Chapter 2
Capítulo 2 — A Porta dos Desejos
Clara e Lucas seguem a trilha iluminada até o portão do Baile das Sombras, onde são recebidos por uma figura encapuzada que os alerta sobre o preço das lembranças. Atravessam o pátio e entram na mansão, conhecendo a Senhora das Sombras, que pergunta seus motivos. Após dançarem a primeira música, ela revela que apenas um pode entrar no salão dos desejos. Lucas cede a vez a Clara, que cruza a porta para uma escuridão com uma luz ao fundo.
A trilha iluminada se estendia à frente como um fio de prata. Clara apertava a máscara contra o peito, sentindo o frescor do luar impregnado na madeira. Cada passo ecoava entre as árvores, mas não havia nenhum outro som – nem cantos de pássaros, nem vento nas folhas. Era como se o mundo tivesse prendido a respiração.
Lucas caminhava ao seu lado, o olhar fixo no chão cintilante. De vez em quando, desviava os olhos para Clara, mas desviava logo, como se pensar no que dizer fosse mais difícil que a própria caminhada.
— Você já sabia do baile antes de receber o convite? — perguntou Clara, quebrando o silêncio.
— Meu avô me contava histórias — respondeu Lucas, a voz baixa. — Dizia que, uma vez, ele esteve perto de ir. Mas desistiu na última hora. Nunca mais foi o mesmo depois daquela noite.
— Por que desistiu?
Lucas ergueu os ombros. — Nunca quis falar sobre isso. Só repetia que o baile cobra um preço alto demais. Mas, quando eu vi o convite na minha escrivaninha, senti que precisava ir. Como se fosse uma dívida antiga.
Clara pensou na avó, no arrependimento que carregou até os últimos dias. Talvez o preço de não ir fosse maior que o de ir.
A trilha começou a se alargar. As luzes prateadas cresciam, formando um tapete que se perdia entre as árvores. De repente, o ar ficou mais denso, e um perfume doce, de flores noturnas, envolveu os dois.
— Estamos perto — murmurou Lucas.
Clara sentiu o coração acelerar. À frente, a névoa se dissipou, revelando um portão alto, feito de galhos entrelaçados que brilhavam como prata. Cada curva dos ramos parecia formar letras, mas Clara não conseguia decifrá-las. Ladeando o portão, duas figuras imóveis, cobertas por mantos escuros, seguravam lanternas que não lançavam sombra.
Uma delas se adiantou. Não tinha rosto – apenas um capuz vazio, de onde saía uma voz que parecia vir de muito longe.
— Os convidados chegaram. Tragam suas máscaras.
Clara e Lucas ergueram as máscaras ao mesmo tempo. O luar nelas brilhou mais forte, e a figura inclinou a cabeça.
— Sabem o preço?
— Sabemos — respondeu Clara, surpresa com a firmeza da própria voz. — Cada sorriso pode custar uma lembrança.
— E cada lembrança vale o que? — perguntou a figura.
Lucas deu um passo à frente. — Vale o que estamos dispostos a esquecer para encontrar o que buscamos.
A figura não respondeu. Com um gesto lento, tocou o portão. Os galhos se moveram, rangeu, e as portas se abriram para um pátio interno.
Lá dentro, o mundo parecia outro. O chão era de mármore negro, polido como um espelho, refletindo um céu cheio de estrelas que não estavam acima, mas abaixo, como se o chão fosse o verdadeiro firmamento. No centro do pátio, uma fonte esguichava água que brilhava como fogo-fátuo. E, ao fundo, uma mansão antiga, de pedra e musgo, com janelas que irradiavam uma luz quente e dourada.
— Bem-vindos ao Baile das Sombras — disse a figura, já se retirando. — A festa começa quando a lua tocar o topo da torre. Até lá, são livres para explorar. Mas lembrem-se: deixem suas máscaras guardadas até o momento do baile. Quem as usar antes pagará o preço sem ter ganhado nada.
A figura desapareceu na névoa.
Clara olhou para Lucas. — O que você acha que vamos encontrar lá dentro?
— Talvez respostas. Ou talvez só perguntas novas — disse ele, com um sorriso tímido. — Mas acho que vale a pena descobrir.
Atravessaram o pátio. Os passos ecoavam no mármore, e Clara não conseguia evitar olhar para o próprio reflexo: o vestido simples que usava, o cabelo solto, a máscara na mão. Ali, sob aquela luz, ela parecia diferente. Como se já fizesse parte daquele lugar.
A porta da mansão se abriu sozinha. Dentro, o saguão era imenso, com lustres de cristal que pendiam como gavinhas de luz. As paredes eram cobertas por retratos – pessoas de épocas diferentes, todas usando máscaras. Alguns sorriam, outros olhavam sérios. Clara sentiu que cada um deles tinha uma história, um desejo, um preço pago.
— Olhe — disse Lucas, apontando para o fim do saguão.
Lá, uma porta dupla, entalhada com desenhos de luas e sombras, estava entreaberta. Dali vinha uma música suave, de violinos e flautas, como uma canção de ninar antiga.
— O salão de baile — sussurrou Clara.
Ela se aproximou, mas, antes de empurrar a porta, ouviu uma voz atrás de si.
— Não tão depressa, querida.
Era uma mulher alta, de cabelos brancos como algodão, vestindo um longo vestido prateado. O rosto dela estava descoberto, mas os olhos tinham um brilho estranho, como se guardassem segredos.
— Eu sou a Senhora das Sombras, anfitriã desta noite. Vi que vieram juntos. Isso é raro. Muitos tentaram, mas poucos confiaram um no outro para dividir o luar.
— Conseguimos — disse Lucas, com um leve orgulho.
— Sim, conseguiram. Mas o baile ainda não começou. E, antes que comece, preciso saber: o que esperam encontrar aqui?
Clara hesitou. Podia mentir, dizer que era apenas curiosidade, mas a Senhora parecia enxergar através dela.
— Minha avó não veio — confessou Clara. — Ela passou a vida inteira se perguntando o que teria encontrado. Eu quero descobrir por ela. E por mim.
A Senhora desviou o olhar para Lucas.
— Meu avô veio — disse ele. — Mas nunca contou o que viu. Só dizia que algumas portas, uma vez abertas, não podem ser fechadas. Quero entender o que ele quis dizer.
A Senhora inclinou a cabeça. — Então ambos buscam respostas. Cuidado: o baile dá o que se pede, mas nem sempre o que se espera. Agora, guardem suas máscaras. A lua está quase no topo da torre. Quando ela tocar o pináculo, a música começará de verdade. E então, vocês dançarão.
Ela se afastou, deslizando pelo chão sem fazer barulho.
Clara e Lucas se entreolharam. O silêncio entre eles era diferente agora – não era mais estranheza, mas uma cumplicidade que nascia daquela caminhada, da confiança, do luar dividido.
— Vamos? — perguntou Lucas, estendendo a mão.
— Vamos — respondeu Clara, e colocou a máscara sobre o rosto.
A máscara se ajustou perfeitamente, como se tivesse sido feita para ela. O luar cobriu seus olhos, e de repente o mundo ficou mais nítido e, ao mesmo tempo, mais misterioso. Ela podia ver as sombras dançarem nas paredes, ouvir a música como se ela viesse de dentro do peito.
Lucas também vestiu a sua. No momento em que a máscara tocou o rosto dele, ele pareceu mudar – a postura mais ereta, o olhar mais intenso.
— Estou pronto — disse.
Empurraram a porta juntos. O salão de baile se abriu diante deles: um espaço infinito, onde o teto era o céu estrelado e o chão um lago de luz. Parceiros mascarados giravam lentamente, cada movimento criando ondas de prata no ar.
No centro, a Senhora das Sombras os aguardava.
— A lua tocou a torre — anunciou ela. — O Baile das Sombras começa agora. Dancem, e que encontrem o que vieram buscar.
A música cresceu. Clara sentiu a mão de Lucas tocar a sua.
— Posso? — perguntou ele.
Ela apenas acenou, e ele a puxou para o centro do salão.
Os primeiros passos foram hesitantes, mas logo o ritmo os envolveu. Clara não sabia dançar, mas seu corpo parecia responder à melodia sem esforço. As luzes giravam ao redor, e os outros dançarinos eram apenas sombras que passavam. Havia apenas ela, Lucas e a música.
— Está vendo aquela porta? — sussurrou Lucas, indicando com o queixo uma pequena porta de madeira no canto do salão, quase escondida por uma cortina.
— O que será?
— Não sei. Mas sinto que é para lá que devemos ir.
Clara olhou para a porta. Ela pulsava com uma luz fraca, como se chamasse.
— Depois da dança — respondeu ela.
Mas, no mesmo instante, a Senhora das Sombras apareceu ao lado deles, sem que tivessem a percebido chegar.
— Boa escolha — disse ela, com um sorriso enigmático. — Aquela porta leva ao salão dos desejos. Mas só podem abri-la quem dançou até o fim da primeira música. E só um de vocês pode entrar.
Clara e Lucas pararam de dançar.
— Só um? — repetiu Lucas.
— Sim. O outro terá que esperar aqui. Ou ir embora. A decisão é de vocês.
A música começou a diminuir, as últimas notas se arrastando como folhas ao vento. Clara sentiu o aperto no peito. Depois de tanto caminharem juntos, teriam que se separar?
Lucas a olhou nos olhos, mesmo através das máscaras.
— Vá você — disse ele. — Eu espero.
— Mas...
— Você veio pela sua avó. Eu vim por curiosidade. Sua busca é mais urgente.
Clara quis discutir, mas a música parou por completo. O silêncio tomou o salão.
A Senhora das Sombras apontou para a porta.
— A decisão está tomada. Clara, pode entrar.
Clara hesitou, olhando para Lucas. Ele apenas acenou, encorajando.
Ela se afastou lentamente. Cada passo em direção à porta parecia pesar uma tonelada. Quando colocou a mão na maçaneta, a madeira fria vibrou.
— Entre — disse a Senhora. — E lembre-se: dentro, você encontrará o que deseja, mas também o que precisa esquecer.
Clara girou a maçaneta. A porta se abriu para uma escuridão profunda, onde só uma luz, ao fundo, cintilava.
Ela respirou fundo e atravessou o limiar.