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Chapter 3

Capítulo 3 — O Salão dos Desejos

Clara adentra o Salão dos Desejos e descobre que cada desejo exige uma lembrança. Ela deve escolher entre saber o segredo de sua avó ou manter sua própria memória mais preciosa.

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A escuridão era mais densa do que Clara imaginara. Não era apenas a ausência de luz, mas uma presença, como se o ar tivesse engrossado ao redor dela. A única referência era aquela luz ao fundo, pequena e vacilante, como uma vela distante.

Ela deu um passo, depois outro. O chão sob seus pés era liso, talvez de pedra, talvez de vidro. A máscara de luar parecia pulsar levemente contra sua pele, como se estivesse viva, guiando-a.

— Não tenha medo — murmurou para si mesma. — Você já veio até aqui.

A luz cresceu aos poucos. Primeiro, um brilho prateado que dançou nas bordas de sua visão. Depois, contornos: paredes curvas, um teto alto, colunas finas como galhos de árvores no inverno.

Clara parou quando percebeu que não estava mais na escuridão.

Ela estava em uma sala redonda, revestida por espelhos do chão ao teto. Cada espelho refletia uma cena diferente: uma criança correndo em um campo, um casal dançando, um homem lendo sob uma árvore, uma mulher chorando sozinha. As imagens se moviam lentamente, como se fossem lembranças guardadas em água.

No centro da sala, uma plataforma baixa sustentava um pedestal de prata. Sobre ele, uma máscara idêntica à que Clara usava — exceto que esta tinha uma rachadura fina, como um risco de lâmina.

— O Salão dos Desejos — sussurrou Clara.

Uma voz respondeu, não vinda de lugar nenhum, mas de dentro de sua própria cabeça.

— Aqui, cada memória é um desejo. Cada desejo, uma memória.

Clara se virou, mas não havia ninguém. Os espelhos brilharam, e um deles chamou sua atenção. Nele, uma mulher jovem, de vestido azul, subia as escadas de uma casa antiga. Clara reconheceu o cenário: a casa de sua avó. A mulher era sua avó, décadas atrás, antes de envelhecer, antes de falar sobre o baile com olhos distantes.

O espelho era como uma janela para o passado.

— O que você deseja saber? — perguntou a voz.

Clara engoliu seco. — O que aconteceu com ela no baile? Ela conseguiu o que queria?

O espelho tremeluziu. A imagem da avó se dissolveu, e em seu lugar surgiu um salão de baile antigo, com pessoas mascaradas. No centro, a avó de Clara dançava com um homem alto, de terno preto. Eles pareciam felizes. Mas, de repente, a avó tirou a máscara, e o homem desapareceu. Ela ficou sozinha, segurando a máscara, com uma expressão que Clara nunca vira antes — uma mistura de alívio e tristeza.

— Você pode ver o fim dessa memória — disse a voz. — Mas para abrir esse espelho, você precisa deixar uma lembrança sua aqui.

Clara recuou. — Deixar? Como assim?

— Cada lembrança tem um peso. Você pode trocar uma pela outra. Dê uma memória sua e receberá a resposta que procura.

Ela pensou em sua infância, nos dias em que sua avó lhe ensinava a fazer máscaras de papel, nas histórias antes de dormir, no cheiro de canela da cozinha. Essas lembranças eram dela, parte do que a fazia ser quem era. Perder uma delas... seria como perder um pedaço de si.

— E se eu não quiser trocar? — perguntou.

— Então sairá daqui como entrou. Sem respostas, mas com o que já tem.

Clara olhou para o pedestal, para a máscara rachada. Ela se aproximou e tocou a superfície fria. No mesmo instante, um calor subiu por seu braço, e uma imagem invadiu sua mente: ela mesma, mais velha, em uma sala vazia, segurando uma carta amarelada. A carta tinha o selo do Baile das Sombras.

— Essa é uma lembrança futura? — perguntou, surpresa.

— Não. É uma possibilidade. Algo que pode acontecer se você escolher certo.

Clara retirou a mão. Seu coração batia rápido. Ela queria saber o segredo da avó, mas não queria pagar com suas próprias memórias. E, ainda assim, sentia que aquela máscara rachada tinha algo a oferecer.

— Posso levar essa máscara? — perguntou.

— Pode. Mas ela não lhe dará o que deseja. Ela apenas lhe mostrará o que você está disposta a perder.

Antes que Clara pudesse responder, um dos espelhos ao fundo brilhou intensamente. Nele, ela viu Lucas, ainda no salão de baile, sentado sozinho em uma cadeira. Ele havia tirado a máscara e a segurava no colo. O olhar dele era tranquilo, mas havia algo nos ombros dele — uma tensão, como se esperasse.

— Ele está esperando por você — disse a voz. — Mas o tempo do baile está passando. Quando a lua se puser, todas as portas se fecharão.

Clara sentiu o aperto no peito. Ela não podia ficar ali para sempre. Precisava decidir.

— E se eu não escolher nada? — perguntou.

— Então a porta se abrirá, e você voltará. Mas a lembrança que você procura ficará para sempre trancada neste salão.

Clara fechou os olhos. Respirou fundo. Lembrou-se do rosto de sua avó, das rugas ao redor dos olhos, do jeito que ela ria quando Clara contava uma piada boba. Sua avó nunca pediu que ela viesse ao baile. Nunca disse que precisava de respostas. Foi Clara quem quis saber, quem precisava entender o silêncio que ficou depois que a avó morreu.

— Não quero trocar — disse, finalmente. — Minhas lembranças são minhas. Mesmo que eu nunca saiba a verdade, prefiro guardá-las.

A voz não respondeu. Mas a sala começou a mudar. Os espelhos escureceram um a um, como se as imagens estivessem se apagando. O pedestal tremeu, e a máscara rachada caiu no chão, se partindo em dois pedaços.

Clara se abaixou para pegar os fragmentos. Eles estavam frios, inertes.

— O que aconteceu? — perguntou.

Mas antes que pudesse ouvir resposta, uma nova luz surgiu no teto. Diferente da primeira — mais quente, dourada. Ela desceu até o chão, formando um círculo no centro da sala.

De dentro do círculo, uma figura começou a se erguer. Era uma mulher, vestida como a Senhora das Sombras, mas mais jovem, com cabelos escuros e olhos conhecidos.

Clara prendeu a respiração.

— Vó?

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