Chapter 1
Capítulo 1
A médica Katie, em um dia agitado de trabalho, esbarra em um homem no corredor do hospital e reconhece seu melhor amigo de infância, Lucas, que a esperava há anos.
— Pronto, senhor Silva, o senhor vai nascer hoje — Katie murmurou para si mesma, ajustando as luvas cirúrgicas enquanto atravessava o corredor do hospital. O cheiro de antisséptico se misturava ao café fresco vindo da sala dos funcionários, e o sol da manhã entrava pelas janelas altas, formando retângulos dourados no piso de vinil. Ela sorriu, sentindo aquele frio na barriga que nunca passava antes de um parto, mesmo depois de tantos anos de profissão.
Sua mente já estava na sala de cirurgia, revisando mentalmente cada etapa do procedimento, quando seu ombro colidiu com algo sólido. Papéis voaram pelo ar, espalhando-se como pétalas brancas, e Katie sentiu o impacto desequilibrá-la por um segundo.
— Desculpe, eu não vi... — ela começou, abaixando-se para recolher as folhas, mas a voz do outro homem a fez congelar.
— Katie?
Era uma voz grave, mas suave, carregada de uma surpresa doce que fez seu coração disparar. Ela ergueu os olhos e encontrou um rosto que conhecia desde a infância, embora estivesse mais marcado pelo tempo. Liam. Seu melhor amigo de infância, aquele que desapareceu sem deixar rastro quando ela tinha quinze anos.
— Liam? — a palavra saiu quase sem som, como se o ar lhe faltasse.
Ele estava diferente. Os cabelos castanhos, antes sempre desgrenhados, estavam penteados para trás, e o rosto tinha uma barba por fazer que lhe dava um ar cansado, mas bonito. Os olhos, no entanto, eram os mesmos — azuis como o céu de inverno, com aquela luz gentil que ela nunca esquecera.
— Você está aqui — ele disse, e havia algo na voz dele, uma emoção que Katie não conseguiu nomear. — Eu procurei por você, Katie. Durante anos.
Ela sentiu o chão sumir sob seus pés. O corredor do hospital, antes tão familiar, pareceu estranho e distante. As lembranças vieram em ondas: as tardes na casa da árvore, as brigas por causa do último pedaço de bolo de chocolate, as promessas sussurradas de que seriam amigos para sempre. E então o silêncio. O vazio que ele deixou quando se mudou sem se despedir.
— Por que você foi embora sem dizer nada? — a pergunta escapou antes que ela pudesse contê-la, e Katie sentiu o rubor subir em suas bochechas. Não era o momento. Ela estava prestes a fazer um parto. Mas as palavras estavam ali, pressionando.
Liam baixou o olhar por um instante, e Katie viu a culpa cruzar seu rosto como uma sombra.
— Eu precisei ir. Meu pai... — ele hesitou, como se as palavras fossem pesadas demais. — Foi complicado. Mas eu sempre quis voltar e te encontrar. E agora estou aqui.
O som de um bip cortou o ar, e Katie olhou para o relógio na parede. A sala de cirurgia a esperava.
— Eu tenho que ir — ela disse, e a urgência na própria voz a surpreendeu. — Um parto. Mas... — ela hesitou, o coração batendo acelerado. — Você vai ficar por aqui?
— Vou — ele respondeu, e um sorriso tímido curvou seus lábios. — Trabalho no hospital agora. Sou enfermeiro no andar de cima.
Katie sentiu o mundo girar novamente. Enfermeiro. Ele trabalhava ali, no mesmo hospital. Durante todo aquele tempo, ele estivera tão perto, e ela não sabia.
— Então... — ela começou, mas o bip soou novamente, mais insistente.
— Vai — Liam disse, e havia calor em sua voz. — A senhora Silva está esperando. Mas... — ele estendeu a mão e tocou levemente o braço dela, um toque breve, quase hesitante. — Podemos tomar um café depois? Para conversar?
Katie engoliu em seco. O toque dele ainda queimava em sua pele.
— Claro — ela conseguiu dizer, e a palavra saiu mais firme do que ela esperava. — Depois do plantão. Na cafeteria do térreo.
Ele assentiu, e Katie se virou, forçando as pernas a se moverem em direção à sala de cirurgia. Cada passo era um esforço, como se o corpo quisesse ficar ali, parado, olhando para ele. Mas ela tinha um trabalho a fazer. Uma vida para trazer ao mundo.
Ao entrar na sala estéril, Katie respirou fundo e deixou que o protocolo a envolvesse. As mãos firmes, a voz calma, os olhos atentos. A senhora Silva sorriu para ela, confiante, e Katie retribuiu o sorriso, mesmo com o coração ainda acelerado.
O parto correu bem. O choro do bebê ecoou pelas paredes, e Katie sentiu a alegria familiar, mas desta vez havia algo mais — uma ansiedade que não a deixava. Enquanto lavava as mãos depois do procedimento, ela olhou para o próprio reflexo no espelho do banheiro. As mesmas sardas no nariz, os mesmos olhos verdes, mas algo mudara. Liam estava de volta. E ele a procurara.
— Pronto — ela murmurou, enxugando as mãos. — Hora do café.
O corredor parecia mais curto agora, os passos dela mais rápidos. A cafeteria estava quase vazia, e Katie o viu imediatamente: sentado em uma mesa perto da janela, com duas xícaras fumegantes à sua frente. Ele ergueu a mão quando a viu, e o sorriso que lhe ofereceu era tão familiar que doeu.
— Achei que você ainda gostasse de café com leite e duas colheres de açúcar — ele disse quando ela se aproximou.
Katie riu, um som surpreso, e sentou-se à sua frente.
— Você se lembra.
— Lembro de tudo, Katie. — Os olhos dele encontraram os dela, e havia uma sinceridade nua ali. — E preciso te contar o que aconteceu. Por que fui embora, e por que voltei.
Ela segurou a xícara, sentindo o calor se espalhar por seus dedos. O coração batia forte, e o mundo parecia suspenso, esperando.
— Estou ouvindo — ela disse, e a tarde de sol entrava pela janela, banhando os dois em luz dourada.