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Chapter 3

Capítulo 2 — O intervalo revelador

Durante o intervalo, Milla tenta evitar que seus colegas descubram sua ligação com os irmãos, mas Henry, Henrique e Renato se aproximam para falar sobre uma reunião familiar. Milla se irrita com a falta de discrição dos irmãos e acaba chamando atenção de Pedro, que fica desconfiado. Renato intervém com calma, e Milla promete conversar com a mãe sobre os estranhos sintomas que vem sentindo.

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O sinal do intervalo ecoou pelos corredores, e eu suspirei aliviada. Finalmente, um momento de paz. As aulas da manhã tinham sido um verdadeiro teste de paciência. O professor de história não parava de fazer perguntas sobre minha família, e eu precisei inventar histórias sobre um pai viajante e uma mãe ocupada com trabalho. Mentiras. Todas mentiras.

Eu me apoiei no parapeito da janela do pátio, observando os alunos espalhados pelo gramado. Alguns riam, outros jogavam futebol. Vida normal. Tão diferente da minha.

— Milla! — a voz animada de Lucas me tirou dos pensamentos. Ele se aproximou com um sanduíche na mão. — Você sumiu depois da aula de história. Pedro ficou falando sobre você o tempo todo.

— Pedro sempre fala sobre mim — respondi, tentando soar indiferente. — Ele tem um talento especial para fazer perguntas inconvenientes.

Lucas riu, mas seu olhar era compreensivo. Ele era um dos poucos que sabia parte da verdade. Não tudo, claro. Ninguém sabia tudo.

— Ele perguntou se você tem irmãos mais velhos — continuou Lucas, mordendo o sanduíche. — Disse que viu você conversando com uns caras do segundo ano.

Meu estômago deu um nó. Então Pedro tinha visto. Maldita hora em que Henry resolveu aparecer perto do meu armário naquela manhã.

— E o que você disse? — perguntei, tentando manter a calma.

— Disse que você é amiga de todo mundo. Que talvez fossem colegas de projeto.

— Boa resposta.

Lucas deu de ombros. — Faço o que posso. Mas, Milla, você não acha que está exagerando? Seus irmãos estudam na mesma escola. Mais cedo ou mais tarde, alguém vai descobrir.

— Eu sei. Mas quanto mais tempo eu conseguir esconder, melhor. Você não entende como as pessoas olham para a realeza. Eu só quero ser uma garota normal.

— Uma garota normal que controla fogo e gelo e lê pensamentos? — ele brincou.

— Exatamente. Totalmente normal.

Antes que Lucas pudesse responder, senti uma presença familiar se aproximando. Henry. Com seu jeito despreocupado, ele vinha em minha direção com as mãos nos bolsos do uniforme. O sorriso largo no rosto me fez suspirar.

— Milla! — ele chamou, ignorando completamente qualquer tentativa de discrição. — A mãe mandou avisar que o jantar hoje é mais cedo. Disse que você precisa ir para casa direto depois da aula.

Vários olhares se viraram para nós. Henry era impossível de ignorar. Alto, cabelos escuros desgrenhados e aquela energia vibrante que parecia esquentar o ar ao seu redor.

— Henry — sibilei entre dentes. — Não pode esperar a gente se encontrar em casa?

— Ah, qual é, irmãzinha. Tô só passando o recado.

Irmãzinha. A palavra ecoou no pátio. Vi Pedro, que estava sentado alguns metros dali, erguer a cabeça. Seus olhos se arregalaram.

— Henry, você é impossível — murmurei, enquanto meu rosto queimava de vergonha.

— Relaxa. Ninguém liga. — Ele revirou os olhos e se virou para Lucas. — E aí, Lucas. Cuidando bem da minha irmã?

— Tentando — respondeu Lucas, com um sorriso torto.

Antes que eu pudesse dizer algo, senti uma brisa fria. Henrique se aproximava, com passos calmos e expressão séria. O contraste com Henry era gigantesco. Enquanto um era fogo puro, o outro era gelo.

— Henry, você está sendo imprudente — disse Henrique, com a voz baixa. — A mãe pediu discrição.

— Discreto? Eu sou a pessoa mais discreta do mundo.

— Você acabou de chamar Milla de irmã no meio do pátio.

— Detalhes.

Henrique suspirou e passou a mão pelo cabelo. — Milla, desculpe por ele. Viemos avisar sobre o jantar. A mãe quer conversar sobre... aquilo.

— Aquilo? — repeti, confusa.

— Os sintomas. As marcas.

Meu coração acelerou. As marcas. Nos últimos dias, pequenos símbolos prateados tinham aparecido no meu braço direito. Eles brilhavam quando eu usava meus poderes, e eu sentia uma dor estranha, como se algo estivesse mudando dentro de mim. Eu tinha tentado esconder, mas minha mãe notou.

— Ela está preocupada — completou Henrique. — E você sabe que ela só chama reuniões quando é sério.

— Eu sei.

— Ei, vocês três! — a voz de Renato veio de trás. Ele caminhava devagar, com um livro na mão. Como sempre, parecia calmo e sereno. — Estão causando alvoroço?

— Só o Henry — respondi.

— Justo. — Renato parou ao meu lado e baixou a voz. — Milla, vi as marcas hoje de manhã. Estão maiores. Você precisa me deixar examinar.

— Depois. Agora não.

— Milla...

— Depois, Renato. Eu prometo.

Ele me olhou com preocupação, mas não insistiu. Henry, por outro lado, já estava distraído, cumprimentando um colega de turma. Henrique permanecia ao meu lado, com os braços cruzados.

— Lucas, você pode dar um tempo? — pediu Henrique, educadamente.

Lucas entendeu. — Claro. Vou lá falar com o pessoal do futebol. Milla, me conta depois.

— Pode deixar.

Quando Lucas se afastou, os três irmãos me rodearam. Parecíamos uma ilha no meio do pátio.

— O que está acontecendo comigo? — perguntei, em voz baixa.

— Não sabemos — respondeu Renato. — Mas a mãe disse que pode ser algo relacionado ao nosso sangue. Aos poderes.

— Por que agora? Por que eu? Henry e Henrique controlam fogo e gelo separadamente. Eu tenho os dois. Nunca foi um problema antes.

— Talvez seja por isso que é um problema agora — disse Henrique. — Você é diferente de nós. Seus poderes são mais instáveis.

Henry bufou. — Ela não é instável. Só é mais poderosa. Vocês complicam demais.

— Henry, não é hora de brincadeira — cortou Henrique.

— Quem está brincando? Falo sério. Milla é mais forte do que todos nós juntos. Isso assusta vocês?

— Não assusta. Preocupa — corrigiu Renato. — Poder demais sem controle pode ser perigoso. Para ela e para quem está perto.

— Eu estou bem — menti. — Só um pouco cansada.

Os três trocaram olhares. Eles não acreditaram em mim. Claro que não. Irmãos mais velhos sempre sabem quando a gente está mentindo.

— Hoje à noite — disse Henrique. — Depois do jantar, a mãe vai nos explicar tudo. E você vai contar exatamente o que está sentindo.

— Combinado.

O sinal tocou novamente, anunciando o fim do intervalo. Os alunos começaram a se mover em direção às salas.

— Vamos — disse Henry, colocando a mão no meu ombro. — Não quero que você se atrase. A mãe já está brava o suficiente com a gente.

— Por quê?

— Porque aparecemos no pátio no intervalo. Ela disse que era para esperar até a saída.

— E vocês não esperaram.

— Claro que não. Você precisava saber.

Um sorriso escapou dos meus lábios. Por mais irritantes que fossem, meus irmãos se importavam. Cada um do seu jeito — Henry com sua impulsividade, Henrique com sua seriedade, Renato com sua calma.

Enquanto caminhávamos de volta para a escola, senti algo estranho. Uma vibração, como se o ar ao meu redor estivesse mudando. Olhei para meu braço. As marcas brilhavam fracamente sob a manga do uniforme.

— Milla? — Renato notou meu olhar. — Está tudo bem?

— Sim. Só... pensei em algo.

— Pare de esconder as coisas. Isso só piora.

— Eu sei. — Respirei fundo. — Vou contar tudo hoje. Prometo.

Renato assentiu. — Vamos confiar em você.

Os quatro entramos no prédio juntos. Alguns alunos olharam, mas a maioria já estava acostumada a ver os irmãos juntos. O que eles não sabiam é que não éramos apenas amigos ou colegas. Éramos uma família. Uma família com segredos que poderiam mudar tudo.

— Até mais tarde, irmãzinha — disse Henry, com um sorriso.

— Até mais tarde.

Eles se viraram e seguiram para o segundo ano. Eu fiquei ali, observando-os, sentindo o calor e o frio que emanavam deles. Meus irmãos. Meus protetores. Meus melhores amigos.

Mas, mesmo com eles ao meu lado, eu sabia que algo estava mudando. Algo dentro de mim. E eu não fazia ideia do que era.

— Milla! — a voz de Pedro me chamou. — Então aqueles caras são seus irmãos, hein?

Respirei fundo e me virei para encará-lo. — Sim. São.

— Por que escondeu?

— Porque não é da sua conta.

Pedro franziu a testa, mas não insistiu. Pelo menos não naquele momento. Eu sabia que ele não desistiria tão fácil.

Entre no fogo e no gelo, eu tentava me equilibrar. Entre o segredo e a verdade. Entre ser uma princesa e ser apenas Milla.

E, no fundo, eu sabia que o equilíbrio não duraria para sempre.

O sinal tocou pela última vez, e a tarde começou. Uma tarde que, eu sentia, seria apenas o começo de algo muito maior.

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