Chapter 1
Capítulo 1
Lucas, um arquiteto desorganizado, vai a uma cafeteria para terminar um projeto e encontra Clara, uma designer gráfica metódica, que o surpreende com sua honestidade e senso de humor.
— Isso é um absurdo — disse ela, sem tirar os olhos do celular.
Lucas levantou a cabeça, piscando. A moça estava sentada na mesa ao lado, com um copo de café na mão e uma expressão de pura indignação. Ele não sabia se ela falava com ele ou consigo mesma.
— Desculpa? — arriscou.
Ela olhou para ele por cima do telefone. Tinha olhos castanhos e um sorriso que parecia estar sempre prestes a escapar.
— O aplicativo disse que meu pedido está pronto, mas olha só — virou a tela na direção dele —, nem saiu da fila. É uma conspiração das máquinas.
Lucas riu, surpreso. — Pode ser que o Wi-Fi esteja lento.
— O Wi-Fi aqui é uma piada. Mas eu venho mesmo assim. É o único lugar perto do escritório que não toca sertanejo universitário o dia inteiro.
Ele concordou com a cabeça, voltando a atenção para o notebook. O projeto do centro cultural estava aberto, mas a tela em branco do software de modelagem parecia rir dele. O prazo era sexta-feira, e ele ainda não tinha decidido onde colocar o jardim interno.
— Você é arquiteto? — perguntou ela, inclinando o corpo para o lado.
Lucas franziu a testa. — Como você sabe?
— A régua no estojo, as canetas azuis e vermelhas, e o fato de você estar encarando um desenho de planta como se ele tivesse ofendido sua mãe.
— Justo. Lucas. — Ele estendeu a mão.
— Clara. — Ela apertou, firme. — E por que você está perdendo tempo aqui em vez de estar no escritório?
— Porque no escritório tem gente que pergunta "por que você está perdendo tempo aqui?" — imitou uma voz mais grave.
Clara riu, um som curto e sincero. — Tudo bem. Eu estou aqui porque minha sala é do lado da do meu chefe, e ele mastiga gelo o dia inteiro. É um som que drena a alma.
Lucas sentiu a tensão nos ombros diminuir um pouco. Aquela conversa era melhor do que encarar o vazio do projeto. Ele fechou o notebook.
— Posso te pagar um café? Em troca de me salvar de mais uma hora de bloqueio criativo.
Ela ergueu uma sobrancelha. — Um café que você nem sabe se vai sair da fila?
— A gente arrisca.
Clara levantou, pegando a bolsa. — Vamos. Mas se o aplicativo trair a gente de novo, você me deve um bolo.
— Combinado.
Eles foram até o balcão. O pedido dela realmente não tinha saído, então Lucas pediu dois cappuccinos direto com o barista. Enquanto esperavam, Clara apontou para o caderno dele na mesa.
— Posso ver?
— Tá cheio de rabisco.
— Melhor ainda.
Ele hesitou, mas entregou. Ela folheou com cuidado, parando em uma página onde ele tinha esboçado uma fachada de vidro com uma árvore no centro.
— Isso aqui é bonito — disse ela, séria. — Mas a árvore precisa de mais espaço. Senão vai sufocar em cinco anos.
Lucas olhou para o desenho. Ele nunca tinha pensado nisso.
— Você entende de plantas?
— Design gráfico. Mas cresci no sítio da minha avó. Sei que raiz não negocia espaço.
— Anotado. — Ele puxou a caneta e escreveu "+ espaço para a árvore" na margem.
Os cappuccinos chegaram. Eles voltaram para as mesas, mas agora sentados lado a lado, com Lucas mostrando mais esboços e Clara apontando detalhes que ele não tinha visto. O tempo passou sem que ele percebesse.
Quando o celular dele apitou, eram quase oito da noite. O projeto ainda estava incompleto, mas pela primeira vez em dias, Lucas sabia o que fazer.
— Preciso ir — disse Clara, levantando-se. — Meu ônibus vai passar em quinze minutos.
— Clara, espera.
Ela parou, a bolsa a tiracolo.
— Obrigado. Pelo café, pelos palpites, por... — ele gesticulou no ar —, por hoje.
Ela sorriu, um sorriso maior do que o que ele tinha visto antes. — Lucas, eu sou designer. Posso trabalhar de qualquer lugar. E o Wi-Fi aqui é horrível, mas o café é bom. E a companhia também.
Ela puxou um cartão de visitas da bolsa e entregou a ele. — Me manda o projeto finalizado. Quero ver como a árvore vai ficar.
— Vai ficar ótima — disse ele.
— Tomara. Senão você me deve outro café.
Ela saiu, e a porta da cafeteria balançou atrás dela. Lucas ficou parado, segurando o cartão. Olhou para o notebook aberto, para os esboços rabiscados, para o número de telefone que ela tinha deixado.
Ele guardou o cartão no bolso da camisa e sorriu para a tela em branco. Dessa vez, ela não parecia mais tão vazia.