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Chapter 1

Capítulo 1 — Uma garota cheia de segredos

Milla se prepara para mais um dia de aula, escondendo sua identidade real e seus poderes elementais. Na escola, ela enfrenta perguntas de Pedro sobre sua família e tenta proteger o segredo de que seus três irmãos mais velhos também estudam ali, enquanto lida com seus dons extraordinários.

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Meu nome é Milla, e esta é a história de como aprendi que segredos têm peso, que o fogo e o gelo podem coexistir dentro de uma mesma pessoa, e que às vezes as respostas que buscamos estão mais perto do que imaginamos.

Tudo começou numa manhã de segunda-feira, como tantas outras. O sol entrava pelas frestas da cortina do meu quarto, pintando listras douradas no chão de madeira. Eu estava deitada, ainda enrolada no cobertor, quando ouvi o primeiro pensamento do dia.

— Será que ela vai contar hoje? — era a voz da minha mãe, vinda da cozinha, lá embaixo.

Eu conseguia ouvir pensamentos desde que me lembro. Não era algo que eu controlasse completamente — os pensamentos simplesmente chegavam, como ondas numa praia. Alguns eram suaves, outros fortes. O da minha mãe era sempre preocupado.

Respirei fundo e me levantei. No espelho do guarda-roupa, vi uma garota comum: cabelos castanhos presos num rabo de cavalo, olhos verdes, uniforme escolar azul-marinho. Nada nela indicava que era uma princesa. Nada revelava que dentro do seu peito queimava um fogo ancestral e congelava um gelo milenar.

Vesti o uniforme com cuidado, alisando as dobras da saia. Minha mãe insistia que eu mantivesse uma aparência impecável — afinal, eu representava a família real, mesmo que ninguém na escola soubesse.

— Milla! O café está pronto! — a voz dela subiu as escadas.

— Já vou! — respondi, dando um último olhar ao meu reflexo.

No caminho para a cozinha, passei pelo quarto dos meus irmãos. A porta estava entreaberta. Henry, o mais velho, estava sentado na cama, os cabelos ruivos desgrenhados, uma chama dançando entre seus dedos enquanto ele ria sozinho de alguma coisa.

— Você vai pôr fogo na cortina de novo? — perguntei, apoiando-me no batente.

Ele ergueu os olhos, o sorriso ainda no rosto. — Relaxa, irmã. Eu controlo.

— Controlar é uma palavra forte para você.

Do outro lado do corredor, Henrique apareceu, os cabelos negros perfeitamente penteados, o rosto sério. Uma fina camada de gelo cobria o copo de água que ele segurava.

— Ela tem razão — disse ele, com sua voz calma. — Já são três incêndios este mês.

— Acidentes! — protestou Henry, apagando a chama.

Renato, o mais novo dos meus irmãos, veio subindo as escadas com uma bandeja de pães. — Deixem o Henry em paz. Ele está melhorando.

— Obrigado, maninho — disse Henry, dando um tapinha no ombro de Renato.

Eu sorri. Eram eles: Henry, o fogo; Henrique, o gelo; Renato, a cura. E eu, Milla, presa no meio, com dois poderes que às vezes pareciam querer se destruir.

Na cozinha, minha mãe colocava pratos na mesa. Ela usava um vestido simples, mas seus olhos castanhos tinham aquele brilho que só uma rainha possui. Meu pai já tinha saído para o trabalho no castelo.

— Hoje é dia de prova? — ela perguntou, enquanto eu me sentava.

— Não. Só aulas normais.

— E você vai conseguir... se controlar?

Ela não precisava dizer mais nada. Eu sabia do que estava falando. Nos últimos dias, meus poderes estavam instáveis. O fogo aquecia minhas mãos quando eu menos esperava. O gelo se formava na minha pele durante a noite. E os pensamentos... os pensamentos estavam mais altos, mais confusos.

— Vou tentar — respondi, baixando os olhos.

Minha mãe suspirou. — Milla, lembre-se: você não é apenas uma princesa. Você é minha filha. E eu confio em você.

Aquelas palavras me aqueceram por dentro, mas também me pesaram. Confiança era uma coisa frágil.

A escola ficava a vinte minutos a pé do palácio. Eu sempre preferia andar sozinha, mesmo que meus irmãos se oferecessem para me acompanhar. Precisava daquele tempo para organizar os pensamentos — os meus e os dos outros.

No portão, encontrei Lucas. Ele era um dos poucos que sabiam parte da verdade. Não sobre os poderes, mas sobre minha família real. Descobrira por acaso, num dia em que me viu saindo do palácio com meus pais.

— Milla! — ele acenou, seu sorriso fácil iluminando o rosto. — Pronta para mais um dia de aulas chatas?

— Sempre — respondi, devolvendo o sorriso.

Caminhamos juntos até a sala. No corredor, grupos de alunos conversavam, riam, trocavam segredos. Eu tentava não ouvir, mas os pensamentos vinham:

— Ela é bonita, mas parece tão distante...

— Será que ela é filha de alguém importante?

— Cuidado com o que fala perto dela...

Fechei os olhos por um instante, concentrando-me no som dos meus próprios passos.

— Tudo bem? — perguntou Lucas, notando minha expressão.

— Tudo. Só cansaço.

Na sala, sentei-me ao fundo, perto da janela. O sol da manhã aquecia meu braço, e eu deixava que a sensação me acalmasse. Mas a calma durou pouco.

Pedro, um colega tagarela, sentou-se na carteira à minha frente. Ele era do tipo que fazia perguntas sem maldade, mas sem filtro.

— Milla, você nunca fala da sua família. Por quê?

Senti meu estômago se contrair. — Não tem muito o que falar.

— Como assim? Todo mundo tem família. Seus pais trabalham com o quê?

— Meu pai é... funcionário público — menti, lembrando das instruções da minha mãe.

— E sua mãe?

— Ela cuida da casa.

Pedro franziu a testa. — E você tem irmãos?

— Não — a palavra saiu antes que eu pudesse pensar. — Não tenho irmãos.

Lucas me lançou um olhar rápido, mas não disse nada.

— Que pena — continuou Pedro. — Eu tenho dois irmãos. É uma bagunça, mas é legal. Você não se sente sozinha?

— Não — respondi, com um sorriso forçado. — Tenho amigos.

A conversa se desviou para outros assuntos, mas eu sentia o peso da mentira. Meus irmãos estavam ali, na mesma escola. Henry, no segundo ano, com seu jeito brincalhão e suas explosões de fogo. Henrique, sério e protetor, sempre perto. Renato, atento, curando os pequenos acidentes que aconteciam pelos corredores.

Eles eram minha força, mas também meu segredo mais difícil de guardar.

No intervalo, encontrei-me com eles no pátio, num canto mais afastado. Henry estava contando uma história engraçada sobre um professor que quase pegou fogo durante um experimento de química.

— Eu juro, o gelo seco explodiu e o homem saiu correndo! — ele ria, batendo na perna.

Henrique balançou a cabeça. — Você quase causou um incidente internacional.

— Não causei nada! Foi acidente.

Renato olhou para mim com preocupação. — Milla, você está pálida. Aconteceu alguma coisa?

— Pedro fez perguntas sobre a família — murmurei. — Tive que mentir.

— É melhor assim — disse Henrique, com seriedade. — Por enquanto.

— Mas por quanto tempo? — perguntei, sentindo o fogo se agitar dentro de mim. — Até quando vou ter que esconder quem sou?

Henry colocou a mão no meu ombro. — Até você estar pronta. E até termos certeza de que é seguro.

— E quando vai ser seguro?

Eles trocaram olhares. Ninguém respondeu.

Naquela noite, deitada na cama, olhei para o teto e senti o calor e o frio dançando sob minha pele. Marcas estranhas começavam a aparecer em meus braços — finas linhas prateadas que brilhavam à luz da lua. Eu não sabia o que significavam. Meus pais diziam que era normal, que meus poderes estavam se desenvolvendo.

Mas eu sentia que algo maior estava por vir. Algo que mudaria minha vida para sempre.

No dia seguinte, Samuel voltaria ao castelo depois de oito anos longe. Eu mal me lembrava dele. Diziam que era um velho amigo da família, um guardião dos segredos reais.

E talvez, com ele, viessem as respostas que eu tanto procurava.

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