Chapter 1
Capítulo 1 - A procura da Estrela
Kael Arven, um jovem errante sem memória do próprio passado, chega a uma aldeia onde os mortos parecem reconhecê-lo. Ao encontrar um menino com seu próprio rosto, ele começa a ter visões de acontecimentos que não consegue explicar.
— Você não deveria estar aqui — disse a velha, os olhos turvos fixos em Kael como se pudessem vê-lo através da névoa que envolvia a aldeia.
Kael hesitou, a mão ainda erguida para pedir um pouco de pão. A feira estava vazia, embora houvesse marcas de pés na lama e barracas meio montadas. Ele tinha visto gente ali há poucos minutos. Agora, apenas a velha permanecia, sentada atrás de uma mesa coberta por panos escuros.
— Estou apenas de passagem — respondeu ele, baixando a mão devagar.
— Os mortos sabem o seu nome, Kael Arven. Eles sussurram nas sombras desde que você cruzou a fronteira de Vharak.
Ele sentiu um arrepio gelado percorrer a espinha. Ela usara seu nome completo. Ninguém naquela região poderia conhecê-lo. Ele mesmo mal sabia quem era, além do nome que carregava como uma cicatriz.
— Não conheço nenhum morto. — Deu um passo para trás.
— Eles conhecem você. — A velha sorriu, mostrando dentes amarelados. — O menino está esperando na praça central. Tem o seu rosto, mas não a sua idade. Vá vê-lo antes que a última estrela se apague.
Kael virou-se e caminhou rapidamente pela rua de paralelepípedos irregulares. As casas de pedra pareciam encolher-se umas contra as outras, como se tentassem compartilhar o pouco calor que restava. Acima, o céu era um manto cinzento onde nenhuma estrela brilhava. Diziam que antigamente havia sete delas, cada uma guardando um pedaço do mundo. Agora restava apenas uma, e mesmo ela estava fraca, mal visível durante o dia.
A praça central era maior do que ele imaginara. Uma fonte seca ocupava o meio, cercada por bancos de madeira rachada. E ali, sentado na borda da fonte, estava um menino. Não podia ter mais que oito anos, cabelos escuros e desgrenhados, olhos cinzentos como os de Kael. Vestia uma túnica simples, rasgada no ombro. Quando Kael se aproximou, o menino ergueu o rosto.
Era o mesmo rosto que ele via todas as manhãs na superfície turva de um rio. A mesma testa larga, o mesmo queixo levemente pontudo. Apenas mais jovem.
— Você demorou — disse o menino, sem surpresa na voz.
Kael parou a poucos passos de distância.
— Quem é você?
— Alguém que morreu há muito tempo.
— Isso não faz sentido.
O menino inclinou a cabeça, estudando-o com uma maturidade que não combinava com sua aparência infantil.
— Você também não faz sentido. Anda por aí sem saber quem é, carregando um nome que não lhe pertenceu desde o começo. — Ele apontou para o peito de Kael. — Lá dentro, existe algo que você nunca devia ter esquecido.
O mundo tremeu. Não foi um terremoto, mas algo mais profundo, uma vibração que parecia vir de dentro dos ossos de Kael. Imagens fragmentadas invadiram sua mente: uma sala de pedra iluminada por tochas azuis, fileiras de figuras encapuzadas, uma voz que repetia palavras numa língua que ele não entendia mas que ecoava familiar.
— O que está acontecendo comigo? — Kael apertou as têmporas.
— As estrelas estão caindo — respondeu o menino, levantando-se. — E você está acordando.
Kael piscou. O menino não estava mais ali. No lugar dele, apenas uma sombra que se desfez no ar, deixando para trás um brilho prateado que pairou por um instante antes de se apagar.
Ele olhou ao redor. A praça estava deserta. Não havia ninguém, nem mesmo a velha da feira. As barracas tinham desaparecido, e as marcas de pés na lama agora formavam um único rastro que levava até seus próprios sapatos.
Kael respirou fundo, tentando acalmar o coração acelerado. Toquou o peito, onde o menino havia apontado. Sob a camisa, sentiu uma cicatriz que não lembrava ter. Longa, reta, como se alguém tivesse aberto sua pele com uma lâmina precisa.
O céu escureceu ainda mais. A última estrela, que antes era um ponto pálido no horizonte, brilhou com intensidade súbita antes de começar a pulsar, como um coração prestes a parar.
Kael não sabia o que aquilo significava. Não sabia quem era o menino, nem por que os mortos sussurravam seu nome. Mas uma certeza crescia dentro dele, tão fria quanto as sombras que engoliam Vharak: ele não era quem pensava ser. E o mundo estava prestes a cobrar o preço por aquilo que ele havia esquecido.
No meio da praça vazia, sozinho sob um céu que perdia sua última luz, Kael ouviu passos atrás de si. Virou-se e viu uma figura alta, envolta em uma capa escura, aproximando-se com passos firmes. A figura carregava uma espada curva que brilhava com uma luz azulada.
— Kael Arven — disse a figura, com voz de mulher. — Meu nome é Seris. Preciso que venha comigo antes que a noite chegue.
— Por que eu iria?
Ela apontou para o céu. A última estrela estava quase apagada.
— Porque quando ela desaparecer, as criaturas que esperam nas sombras virão. E você é a única pessoa neste mundo que pode impedir o fim.
Kael olhou para a mão estendida de Seris. Não havia mais tempo para perguntas. O menino, a velha, as visões — tudo apontava para algo que ele precisava descobrir. E, pela primeira vez em anos, ele sentiu que talvez não estivesse tão perdido quanto imaginava.
— Leve-me — disse ele, a voz firme apesar do medo.
Seris assentiu e virou-se para a estrada que levava para fora da aldeia. Kael a seguiu, deixando para trás uma praça onde, por um breve instante, um menino de rosto conhecido observava em silêncio, antes de desaparecer nas sombras.