Chapter 2
O Encontro
Lucas chega ao ensaio do ministério de jovens e conhece Marina, a nova voluntária. Uma conversa simples sobre fé e espera revela uma conexão inesperada, deixando Lucas com uma sensação de paz e curiosidade.
O sábado chegou devagar, como se o tempo tivesse aprendido a andar no ritmo da paciência que Lucas decidira cultivar. Ele vestiu uma camisa azul clara, a mesma que a mãe dizia realçar seus olhos, e passou um pouco de gel no cabelo antes de sair.
A igreja ficava a quinze minutos de casa, num bairro tranquilo onde as ruas ainda guardavam o cheiro de terra molhada das chuvas da manhã. Lucas estacionou o carro e ficou um instante sentado, as mãos no volante, respirando fundo.
— Senhor, não estou aqui por ansiedade. Estou aqui por obediência. Se for da Tua vontade, que seja. Se não for, também está bom.
Ele desceu e entrou pelo portão lateral, onde o som de vozes e violões já anunciava o ensaio. O salão estava iluminado por lâmpadas amarelas que davam um ar acolhedor ao ambiente. Alguns jovens estavam sentados no chão, outros em cadeiras de plástico, espalhados em roda.
— Lucas! — Pedro, o líder do ministério, acenou de longe. — Chegou na hora certa. Vem conhecer a Marina.
Lucas sentiu o estômago dar um leve nó. Ele atravessou a roda cumprimentando os conhecidos com acenos e apertos de mão, até parar diante de uma moça de cabelos castanhos presos num coque simples. Ela usava uma blusa branca e calça jeans, e segurava um violão apoiado no colo.
— Marina, esse é o Lucas. Engenheiro, gente boa, solteiro e disponível — Pedro riu, e Lucas revirou os olhos, sentindo o rosto aquecer.
— Ignora ele — Lucas estendeu a mão. — Prazer, Marina. Seja bem-vinda.
Ela apertou a mão dele com firmeza, os olhos castanhos encontrando os dele por um segundo a mais que o necessário.
— Obrigada. Pedro já me falou bem de você. Disse que você é um dos mais dedicados aqui.
— Ele exagera. Mas eu apareço sempre que posso.
Lucas sentou-se numa cadeira próxima, o coração batendo num ritmo calmo, diferente da agitação que sentia antes. Enquanto o ensaio começava, ele observou Marina de relance. Ela cantava baixinho enquanto afinava o violão, os dedos passeando pelas cordas com uma familiaridade que só quem ama a música tem.
— Você toca bem — ele comentou, num intervalo.
— Toco desde os doze anos. Minha avó me ensinou. — Ela sorriu, um sorriso tímido que iluminava o rosto. — E você? Canta?
— Canto no chuveiro. Na igreja, só acompanho.
Ela riu, um som leve, como água correndo.
— Já é um começo.
O ensaio seguiu por duas horas. Entre uma música e outra, Lucas percebeu que Marina era reservada, mas não fria. Ela ouvia mais do que falava, e quando falava, era com uma gentileza que parecia genuína. Durante uma pausa para água, ele se aproximou.
— Então, o que te trouxe para o ministério de crianças?
Ela tomou um gole d'água antes de responder.
— Sempre gostei de crianças. E sinto que é onde Deus quer me usar agora. Passei uns meses orando sobre isso, e quando surgiu a oportunidade aqui, senti paz.
— Orando sobre isso — Lucas repetiu, os olhos fixos nela. — Você esperou o tempo certo?
Ela inclinou a cabeça, curiosa.
— É o que a Bíblia ensina, não é? Esperar. Confiar.
Lucas sorriu. As palavras do avô ecoaram na mente.
— É. Amor verdadeiro espera. E não é só sobre relacionamento, é sobre tudo. Sobre saber que Deus não esqueceu da gente.
Marina o observou por um instante, como se avaliasse algo.
— Você parece alguém que já aprendeu isso na prática.
— Estou aprendendo — ele admitiu, a voz baixa. — Ainda estou no processo.
Ela não respondeu, mas o olhar dela dizia que entendia.
O ensaio terminou perto das nove. Enquanto os outros guardavam os instrumentos, Lucas ajudou a arrumar as cadeiras. Marina estava perto da porta, o violão na capa, quando ele se aproximou.
— Preciso de carona? — ele perguntou, tentando soar casual. — Se você morar perto, posso te deixar.
Ela hesitou por um segundo.
— Moro na rua das Palmeiras, perto do mercado. Se não for muito longe...
— Claro. Fica no caminho.
No carro, o silêncio não era pesado. A noite estava fresca, e as luzes da cidade passavam pelas janelas como estrelas apressadas. Marina olhava para fora, o rosto iluminado pelos postes.
— Posso perguntar uma coisa? — ela disse, sem tirar os olhos da rua.
— Claro.
— O que te fez decidir esperar?
Lucas pensou por um momento. As palavras do avô, a Bíblia aberta, a mensagem no grupo.
— Meu avô. Ele me mostrou que esperar não é perder tempo, é ganhar propósito. E que eu não preciso correr atrás do pior se Deus tem o melhor para mim.
Ela virou o rosto para ele, os olhos brilhando na penumbra.
— Isso é lindo. Muita gente não entende.
— E você? Entende?
Ela sorriu, um sorriso que era quase uma resposta.
— Acho que sim. Também estou aprendendo.
O carro parou em frente a um prédio simples, com uma entrada iluminada por uma lâmpada amarela. Marina pegou o violão e abriu a porta.
— Obrigada pela carona, Lucas. E pela conversa.
— Obrigado eu. Foi bom conhecer você.
Ela desceu, deu alguns passos, e se virou.
— Aparece no ensaio da semana que vem?
Lucas sentiu o coração bater mais forte, mas não de ansiedade. Era outra coisa. Uma coisa boa.
— Com certeza.
Ela acenou e entrou no prédio. Lucas ficou parado por um instante, o motor do carro roncando baixinho. Ele olhou para o céu, onde algumas estrelas apareciam entre as nuvens.
— Senhor, eu não sei o que isso significa. Mas estou confiando.
Ele ligou o carro e foi embora, com a sensação de que algo tinha mudado. Não era pressa. Era paz. E pela primeira vez em muito tempo, ele não precisava saber o que viria depois.
O telefone vibrou quando ele chegou em casa. Uma mensagem de Marina.
— Foi um prazer conhecê-lo. Boa noite. — E um emoji de estrela.
Lucas sorriu para a tela, guardou o telefone no bolso, e foi se preparar para dormir. O avô estava certo. Amor verdadeiro espera. E ele estava disposto a esperar o tempo que fosse necessário.
Na manhã de domingo, ao acordar, ele encontrou outra mensagem:
— Lucas, você vai na reunião de jovens hoje à noite? — Marina.
Ele respondeu rápido, o coração leve:
— Vou sim. Te vejo lá.
Ela respondeu com um coração. Ele guardou o telefone e sorriu. A espera continuava, mas agora ele tinha alguém com quem compartilhar o caminho.