Chapter 1
Capítulo 1
Marcon reúne seus homens para planejar a captura de Aruna, a mulher que fugiu do Pará. Naly interrompe a reunião, desafia o pai e, depois de uma discussão, se esconde no barco de Nathan. No meio do oceano, os dois caem na água e trocam o primeiro beijo.
O vento soprava forte sobre a ilha, carregando o cheiro de salitre e pólvora. Marcon ajustou o paletó preto antes de entrar na sala de reuniões, onde seus homens mais próximos já o aguardavam. A mesa de mogno refletia a luz amarelada dos candelabros, e sobre ela estavam espalhados mapas, fotografias e anotações.
— Fecharam a porta? — perguntou ele, a voz grave como o ronco de um trovão distante.
— Sim, chefe — respondeu Nathan, o braço direito, de pé ao lado da cadeira à cabeceira da mesa.
Marcon sentou-se, e os outros cinco homens fizeram o mesmo. O silêncio se instalou por um instante, cortado apenas pelo tilintar de um copo de uísque que Marcon girou entre os dedos.
— Recebi uma ligação hoje cedo — começou ele, os olhos percorrendo cada rosto presente. — Um homem do Pará, endinheirado, com um caso mal resolvido. Uma mulher fugiu dele há dois anos. Agora ele quer que a encontremos.
— E o pagamento? — perguntou um dos capangas, um sujeito de cicatriz na bochecha.
— O dobro do nosso preço habitual. Ele está desesperado. A mulher se chama Aruna, e a última pista que temos é que ela está no Rio de Janeiro, hospedada com uma tia chamada Luiza.
Nathan cruzou os braços, o maxilar tenso. Ele conhecia bem aquele tipo de missão: observar, esperar, atacar. Não era diferente de tantas outras. Mas havia algo no tom de Marcon que o fazia desconfiar.
— Por que não mandamos nossos contatos no Rio fazerem o serviço? — questionou Nathan. — Seria mais rápido.
— Porque o cliente quer discrição. Ele não confia em ninguém além de mim. E eu confio em você. Você vai liderar a equipe.
Os outros homens murmuraram concordando, mas antes que Nathan pudesse responder, a porta da sala rangeu e se abriu. Naly entrou como um furacão, os cabelos escuros soltos sobre os ombros e os olhos verdes faiscando de raiva. Ela vestia uma calça jeans justa e uma camiseta preta, com uma pistola de ouro enfiada na cintura.
— O que é isso que ouvi sobre levar homens para o Rio? — perguntou ela, ignorando os olhares de surpresa dos capangas. — Vão sequestrar uma mulher?
Marcon ergueu uma sobrancelha, a expressão endurecendo.
— Naly, saia agora. Esta é uma reunião de trabalho.
— Trabalho? — Ela deu um passo à frente, os punhos cerrados. — Isso é sequestro, pai. Você vai mandar Nathan e esses homens para tirar uma mulher da vida dela, contra a vontade dela, e entregar para um bandido qualquer.
— Não é da sua conta. E não se atreva a me chamar de pai nesse tom.
— É sim da minha conta! Eu não sou mais uma criança. Daqui a dois dias faço dezoito anos, e você não pode mais me tratar como se eu fosse uma boneca de porcelana.
Nathan interveio, a voz calma mas firme:
— Naly, seu pai sabe o que está fazendo. É o nosso trabalho.
— Trabalho? — Ela virou-se para ele, e por um instante o olhar dos dois se encontrou. Havia algo ali, uma centelha que Nathan sentiu no peito. — Isso é covardia, Nathan. Vocês vão atrás de uma mulher que só quer viver em paz.
— Chega! — Marcon bateu com a mão na mesa, fazendo os copos tilintarem. — Naly, para o seu quarto agora. Ou juro que vou trancar você lá até fazer dezoito anos.
Naly riu, um som amargo.
— Pode tentar.
Ela saiu da sala batendo a porta, e Marcon a seguiu pelos corredores da mansão, os passos ecoando no mármore. Ela entrou no quarto e tentou fechar a porta, mas ele colocou o pé no batente.
— Não se meta onde não é chamada, Naly. Eu sou seu pai e sei o que é melhor para você.
— Para mim? — Ela o encarou, os olhos brilhando. — Você nunca soube o que é melhor para mim. Só sabe me manter presa nessa ilha, longe do mundo, longe da minha mãe.
O rosto de Marcon se contraiu.
— Não fale dela.
— Por quê? Porque você a magoou? Porque tirou a filha dela e nunca deixou que eu a conhecesse?
— Cala a boca!
Ele avançou, mas Naly foi mais rápida. Fechou a porta com força e girou a chave. Marcon bateu do lado de fora, mas ela não respondeu. Ficou ali, ouvindo os passos dele se afastarem, e então soltou um suspiro trêmulo.
Olhou em volta do quarto. As paredes claras, a cama arrumada, as estantes cheias de livros. Aquele lugar era uma prisão dourada. Ela sabia que seu pai nunca a deixaria sair dali se não fizesse algo por conta própria.
E então uma ideia surgiu.
Ela abriu o armário, pegou uma mochila e começou a colocar algumas roupas, uma corda fina, uma faca e munição extra para a pistola de ouro. Quando terminou, sentou-se na cama e esperou a noite cair.
No cais, Nathan e os cinco homens carregavam o barco. Caixas de equipamentos, armas, alimentos. A lua cheia refletia nas águas calmas do oceano. Nathan olhou para a mansão no alto da colina e sentiu um aperto no coração. Naly estava lá, atrás daquelas janelas iluminadas. E ele não podia fazer nada além de obedecer a seu chefe.
— Tudo pronto, Nathan — disse um dos homens.
— Então vamos.
Eles embarcaram, e o motor roncou baixo. O barco se afastou lentamente, deixando a ilha para trás. Nathan ficou na proa, os olhos fixos no horizonte. Dentro de sua cabeça, as palavras de Naly ecoavam: "Isso é covardia."
Mas ele não podia desobedecer. Marcon era seu chefe, seu mentor. E aquela missão era só mais uma.
Duas horas depois, quando o barco já estava longe da ilha, um barulho vindo do porão o fez estranhar. Ele ordenou que os homens parassem e foi verificar. Abriu a porta do compartimento de carga e quase caiu para trás.
Naly estava lá, sentada em cima de uma caixa de munição, com a pistola de ouro na mão e um sorriso desafiador nos lábios.
— Surpresa.
— Naly! — Nathan fechou a porta atrás de si para que os outros não ouvissem. — O que você está fazendo aqui? Seu pai vai me matar. E vai matar você também!
— Ele não vai saber. Não até que seja tarde demais.
— Isso é loucura. Você não pode vir com a gente. Vamos para o Rio fazer um trabalho perigoso.
— E eu posso ajudar. Sei atirar, sei lutar. E conheço o Rio melhor que vocês.
Nathan passou a mão no rosto, frustrado.
— Não, Naly. Você vai voltar agora. Vou chamar os homens para te levar de volta.
— Se você fizer isso, eu grito. Digo que você me sequestrou.
— Ninguém vai acreditar em você.
— Meu pai vai. E você sabe o que ele faz com quem toca na filha dele.
Nathan a encarou, os olhos escuros faiscando. Ela era teimosa, imprudente e linda. E ele sabia que, no fundo, uma parte dele queria que ela ficasse.
— Você está quebrando todas as regras — disse ele, a voz rouca.
— Não quebrei nenhuma. Ainda não fiz dezoito anos. Daqui a dois dias, sou adulta. E aí ninguém manda em mim.
Ele riu, um som sem graça.
— Você é impossível.
— Já ouvi isso antes.
Ela se levantou e se aproximou dele. A pouca distância entre eles era elétrica. Nathan sentiu o perfume dela, algo doce e feminino, e seu coração disparou.
— Sai da minha frente, Nathan. Ou você vai ter que me enfrentar.
— Não quero lutar com você.
— Então me deixa ficar.
Ele hesitou. E naquele instante, os homens do lado de fora ouviram o barulho e abriram a porta. Viram Naly e apontaram as armas para ela.
— Larguem as armas! — ordenou Nathan. — Agora!
— Ela é uma intrusa, Nathan — disse um deles.
— Eu disse para largarem! Eu resolvo isso.
Os homens obedecem, mas ficaram alertas. Nathan se virou para Naly.
— Você quer ficar? Então vai ter que provar que merece. Luta comigo. Se ganhar, fica. Se perder, volta.
— Combinado.
Ela colocou a pistola de lado e assumiu uma posição de luta. Nathan fez o mesmo. Os dois se enfrentaram no meio do barco, sob o olhar dos capangas.
Ela atacou primeiro, um golpe rápido que ele desviou. Ele respondeu com um movimento para agarrá-la, mas ela escapou. Lutaram por vários minutos, os corpos se movendo em sincronia. Até que, em um momento de descuido, Nathan a segurou pela cintura e os dois perderam o equilíbrio.
Cairam juntos por cima da amurada e mergulharam no oceano escuro. A água fria os envolveu. Nathan a puxou para cima, e quando emergiram, ofegantes, ele a segurou contra seu peito.
— Você é louca — disse ele, a respiração curta.
— E você é um idiota.
Ela estava tão perto que ele podia sentir o coração dela batendo. A lua iluminava o rosto molhado dela, e antes que pudesse pensar, ele a beijou. Os lábios dela eram macios e salgados, e ela respondeu ao beijo com uma urgência que o surpreendeu. As mãos dele apertaram sua cintura, e por um momento, o mundo desapareceu.
— Nathan! — gritou um dos homens do barco, que já havia feito a manobra para voltar. — Vamos, peguem a corda!
Eles se separaram, o olhar preso um no outro. Nathan sorriu, um sorriso trêmulo.
— Vamos, princesa. Seu barco está esperando.
Ela riu, e juntos, nadaram até a corda que os homens jogaram. Quando subiram a bordo, os capangas os olhavam com uma mistura de surpresa e diversão.
— Então? — perguntou Naly, secando o rosto. — Vou ficar ou vou voltar?
Nathan olhou para ela, as roupas encharcadas colando no corpo, os olhos brilhando de desafio. Ele sabia que estava cometendo uma loucura. Mas não conseguia dizer não.
— Você fica. Mas não sai do meu lado. E se fizer alguma besteira, eu mesmo te levo de volta.
— Combinado.
Ela estendeu a mão, e ele apertou. O toque foi curto, mas elétrico. O barco seguiu viagem, levando-os para o Rio de Janeiro, para o desconhecido, e para um destino que nenhum dos dois poderia prever.