Chapter 2
Capítulo 2
Lucas descobre que Clara guarda um segredo inesperado, e o bloqueio criativo se transforma em desconfiança e urgência.
A cafeteria estava quase vazia quando Lucas guardou o cartão no bolso da camisa. O relógio na parede marcava oito e quinze, e o barista já começava a recolher as xícaras. Ele fechou o notebook, sentindo o peso do cartão contra o peito. O número de Clara estava ali, mas algo na despedida dela o incomodava.
Ela tinha saído tão rápido. O ônibus em quinze minutos, a bolsa a tiracolo, a porta balançando. Mas, enquanto ele revia os esboços, uma mancha no verso de uma das páginas chamou sua atenção. Era um carimbo, quase apagado, mas legível: "Studio Design — Clara Mendes — Projetos Exclusivos".
Lucas franziu a testa. Ela tinha dito que era designer gráfica. Mas o carimbo no caderno dele não era dela. Ele nunca tinha visto aquele selo antes. E a letra no canto, em caneta azul, era diferente da de Clara — mais firme, quase mecânica.
Ele virou a página. No verso, havia um esboço de uma árvore, mas não a que ele tinha desenhado. Era uma versão mais detalhada, com raízes profundas e galhos que se estendiam como veias. No canto inferior, a mesma caligrafia: "Projeto do Centro Cultural — Revisão Final".
O coração de Lucas acelerou. Ele não tinha mostrado aquele esboço para ninguém. E Clara tinha folheado o caderno enquanto ele pedia os cappuccinos. Será que ela tinha desenhado aquilo? Mas o carimbo era de um estúdio que ele não conhecia.
Ele pegou o telefone e discou o número do cartão. O toque soou uma, duas vezes. Depois, uma gravação: "O número que você ligou não está disponível. Deixe sua mensagem após o sinal."
Lucas desligou, irritado. Ele guardou o caderno na mochila e saiu da cafeteria. A noite estava fria, e as ruas quase desertas. Ele caminhou até o ponto de ônibus, mas desistiu. Precisava andar, pensar.
Enquanto passava por uma vitrine, viu o reflexo de uma figura familiar. Virou-se rápido. Ninguém. Mas a sensação de estar sendo observado não passava.
Ele chegou em casa meia hora depois. O apartamento estava silencioso, apenas o zumbido da geladeira quebrando o silêncio. Lucas jogou a mochila no sofá e ligou o notebook. Abriu o software de modelagem, mas a tela ainda estava em branco. Dessa vez, porém, o bloqueio não era criativo. Era desconfiança.
Ele pesquisou "Studio Design — Clara Mendes" no Google. Nada. Nenhum site, nenhum perfil em redes sociais. Apenas um resultado antigo, de um fórum de arquitetura, onde alguém mencionava o nome. A postagem era de três anos atrás: "Cuidado com projetos assinados por Clara Mendes. Trabalho desaparece."
Lucas leu o comentário várias vezes. O fórum era sobre plágio e direitos autorais. O usuário, anônimo, descrevia um caso em que uma designer tinha se apropriado de um conceito de um arquiteto novato. O nome Clara Mendes aparecia como a acusada.
Ele fechou o navegador e respirou fundo. Podia ser coincidência. O mundo é pequeno, e nomes se repetem. Mas o carimbo no caderno, o desenho da árvore, o número de telefone que não funcionava — tudo se encaixava como peças de um quebra-cabeça que ele não queria montar.
O celular vibrou. Uma mensagem de texto de um número desconhecido: "Lucas, sou a Clara. Meu celular caiu na água. Tô ligando de um número emprestado. Me manda o projeto amanhã, ok?"
Ele olhou para a tela. A mensagem era curta, sem erros. Mas o tom parecia diferente do que ele lembrava. Mais formal, menos descontraído. Lucas respondeu: "Claro. Mas me diz uma coisa: o que você achou do esboço da árvore?"
A resposta veio em segundos: "Lindinho. Mas precisa de mais espaço para as raízes, lembra?"
Lucas sorriu, aliviado. Era ela. A mesma observação que tinha feito na cafeteria. Ele guardou o telefone e abriu o projeto. Dessa vez, a tela não parecia vazia. Ele começou a modelar a fachada, adicionando a árvore no centro, com espaço generoso para as raízes.
Mas, enquanto trabalhava, uma dúvida o corroía. E se o comentário do fórum fosse verdade? E se Clara tivesse um histórico de roubo de ideias? Ele olhou para o cartão, ainda no bolso da camisa. A decisão de confiar ou não nela pesava mais do que o prazo de sexta-feira.
Ele decidiu que, no dia seguinte, iria ao endereço do cartão. Não para confrontá-la, mas para entender. O escritório dela ficava no centro, perto da cafeteria. Talvez ele pudesse passar antes do almoço.
Lucas desligou o notebook e foi para a cama. Mas o sono demorou a chegar. Cada rangido do prédio o fazia virar na cama, imaginando passos no corredor. O segredo de Clara, se existisse, poderia custar não apenas o projeto, mas a confiança que ele começava a depositar nela.
Na manhã seguinte, ele acordou com o despertador tocando às seis. Tomou um café rápido e saiu. O endereço do cartão era uma rua movimentada, com lojas e escritórios. O prédio era antigo, com uma placa discreta na fachada: "Studio Design — Mendes & Associados".
Lucas subiu as escadas até o segundo andar. A porta era de vidro fosco, com o nome gravado a ouro. Ele hesitou por um momento, depois empurrou a porta.
A sala era pequena, com duas mesas e uma estante cheia de pastas. Uma mulher mais velha, de cabelos grisalhos e óculos de aro fino, olhou para ele.
— Posso ajudar?
— Estou procurando Clara Mendes.
A mulher franziu a testa. — Clara? Ela não trabalha mais aqui. Faz uns dois anos.
Lucas sentiu o estômago embrulhar. — Ela me deu este cartão ontem. — Ele mostrou o cartão.
A mulher examinou o cartão com atenção. — Isso é um cartão antigo. O número não está mais em uso. Quem te deu isso?
— Uma moça, na cafeteria. Ela disse que era designer gráfica.
A mulher suspirou, como se entendesse algo. — Você é arquiteto, não é?
— Sim.
— Ela costuma fazer isso. Abordar arquitetos em cafeterias, se passar por designer, pegar ideias. Depois, some. É uma golpista, moço. Já avisei a polícia, mas ela nunca é pega.
Lucas apoiou as mãos na mesa. O bloqueio criativo, a conversa descontraída, o desenho da árvore — tudo era uma isca. E ele tinha mordido.
— Obrigado — disse ele, virando-se para sair.
— Moço? — chamou a mulher. — Cuidado com o projeto. Ela pode estar de olho nele.
Lucas desceu as escadas com o coração batendo forte. O prazo era sexta-feira, e agora ele não sabia em quem confiar. Mas, enquanto caminhava de volta para a cafeteria, uma ideia surgiu. E se ele pudesse virar o jogo? Usar o que sabia para atraí-la e descobrir a verdade?
Ele pegou o telefone e enviou uma mensagem para o número desconhecido: "Clara, terminei o projeto. Posso te mostrar hoje, na cafeteria, às seis?"
A resposta veio rápido: "Claro. Ansiosa para ver."
Lucas guardou o telefone. Dessa vez, ele não iria apenas mostrar o projeto. Ia descobrir o segredo dela, custasse o que custasse.