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Chapter 2

Capítulo 2 — A Estrada das Sombras

Kael segue Seris pela estrada deserta enquanto a última estrela pisca no céu. A guerreira revela que o Coração de Vharak é a única esperança, mas que as criaturas das sombras já despertaram. Durante a jornada, Kael tem novas visões e descobre que a cicatriz em seu peito é uma marca deixada por uma lâmina antiga. Ao chegarem a uma aldeia abandonada, são atacados por uma criatura feita de escuridão. Seris luta enquanto Kael é forçado a enfrentar o medo que cresce dentro de si.

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A estrada que saía da aldeia era estreita e mal conservada. Pedras soltas pontuavam o caminho como dentes quebrados, e a vegetação seca se estendia para ambos os lados, formando uma muralha de galhos retorcidos. Kael seguia Seris em silêncio, os olhos fixos nas costas da guerreira enquanto ela avançava com passos seguros, a espada curva balançando ao lado do corpo.

O céu estava mais escuro agora. A última estrela pulsava lentamente, como se lutasse para não se apagar. Kael sentia o peso daquela luz moribunda sobre os ombros, uma pressão que não conseguia explicar.

— Para onde estamos indo? — perguntou ele, após quase uma hora de caminhada.

Seris não diminuiu o passo.

— Para o templo subterrâneo de Vharak. Fica a dois dias daqui, atravessando a Floresta dos Ecos.

— E o que há lá?

— O Coração de Vharak. Uma relíquia que pode impedir o fim do mundo.

Kael franziu a testa. A palavra "relíquia" ecoou em sua mente como um sino distante, despertando algo que ele não conseguia alcançar.

— E por que eu? — insistiu ele. — Por que eu preciso ir?

Seris parou. Virou-se lentamente, e Kael viu seus olhos pela primeira vez à luz do entardecer. Eram cinzentos como os dele, mas mais escuros, como nuvens de tempestade.

— Porque os mortos conhecem seu nome, Kael. E os mortos não se enganam.

Ela retomou a marcha antes que ele pudesse responder.

A estrada começou a subir, ladeando uma colina coberta por arbustos secos. Kael sentiu o cansaço nas pernas, mas não reclamou. Algo dentro dele dizia que parar era perigoso, que a noite que se aproximava não era apenas a ausência de luz.

— Você sente? — perguntou Seris, de repente.

— Sentir o quê?

— O cheiro.

Kael inspirou fundo. Havia algo no ar, sim. Um odor metálico, como sangue velho misturado com terra molhada.

— É o cheiro das criaturas — explicou Seris, sem olhar para trás. — Elas estão mais perto do que eu gostaria.

— Que criaturas?

— As que esperam nas sombras. As que foram libertadas quando as estrelas começaram a cair.

Kael lembrou-se do menino na praça. "As estrelas estão caindo. E você está acordando."

— O que são elas? — perguntou, a voz mais baixa.

— Não sei ao certo. Ninguém sabe. Apareceram há algumas semanas, atacando aldeias isoladas. Não deixam sobreviventes. — Ela fez uma pausa. — Apenas marcas. Símbolos gravados nas paredes, como se estivessem escrevendo algo.

— Escrevendo o quê?

— Seu nome, Kael. Em todas as aldeias, o mesmo nome: Kael Arven.

O chão pareceu tremer sob seus pés, mas era apenas o coração batendo descompassado. Ele parou, obrigando Seris a se virar novamente.

— Isso não faz sentido. Eu nunca estive nessas aldeias. Nem sei onde fica a maioria delas.

— Eu sei. — A voz de Seris era calma, mas havia algo nos olhos dela que Kael não conseguia decifrar. — Por isso procurei por você. Porque se as criaturas sabem seu nome, você é a chave para detê-las.

— Ou para libertá-las.

As palavras escaparam antes que ele pudesse contê-las. Seris inclinou a cabeça, examinando-o com atenção renovada.

— Por que diz isso?

Kael tocou o peito, onde a cicatriz ardia sob a camisa.

— Não sei. Apenas... senti.

Ela não respondeu. Em vez disso, apontou para a frente, onde uma clareira se abria entre as árvores.

— Vamos descansar ali. Depois seguimos.

A clareira era pequena, cercada por rochas cobertas de musgo seco. Uma fogueira já apagada ocupava o centro, com cinzas frias espalhadas ao redor. Alguém estivera ali recentemente.

Seris ajoelhou-se e examinou as cinzas com os dedos.

— Ainda estão mornas. Não faz mais que algumas horas.

— Quem?

— Não sei. Mas não foram as criaturas. Elas não usam fogo.

Kael sentou-se numa das rochas, as pernas doloridas. O cansaço pesava sobre ele como um manto de chumbo, mas a mente não parava. As imagens da visão na praça voltavam em fragmentos: a sala de pedra, as tochas azuis, a voz que repetia palavras estranhas.

— Seris — chamou ele, hesitante. — O que sabe sobre mim?

Ela continuou examinando as cinzas.

— Sei o que os mortos sussurram. Que você já esteve aqui antes, há muito tempo. Que seu nome não é apenas um nome.

— E o que mais?

— Que você carrega dentro de si algo que deveria ter sido esquecido.

Kael fechou os olhos. A cicatriz queimava, e as imagens voltaram com mais força: mãos encapuzadas estendendo-se sobre uma chama azul, uma lâmina prateada descrevendo um arco, sangue escuro escorrendo sobre pedras antigas. Ele gemeu, apertando as têmporas.

— Kael? — A voz de Seris parecia distante.

— Estou vendo coisas — murmurou ele. — Coisas que não lembro de ter vivido.

— Não lute contra elas. Deixe que venham.

Ele obedeceu. Respirou fundo e permitiu que as imagens o envolvessem. Dessa vez, elas eram mais nítidas. Ele estava num salão imenso, cercado por figuras de mantos negros. No centro, uma estrela brilhava, suspensa no ar, pulsando com luz prateada. Uma delas se aproximou, segurando uma espada.

— Você sabe o que precisa ser feito — disse a figura, a voz grave e familiar.

Kael olhou para suas próprias mãos. Eram mãos de homem, cobertas de cicatrizes. Ele segurava um punhal negro, a lâmina coberta de runas que brilhavam em azul.

— Não quero — ouviu a própria voz dizer.

— Não há escolha. O sacrifício é necessário.

A visão se desfez quando Seris tocou seu ombro.

— Kael? Está bem?

Ele abriu os olhos. O céu estava quase negro agora, e a última estrela brilhava fraca, como uma brasa prestes a se apagar.

— Vi alguma coisa — disse ele, a voz trêmula. — Um salão. Pessoas de mantos. Uma estrela...

— A estrela de Vharak — completou Seris, os olhos arregalados. — Você viu o templo.

— Vi mais que isso. Vi a mim mesmo, segurando um punhal. Alguém disse que eu precisava fazer um sacrifício.

Seris ficou em silêncio por um longo momento. Depois, levantou-se e olhou para a floresta.

— Precisamos continuar. A noite está chegando, e as criaturas caçam melhor na escuridão.

Kael levantou-se, as pernas ainda trêmulas. Algo naquela visão o assombrava, algo que ele não conseguia nomear. Mas a urgência na voz de Seris era clara: não havia tempo para perguntas.

Eles seguiram pela estrada, agora ladeada por árvores altas que formavam um túnel sobre o caminho. As folhas secas cobriam o chão, e cada passo de Kael produzia um som que ecoava no silêncio.

Foi então que ele ouviu. Um sussurro, vindo de algum lugar entre as árvores.

— Kael...

Ele parou. Seris também, a mão já na espada.

— Você ouviu? — perguntou ele.

— Ouvi.

O sussurro repetiu-se, mais próximo agora.

— Kael Arven...

E então, uma figura emergiu das sombras. Não era humana. Era feita de escuridão, uma silhueta que se movia como fumaça, com braços longos e finos que se estendiam em sua direção. Onde deveria haver olhos, havia apenas dois pontos de luz azulada, frios e vazios.

Seris sacou a espada, a lâmina azul iluminando a noite.

— Fique atrás de mim — ordenou ela.

Kael obedeceu, mas não conseguia desviar o olhar da criatura. Ela se aproximava lentamente, como se tivesse todo o tempo do mundo. O sussurro continuava, formando palavras que Kael reconhecia mas não entendia.

— Você pertence a nós, Kael Arven. Você sempre pertenceu.

A criatura avançou, e Seris gritou um comando numa língua que Kael nunca ouvira. A espada cortou o ar, descrevendo um arco prateado que atingiu a sombra. A criatura recuou, emitindo um som agudo, como metal rasgando vidro.

— Corra! — gritou Seris. — Para a floresta!

Kael hesitou por um instante, mas viu a sombra se recompor, maior do que antes. Virou-se e correu, os galhos secos arranhando seu rosto. Atrás de si, ouvia o som da batalha: o choque metálico da espada, o sibilar da criatura, a respiração ofegante de Seris.

Ele correu até não conseguir mais ouvir nada, até que os pulmões queimassem e as pernas ameaçassem ceder. Então parou, apoiado numa árvore, o coração disparado.

O silêncio era absoluto. Nem mesmo o vento soprava.

E então, uma voz, vinda de dentro dele:

— Você não pode fugir de mim, Kael. Estou em você desde o começo.

Ele olhou para baixo. A cicatriz em seu peito brilhava, pulsando com a mesma luz azulada que ele vira nos olhos da criatura.

— Não — sussurrou ele, as mãos tremendo.

A luz se apagou, e a escuridão o engoliu.

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