Chapter 2
Capítulo 2 — O Café e as Memórias
Katie e Liam se reencontram na cafeteria do hospital. Entre goles de café e lembranças doces, eles começam a preencher os anos de silêncio, mas um encontro urgente os interrompe, deixando um convite pendente para o dia seguinte.
A cafeteria do hospital tinha um cheiro acolhedor de pão torrado e chocolate quente, uma ilha de calma no meio daquele oceano de corredores brancos e aparelhos bipando. Katie sentou-se à mesa que Liam escolheu, perto da janela, onde o sol da tarde desenhava arabescos dourados sobre a superfície de fórmica.
— Você se lembra — ela repetiu, mais para si mesma do que para ele, enquanto seus dedos envolviam a xícara. O calor subia em ondas suaves, tocando suas palmas.
Liam sorriu, e era um sorriso que ela conhecia bem, apesar dos anos. Aquele jeito de inclinar a cabeça ligeiramente para a direita, como se estivesse dividindo um segredo.
— Do café com leite e duas colheres de açúcar? Claro. — Ele apoiou os cotovelos na mesa, inclinando-se para mais perto. — Você sempre reclamava que o café do hospital era amargo demais. Dizia que precisava de açúcar para esquecer o gosto de antisséptico.
Katie riu baixinho, e o som pareceu quebrar o gelo fino que ainda restava entre eles.
— E você sempre dizia que eu estragava o café com tanto açúcar. Que virava leite adoçado, não café.
— E continua sendo verdade — ele disse, mas o tom era afetuoso, não crítico. Seus olhos azuis percorreram o rosto dela como se estivesse memorizando cada detalhe. — Você não mudou tanto, Katie. Ainda tem as mesmas sardas no nariz.
Ela sentiu o calor subir às bochechas e baixou o olhar para a xícara, mexendo o líquido devagar.
— Mudei o suficiente. — A voz saiu mais baixa do que ela pretendia. — Você sumiu, Liam. Quinze anos sem uma carta, sem um telefonema. Eu pensei... — Ela hesitou, os dedos apertando a xícara. — Pensei que tivesse feito algo errado. Que você não queria mais ser meu amigo.
O silêncio que se seguiu era pesado, mas não hostil. Liam baixou a cabeça, os dedos traçando círculos na borda da xícara.
— Não foi você. Nunca foi você. — Ele ergueu os olhos, e havia uma sinceridade nua neles que fez o coração de Katie apertar. — Meu pai... ele teve problemas. Problemas sérios. Dívidas, ameaças. Nós tivemos que sair da cidade de uma hora para outra, sem avisar ninguém. Minha mãe me fez prometer que não contaria a ninguém para onde íamos. Ela estava com medo.
— Medo de quê?
— De que as pessoas que procuravam meu pai nos encontrassem. — A voz dele era baixa, quase um sussurro. — Eu queria te procurar, Katie. Pensei em você todos os dias. Mas não podia arriscar. Não sabia se era seguro.
Katie sentiu um nó na garganta. As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar, revelando uma imagem que ela nunca imaginara.
— E agora? — ela perguntou, a voz trêmula. — Está seguro agora?
— Sim. — O sorriso dele era tímido, quase infantil. — Meu pai morreu há dois anos. As dívidas foram pagas. Minha mãe está bem, mora com minha irmã no interior. Eu terminei a faculdade de enfermagem e consegui uma vaga aqui. E a primeira coisa que fiz quando cheguei foi perguntar por você.
— Perguntar por mim?
— No hospital. Perguntei se havia uma médica chamada Katie. Disseram que sim, que você trabalhava aqui há anos. — Ele riu, balançando a cabeça. — Passei semanas tentando encontrar o momento certo para te abordar. E então você esbarrou em mim hoje.
— Semanas? — Katie repetiu, incrédula. — Você está aqui há semanas?
— Três semanas e dois dias — ele confirmou, e o rubor subiu em suas bochechas. — Eu vi você algumas vezes. No corredor, no refeitório. Mas você sempre estava ocupada, ou acompanhada, e eu não sabia o que dizer. Como se explica quinze anos de silêncio?
Katie mordeu o lábio inferior, pensando. As palavras dele pareciam sinceras, cada uma delas. E, no fundo, ela sabia que Liam nunca mentira para ela. Não quando eram crianças.
— Você podia ter falado comigo — ela disse, mas a voz já não tinha acusação. Apenas uma tristeza suave, como a névoa da manhã.
— Eu sei. — Ele inclinou-se ainda mais, e o espaço entre eles parecia vibrar. — Mas tive medo. Medo de que você estivesse magoada. Medo de que não quisesse me ver. — Ele fez uma pausa, os olhos fixos nos dela. — E agora? Está magoada?
Katie considerou a pergunta. A mágoa estava lá, sim, enterrada sob camadas de anos e de trabalho. Mas, olhando para ele, para aquele rosto que ainda lhe era tão lindo e familiar, ela sentiu a mágoa se dissolver, substituída por algo mais cálido.
— Estou — ela admitiu, e viu a sombra cruzar o rosto dele. — Mas também estou feliz por te ver. E quero saber mais. Quero saber tudo o que você fez nesses quinze anos.
O alívio no rosto de Liam foi tão visível que Katie quase riu. Ele relaxou os ombros, apoiando-se na cadeira, e pegou a xícara de café.
— É uma história longa — ele disse, e o sorriso voltou, mais largo agora. — Mas tenho tempo. E você?
Ela ia responder quando o bip do seu celular cortou o ar. Katie olhou para a tela e suspirou.
— Plantão me chama. — Ela se levantou, relutante, mas com o coração mais leve. — Mas amanhã é meu dia de folga. Podemos nos encontrar novamente. Se quiser.
Liam se levantou também, e por um momento eles ficaram ali, frente a frente, o sol da tarde banhando os dois em luz dourada.
— Amanhã, então. — Ele hesitou, como se quisesse dizer mais, mas apenas sorriu. — Vou te buscar no seu prédio. Que horas?
— Dez horas? — Katie sugeriu, e ele concordou com a cabeça.
— Dez horas. E Katie? — Ele tocou o braço dela novamente, um toque leve, mas cheio de significado. — Obrigado por me ouvir.
Ela sorriu, sentindo o calor do toque se espalhar pelo corpo.
— Até amanhã, Liam.
Enquanto caminhava de volta para o plantão, Katie sentiu o coração bater acelerado. O mundo parecia mais colorido, o ar mais leve. E, pela primeira vez em muito tempo, ela sentiu que algo bom estava prestes a começar.