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Chapter 3

Capítulo 3: O Segredo da Promessa

Maria, escondida atrás da caçamba, testemunha a violência do confronto de Bruno com os homens de Dono. Quando o bar fica em silêncio, ela entra e encontra Bruno ferido, que finalmente revela o segredo da promessa que o prende a Dono: uma dívida de sangue envolvendo a morte de seu irmão mais novo.

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A chuva escorria pelo rosto de Maria, misturando-se às lágrimas que ela nem sabia que estavam lá. O som de vidro quebrado ainda ecoava nos ouvidos dela, seguido por um baque surdo, depois outro. Gritos abafados. Passos pesados.

Ela apertou as mãos contra os olhos, tentando se concentrar na própria respiração. O cheiro de terra molhada e lixo encharcado enchia o beco, mas por baixo disso tudo havia algo metálico, algo que lembrava sangue.

— Não vou embora — ela sussurrou para si mesma, a voz tremendo. — Não vou.

O bar ficou em silêncio.

Um minuto passou. Depois outro. A chuva diminuía, virando uma garoa fina que brilhava sob a luz amarelada do poste. Maria conteve a respiração e se levantou devagar, as pernas dormentes.

A porta dos fundos estava entreaberta.

Ela se aproximou em silêncio, os passos abafados pelo asfalto molhado. A luz do bar se derramava pela fresta, cortada por sombras que se moviam. Ela ouviu uma voz — a voz de Bruno — mas não conseguia distinguir as palavras.

Empurrou a porta com a ponta dos dedos.

O cheiro de cerveja e suor a atingiu primeiro. Depois, o silêncio.

O bar estava destruído. Cadeiras tombadas, o balcão rachado, o espelho atrás das garrafas estilhaçado em mil pedaços que brilhavam no chão como estrelas quebradas. O violão do canto jazia no chão, as cordas rompidas.

Bruno estava ajoelhado no meio da sala.

As costas nuas, a camisa rasgada em tiras. Sangue escorria de um corte no ombro, formando uma poça escura no piso de madeira. Ele respirava com dificuldade, a cabeça baixa.

— Bruno — Maria disse, a voz saindo num fio.

Ele levantou a cabeça devagar. O rosto estava inchado, um hematoma roxo se formando sob o olho esquerdo. Mas os olhos — os olhos ainda queimavam com aquela intensidade que ela já conhecia.

— Eu falei para você ir — ele disse, a voz rouca, quase um sussurro.

— Eu não fui.

Ele tentou rir, mas o movimento fez uma careta de dor cruzar seu rosto. — Você é burra, sabia?

— Já me disseram isso hoje.

Maria avançou, pisando em cacos de vidro que estalavam sob seus pés. Ela se ajoelhou na frente dele, as mãos pairando sobre o ferimento sem tocá-lo.

— Você precisa de um médico.

— Não. Médico chama atenção. Tem um kit de primeiros socorros atrás do balcão.

Ela se levantou, encontrou a caixa de metal debaixo da pia. Quando voltou, Bruno havia se sentado contra a parede, os olhos fechados. Ela abriu o kit, as mãos trêmulas.

— Deixa comigo — ele disse, estendendo a mão.

— Não. Você não vai conseguir alcançar. Fica quieto.

Ele abriu um olho, surpreso. Mas não discutiu.

Maria limpou o ferimento com álcool, sentindo-o estremecer sob o toque. O corte era profundo, mas limpo — uma faca, ela imaginou. Ela pressionou o gaze contra a pele, enrolando a atadura em volta do ombro dele.

— Você já fez isso antes — ele observou.

— Minha mãe era enfermeira. Aprendi algumas coisas.

— Por que você voltou?

Ela parou, a mão pairando sobre o curativo.

— Porque você não me deixou escolha.

Bruno a encarou, os olhos escuros procurando algo nela. Dessa vez, ela não desviou o olhar.

— Você quer saber o segredo — ele disse, a voz baixa. — Não quer?

— Quero.

Ele suspirou, o corpo relaxando contra a parede como se a história já o pesasse.

— A promessa que fiz a Dono não era sobre dinheiro. Era sobre uma vida. A vida do meu irmão.

Maria sentiu o estômago virar.

— Seu irmão?

— Caio. Mais novo, três anos. Ele se meteu com as coisas erradas. Dívida de jogo, drogas, não importa. Dono o prendeu. Me ligou. Disse que se eu fizesse um trabalho para ele, Caio saía vivo.

— E você fez.

Bruno riu, um som amargo. — Matei um homem. Primeira vez. Não foi a última.

O ar no bar ficou pesado. Maria sentiu as palavras como um soco no peito.

— E Caio?

— Morreu mesmo assim. Dono disse que foi um acidente. Que ele tentou fugir. Mas eu sei a verdade. Ele mandou matar meu irmão para ter certeza de que eu ficaria preso a ele para sempre.

Maria deixou o rolo de atadura cair no chão.

— E você ainda trabalha para ele?

— Porque eu não tenho escolha. Se eu sair, ele mata mais alguém. Minha mãe, minha irmã, você. Ele sabe onde todos moram.

O silêncio caiu entre eles. A chuva recomeçava lá fora, batendo contra as janelas quebradas.

— Por que você está me contando isso? — Maria perguntou, a voz falhando.

Bruno a olhou. O hematoma no rosto dele escurecia, mas os olhos estavam claros, intensos.

— Porque você não foi embora. Porque você voltou. E porque... — ele hesitou, as palavras presas na garganta. — Porque eu não quero que você seja a próxima pessoa que Dono usa para me controlar.

Maria sentiu uma onda de calor subir pelo peito. Medo, raiva, algo mais que ela não sabia nomear.

— O que a gente faz agora?

Ele estendeu a mão. Ela a segurou, sentindo os dedos dele se fecharem em volta dos seus.

— Agora? — ele disse, puxando-a para mais perto. — A gente descobre como quebrar a corrente.

Do lado de fora, um carro passou devagar. Os faróis iluminaram o beco por um segundo. Bruno apertou a mão dela.

— Fica comigo esta noite — ele disse, a voz rouca. — Prometo que nada vai te acontecer.

Maria olhou para ele. A poça de sangue no chão. As cadeiras quebradas. O cheiro de perigo que impregnava cada centímetro daquele lugar.

Ela sabia que devia ir embora. Sabia que Clara estaria preocupada. Sabia que tudo aquilo era loucura.

— Fico — ela respondeu.

E pela primeira vez naquela noite, Bruno sorriu. Um sorriso pequeno, triste, mas verdadeiro.

— Então vamos. Tenho um lugar seguro.

Ele se levantou com dificuldade, apoiando-se nela. O peso dele era quente, sólido. Juntos, atravessaram o bar destruído, passaram pela porta dos fundos, e sumiram na noite chuvosa de Sinop.

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