Chapter 3
Capítulo 3 — O Templo Subterrâneo
Kael acorda em uma caverna, onde a velha misteriosa o espera. Ela revela que o templo subterrâneo está próximo e que Kael precisa decidir seu destino. Uma visão mais profunda mostra seu passado como o antigo rei que aprisionou as trevas. A criatura o encontra, e Kael é forçado a entrar no templo, onde o Coração de Vharak pulsa.
A escuridão não durou para sempre. Kael acordou com uma dor surda na nuca e o gosto de terra seca na boca. O ar era frio e úmido, carregado de um cheiro mineral que lembrava pedra antiga. Ele tentou se mover, mas o corpo parecia pesado, como se cada músculo tivesse sido substituído por chumbo.
— Devagar — disse uma voz familiar, vinda de algum lugar à sua direita. — Você ainda está voltando.
Kael forçou os olhos a se abrirem. A luz era fraca, vinda de uma fogueira pequena que crepitava num canto. As chamas dançavam sobre as paredes irregulares de uma caverna. E então ele viu a velha, sentada numa pedra plana, os olhos fixos nele.
— Onde estou? — perguntou ele, a voz rouca.
— Numa caverna, a poucas horas do templo. Seris me encontrou enquanto você estava inconsciente. Ela foi buscar água.
Kael sentou-se devagar, apoiando-se nos braços trêmulos. A cicatriz no peito ainda ardia, mas agora era uma dor surda, como uma lembrança antiga.
— O que aconteceu? — perguntou ele. — A criatura...
— A criatura não era real. Não como você pensa. — A velha inclinou a cabeça, os olhos brilhando à luz do fogo. — Ela era uma parte de você, projetada para fora. Uma sombra que sua própria alma criou.
Kael franziu a testa.
— Isso não faz sentido.
— Faz mais sentido do que você imagina. Você carrega algo dentro de si, Kael. Algo que foi colocado ali há muito tempo, quando você ainda era outro homem.
Ele fechou os olhos. As imagens da visão no salão voltaram: as figuras de mantos, a estrela pulsante, o punhal em suas mãos.
— Eu vi um salão — disse ele. — Pessoas de mantos negros. Uma estrela suspensa no ar. E eu... eu segurava um punhal.
— Você viu o templo. E viu a si mesmo, mil anos atrás.
Kael abriu os olhos, fitando a velha.
— Mil anos? Isso é impossível.
— Nada é impossível quando se trata do que você é. — Ela se levantou, movendo-se com uma agilidade que contradizia sua aparência frágil. — Você foi o rei que aprisionou as trevas, Kael. O sacrifício que você fez não foi de sangue, mas de si mesmo. Você dividiu sua alma em duas partes: uma para governar o mundo dos vivos, outra para selar a entidade nas profundezas.
Kael sacudiu a cabeça, as palavras parecendo ecoar dentro dele como se já as conhecesse.
— Por que não lembro?
— Porque a memória foi apagada. Para que você pudesse viver como um homem comum. Para que a entidade não pudesse encontrá-lo através das lembranças. — A velha parou diante dele, os olhos cheios de uma compaixão antiga. — Mas as estrelas estão morrendo, Kael. E com elas, o selo que mantém a entidade aprisionada. Você precisa escolher: manter a prisão e condenar o mundo a um ciclo interminável de sofrimento, ou destruí-la e arriscar tudo.
Kael ficou em silêncio por um longo momento. A fogueira estalava, e o vento assobiava lá fora, na noite escura.
— E se eu destruir o selo? — perguntou ele finalmente.
— Então a entidade será libertada. Mas também você será livre. A parte de sua alma que está presa nas profundezas poderá retornar, e você será completo novamente.
— E o mundo?
— O mundo terá que encontrar seu próprio caminho. Ou perecer.
Antes que Kael pudesse responder, ouviu passos na entrada da caverna. Seris apareceu, carregando um odre d'água. Ela parou ao ver a velha, um lampejo de reconhecimento nos olhos.
— Você — disse Seris, a voz cautelosa.
— Eu — respondeu a velha, com um sorriso enigmático. — Há muito tempo, Seris. Você cresceu bem.
— O que está fazendo aqui?
— Guiando o último rei até seu destino.
Seris olhou para Kael, depois para a velha.
— Ele sabe?
— Sei o suficiente — respondeu Kael, levantando-se. — Sei que fui rei. Sei que prendi algo nas profundezas. E sei que preciso ir ao templo.
— Não — disse Seris, a voz firme. — Você não está pronto. A criatura quase o matou.
— A criatura era uma parte de mim. — Kael tocou o peito, onde a cicatriz ardia. — E eu preciso enfrentá-la.
A velha assentiu lentamente.
— Ele está certo. O templo o espera. E a entidade também.
Seris franziu a testa, mas não discutiu. Em vez disso, entregou o odre a Kael.
— Beba. A estrada é longa.
Kael bebeu, a água fria aliviando a garganta seca. Depois, seguiu as duas mulheres para fora da caverna.
O céu estava cinzento, coberto de nuvens baixas. A última estrela ainda brilhava, mas agora era apenas um ponto pálido, como uma cicatriz no céu. A floresta ao redor estava silenciosa, as árvores retorcidas como dedos implorando por misericórdia.
— Quanto falta? — perguntou Kael.
— Pouco — respondeu a velha. — O templo está logo além daquelas colinas.
Eles caminharam em silêncio. O chão era coberto de folhas secas, e cada passo produzia um som que ecoava na quietude. Kael sentia o peso da revelação sobre os ombros, mas também uma estranha paz. Como se, finalmente, estivesse caminhando em direção a algo que sempre soubera existir.
Ao chegarem ao topo de uma colina, avistaram o templo. Era uma estrutura imensa, esculpida na própria montanha, com colunas de pedra negra que se erguiam em direção ao céu. Entalhes antigos cobriam cada superfície, representando estrelas, figuras encapuzadas e uma batalha que parecia durar para sempre.
— É lindo — murmurou Kael.
— É terrível — corrigiu Seris. — Dentro dele, o passado e o futuro se encontram. E você terá que escolher entre os dois.
Kael respirou fundo e começou a descer a colina. As paredes do templo se aproximavam, e ele podia sentir uma vibração no ar, como se a própria pedra estivesse viva.
Ao chegarem à entrada, uma porta maciça de bronze os esperava. Nela, gravada em runas que brilhavam com luz azul, estava uma única palavra:
ARVEN.
— Seu nome — disse a velha. — O nome verdadeiro. O nome que você carregava antes de esquecer.
Kael tocou a porta com a mão. As runas brilharam mais intensamente, e a porta começou a se abrir, rangendo como se não fosse movida há milênios.
Lá dentro, a escuridão era absoluta. Mas Kael não precisava de luz para saber o que o esperava. Ele sentia. Como se uma parte de si estivesse chamando, pulsando no fundo do templo.
— Vou sozinho — disse ele.
— Kael... — começou Seris.
— Sozinho. — A voz dele era firme, mas havia medo nela. — Se eu não voltar, proteja as pessoas. Faça o que puder.
Seris hesitou, depois assentiu.
Kael virou-se e entrou no templo. As portas se fecharam atrás dele, mergulhando-o na escuridão.
Ele caminhou por corredores estreitos, as paredes cobertas de runas que brilhavam fracamente quando ele passava. O ar era frio e pesado, carregado de um silêncio que parecia ouvir cada um de seus passos.
Finalmente, chegou a uma sala imensa. No centro, suspensa no ar, pulsava uma esfera de luz prateada: o Coração de Vharak. Abaixo dela, uma plataforma de pedra, coberta de runas que formavam um círculo perfeito.
Kael aproximou-se. A cicatriz em seu peito ardia agora com uma intensidade quase insuportável. Ele olhou para suas mãos e viu que elas tremiam.
— Você veio — disse uma voz, vinda de todos os lugares ao mesmo tempo.
Kael virou-se. Atrás dele, uma figura emergiu das sombras. Era feita de escuridão, mas agora tinha forma humana. O rosto era o dele. Os olhos eram azuis, frios e vazios.
— Você — sussurrou Kael.
— Eu sou você. A parte que foi deixada para trás. — A figura sorriu, um sorriso triste e familiar. — Você me prendeu aqui, Kael. Agora, venha me libertar.
Kael olhou para o Coração de Vharak, pulsando acima da plataforma. A escolha estava diante dele. E ele sabia que, qualquer que fosse, nada seria igual depois.