da perda.

No terceiro dia, exausto e com os pés ensanguentados, ele alcançou as encostas das Montanhas Sombrias. Diziam que ali habitavam criaturas de poder e segredos esquecidos. Diziam também que quem buscava vingança encontrava apenas ruínas. Mas Kael não se importava. Ele parou diante de uma fenda na rocha, uma caverna que exalava um ar frio e úmido. Algo o chamava lá dentro, uma promessa de força que poderia mudar seu destino.

Antes de entrar, ele olhou para trás, para o vale onde Pedra Fria jazia como uma cicatriz. As lágrimas que não havia derramado por sua avó finalmente rolaram. Mas não eram lágrimas de tristeza; eram lágrimas de uma dor que se transformava em ódio.

— Eu juro — murmurou ele, a voz ecoando nas pedras. — Juro que farei todos eles pagarem. Cada lágrima, cada gota de sangue. E se o caminho para a vingança for o da escuridão, então que eu me perca nela.

Ele entrou na caverna, e as sombras o engoliram.

Lá dentro, o ar era pesado, carregado de eons de silêncio. Kael tateou as paredes úmidas, os dedos encontrando inscrições antigas que brilhavam com uma luz fraca. Uma voz, velha e profunda, sussurrou em sua mente: "Você busca poder, pequeno mortal?"

— Busco justiça — respondeu ele, os punhos cerrados.

A voz riu, um som que parecia vir de todos os lados. "Justiça e vingança são faces da mesma moeda. Mas cuidado: a moeda que você carrega pode queimar suas mãos."

Kael não hesitou. — Então que me queime. Não tenho mais nada a perder.

As inscrições na parede se acenderam com uma luz azulada, e uma figura surgiu das sombras: um homem de vestes antigas e olhos que brilhavam como brasas. Ele parecia cansado, mas trazia consigo uma aura de poder imenso. Era Zarthus, o nome que os anciãos usavam para amedrontar crianças. O vilão que outrora quase destruíra o reino, agora um eremita na montanha.

Zarthus o encarou por um longo momento, e algo naquele olhar fez Kael tremer. Não era ameaça, mas uma estranha compaixão.

— Você veio pelo poder da vingança — disse Zarthus, a voz calma como um rio profundo. — Mas o que você encontrará aqui pode não ser o que espera. Eu já percorri esse caminho. Ele só leva a mais solidão.

— Não me importa — respondeu Kael, os olhos faiscando. — Ensine-me ou afaste-se.

Zarthus suspirou, e por um instante pareceu carregar o peso de séculos. — Muito bem, pequeno luto. Mas lembre-se: até mesmo a mais escura noite cede lugar ao amanhecer, se tivermos coragem de esperar.

Kael não ouviu o aviso. Ele já havia se entregado à noite.

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