AIBookCraft

Chapter 1

Capítulo 1: O Encontro no Beco

Maria, após um longo turno na livraria, decide tomar um café em um bar desconhecido, onde conhece Bruno, dono do local. A atração é imediata, mas uma ameaça interrompe o encontro.

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— Você não devia estar aqui — a voz saiu rouca, quase um sussurro, mas cortou o som da música como uma faca.

Maria ergueu os olhos do livro que segurava, o marcador de páginas ainda entre os dedos. O bar era pequeno, escondido num beco da Avenida dos Jacarandás, e ela só tinha entrado porque o Café Central tinha fechado mais cedo e a chuva fina de Sinop molhava seus cabelos. O homem atrás do balcão a encarava, e por um segundo ela esqueceu o nome da rua.

— O quê? — Ela fechou o livro devagar.

Bruno — ela só souberia o nome depois — apoiou as mãos no balcão de madeira e inclinou o corpo para a frente. A cicatriz na sobrancelha esquerda brilhava sob a luz amarelada. Ele não sorriu. Ele nunca sorria primeiro.

— Este lugar — ele disse, a voz agora mais baixa, como se compartilhasse um segredo — não é para garotas que leem livros de bolso e tomam café com leite.

Maria sentiu o calor subir pelo pescoço. Ela não era de recuar, mas ali, sob aquele olhar, as palavras sumiram. Em vez disso, ela forçou um sorriso e ergueu a xícara vazia.

— Então me serve algo que seja.

Ele sustentou o olhar por um instante que pareceu durar uma música inteira. Depois, virou-se e preparou algo que cheirava a canela e uísque. Ela observou suas mãos — firmes, com veias marcadas, movimentos precisos. Quando ele colocou a bebida na frente dela, os dedos roçaram os dela. Foi elétrico, um tremor que começou no pulso e subiu até o peito.

— Kant — ele disse, e ela percebeu que era um nome, não uma pergunta.

— Maria.

Ele assentiu, como se já soubesse. E talvez soubesse. O bar estava vazio, exceto por um velho no canto que tocava blues num violão desafinado. A chuva batia na vidraça embaçada. Maria tomou um gole da bebida — forte, doce, quente — e sentiu o mundo girar um pouco.

— Você vem sempre aqui? — Ela tentou soar casual, mas a voz saiu mais alta do que queria.

— Depende do que você quer dizer com 'aqui' — ele respondeu, limpando um copo com um pano. — Este bar é meu. O beco é meu. A noite é minha.

— E o que você faz com a noite?

Ele parou de limpar o copo. Os olhos escuros encontraram os dela, e Maria sentiu que tinha ultrapassado uma linha invisível.

— Sobrevivo — ele disse. — E você? O que uma garota como você faz numa noite de quarta-feira, lendo num bar que ninguém conhece?

Ela pensou em mentir, mas algo naquela troca pedia verdade. — Trabalhei até fechar na livraria. Precisava de um café. O Central fechou. A chuva… — Ela riu, sem graça. — Me perdi.

— Não — ele disse, e a palavra veio como um fato. — Você me encontrou.

O ar ficou pesado. O violão parou. O velho no canto acendeu um cigarro e observou a cena com olhos de quem já viu tudo. Maria sentiu o coração bater contra as costelas. Ela queria perguntar mais, queria saber quem ele era, por que a cicatriz, por que o nome estranho. Mas antes que pudesse abrir a boca, a porta do bar rangeu.

Dois homens entraram. Grandes. Com jeito de quem não veio para beber.

Bruno — Kant — não se virou. Ele apenas colocou o copo de lado e murmurou: — Fica aqui. Não sai de trás do balcão.

Maria obedeceu, mas não por medo. Por curiosidade. Ela viu os dois homens se aproximarem, viu Bruno cruzar os braços, viu a tensão nos ombros dele. O mais alto falou algo que ela não ouviu. Bruno respondeu com uma única palavra.

O homem sacou uma arma.

O velho no canto apagou o cigarro. A chuva parou. E Maria, com o coração na boca, percebeu que o perigo que ela sempre sonhara em encontrar estava bem ali, parado à sua frente.

Bruno virou a cabeça, só um pouco, e seus olhos encontraram os dela. Ele não parecia assustado. Parecia irritado. Como se a presença dela fosse o verdadeiro problema.

— Você não devia estar aqui — ele repetiu, mas agora a frase era um aviso.

O homem com a arma riu. — Kant, você trouxe uma namoradinha? Que bonitinho.

Bruno não respondeu. Ele apenas deu um passo à frente, colocando-se entre Maria e a arma. Ela viu suas costas, largas e tensas, e sentiu o cheiro do bar — madeira, chuva, perigo.

Ela não fugiu.

Ela ficou.

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