Chapter 2
Capítulo 2: O Preço da Noite
Maria testemunha a tensão no bar de Bruno quando dois homens armados o confrontam. Ela se vê presa entre o perigo e uma atração crescente, descobre que Bruno é conhecido como 'Kant' nos círculos perigosos de Sinop, e enfrenta uma escolha que pode mudar tudo.
O homem com a arma riu de novo, um som seco que ecoou no bar vazio. Maria sentiu o suor escorrer entre os dedos, ainda apertando a caneca. O marcador de páginas do livro escorregou e caiu no chão, mas ela não se moveu para pegá-lo.
Bruno — Kant — ficou imóvel por um momento que pareceu congelar o ar. Depois, ele suspirou, como se estivesse cansado de uma conversa repetida muitas vezes.
— Carlão — ele disse, a voz baixa e calma. — Guarda isso. A gente conversa lá fora.
O homem com a arma, Carlão, inclinou a cabeça. O outro, um moreno alto com uma tatuagem no pescoço, cuspiu no chão.
— Conversar? Você tem uma dívida, Kant. O patrão mandou um recado.
— O patrão — Bruno repetiu, e a palavra saiu como se tivesse gosto amargo. — Manda ele vir falar comigo pessoalmente. Não manda capangas com brinquedos.
— Brinquedo? — Carlão balançou a arma. — Isso aqui é real, seu idiota.
Maria prendeu a respiração. O velho no canto levantou-se devagar, ajeitou o chapéu e saiu pela porta dos fundos sem fazer barulho. Ela ficou sozinha com os três homens.
Bruno não olhou para trás, mas sua mão esquerda fez um gesto breve — um movimento que ela quase não viu. Parecia um "fica". Ou um "calma". Ela não sabia.
— Você trouxe uma garota — Carlão continuou, os olhos deslizando para Maria. Ela sentiu o olhar como um toque sujo. — Bonitinha. É nova?
— Não olha para ela — Bruno disse, e pela primeira vez a voz dele mudou. O tom continuou calmo, mas algo por baixo vibrou, como um motor ligado. — O problema é comigo.
— O problema é com você e o patrão — Carlão corrigiu. — E a garota... bom, ela pode ser o pagamento.
O sangue de Maria ferveu. Ela não era um objeto. Abriu a boca para dizer algo, mas Bruno falou primeiro.
— Você vai sair daqui agora — ele disse, cada palavra medida. — Vai dizer ao patrão que o dinheiro chega amanhã. E se você ou seu amigo olharem para ela de novo, eu arranco os olhos de vocês com as mãos.
O silêncio caiu. Carlão piscou. O moreno deu um passo para trás.
Bruno não tinha levantado a voz. Não tinha se movido. Apenas ficou ali, parado, como uma estátua, mas algo na postura dele mudou. Os ombros, antes relaxados, agora estavam tensos como cordas de violão prestes a arrebentar.
Carlão engoliu em seco. A arma tremia um pouco.
— Você tá blefando — ele disse, mas a voz não tinha mais a segurança de antes.
— Tenta — Bruno respondeu.
O moreno tocou o ombro de Carlão. — Vamos. A gente volta amanhã.
Carlão hesitou. Olhou para Bruno, depois para Maria, e cuspiu de novo.
— Amanhã — ele repetiu, como uma promessa. — Com juros.
Ele guardou a arma na cintura e os dois saíram, a porta batendo atrás deles. O bar ficou em silêncio, exceto pela chuva que recomeçara, fina e insistente.
Bruno ficou parado por mais alguns segundos. Depois, virou-se devagar.
Maria o encarava. As pernas tremiam, mas ela não sentia medo. Sentia algo mais forte, algo que não sabia nomear.
— Você — ele disse, apontando para ela. — Levanta.
Ela obedeceu, o coração batendo forte.
— Quem era aquele homem? — perguntou, a voz saindo mais firme do que esperava.
Bruno passou a mão no rosto. Ele parecia mais velho agora, mais cansado.
— Alguém que eu devo dinheiro.
— Por quê?
Ele riu, um som sem humor. — Porque eu vivo num mundo onde tudo tem preço. Até a noite.
— E eu? — Maria perguntou, e a pergunta veio antes que ela pudesse pensar. — Qual é o meu preço?
Ele a olhou por um longo momento. A chuva batia na janela. O violão silencioso no canto parecia esperar.
— Você não tem preço — ele disse finalmente, a voz rouca. — E isso é o problema.
O ar entre eles ficou denso. Maria sentiu o cheiro dele — suor, chuva, perigo — e algo mais, algo queimado, como madeira depois de um incêndio.
— Você precisa ir — ele disse, mas não parecia uma ordem. Parecia um pedido.
— Não — ela respondeu, e a palavra a surpreendeu. — Eu não vou a lugar nenhum até você me explicar o que está acontecendo.
Bruno a encarou, os olhos escuros procurando algo nela. Ela não desviou o olhar.
— Você é teimosa — ele disse.
— Você é perigoso — ela respondeu. — Acho que estamos quites.
Ele quase sorriu. Quase.
— Senta — ele disse, apontando para o balcão. — Vou te contar uma história. Mas depois que eu terminar, você vai embora e nunca mais volta aqui. Entendeu?
Maria sentou. O banco rangeu sob ela. Ele encheu dois copos com algo escuro e colocou um na frente dela.
— O nome do patrão é Dono — ele começou, a voz baixa. — Ele controla metade do que acontece em Sinop. Drogas, armas, gente. E eu... eu trabalho para ele há cinco anos.
— Por quê?
— Porque eu devia uma dívida. Uma dívida que não consigo pagar.
— Quanto?
Bruno tomou um gole do copo. — Não é dinheiro. É uma promessa.
Maria queria perguntar mais, mas a porta dos fundos rangeu. O velho do chapéu voltou, ajeitando o paletó molhado.
— Kant — ele disse, a voz áspera. — Tem gente lá fora. Carro preto. Três homens.
Bruno fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, havia algo diferente neles — uma decisão.
— Maria — ele disse, levantando-se. — Vem comigo.
— Para onde?
— Para fora. Pela porta dos fundos. Você vai sumir daqui e nunca mais falar comigo.
— E você?
Ele não respondeu. Só pegou o casaco e ajeitou o cinto, onde ela viu o brilho metálico de uma arma.
— Anda — ele disse, puxando-a pelo braço.
Ela sentiu a mão dele, quente e firme, e seguiu sem resistir. Atravessaram a cozinha, passaram por pilhas de caixas vazias, e chegaram a uma porta de ferro. Ele a abriu com um empurrão.
O beco estava escuro. A chuva molhava o asfalto, e o cheiro de terra molhada enchia o ar.
— Vai — ele disse, soltando o braço dela. — Corre. Não olha para trás.
Maria olhou para ele. A luz do bar iluminava metade do rosto dele, deixando a outra metade na sombra. A cicatriz brilhava.
— Eu vou ver você de novo? — ela perguntou.
Ele não respondeu. Só virou as costas e entrou de volta no bar, fechando a porta atrás de si com um baque seco.
Maria ficou parada na chuva, o coração disparado. Ela podia ir embora, como ele mandou. Podia voltar para a vida segura da livraria, dos cafés com Clara, das noites tranquilas.
Mas algo a segurava ali.
Ela ouviu um grito vindo de dentro do bar. Depois, um vidro quebrado.
Ela não correu.
Ela se escondeu atrás de uma caçamba e esperou.