Chapter 1
O contrato
Valentina assina um contrato de casamento de 12 meses com Victor para salvar a empresa do pai da falência.
O peso da decisão caía sobre Valentina como uma chapa de chumbo, sufocando cada respiração, cada batida do seu coração. A sala de reuniões, antes um lugar de triunfos e ambições, agora ecoava com os presságios funestos da ruína. Os números desfilavam na tela, implacáveis, contando a história de uma queda vertiginosa, de uma empresa familiar construída com décadas de suor e sacrifícios, agora à beira do abismo. Seu pai, o rosto marcado pela preocupação, estava perto da janela, com o olhar perdido no horizonte, como se buscasse uma saída onde já não existia mais.
"Nós tentamos de tudo, Valen", murmurou ele com a voz rouca, quebrada. "Os bancos não querem mais nos ouvir. Os credores estão impacientes. Só resta uma solução..."
Os olhos dele se voltaram para Victor, sentado na cabeceira da mesa, sua confiança habitual tingida por uma fria determinação. Victor, o empresário temido, que construiu um império sobre as ruínas de tantos outros. Aquele que lhe ofereceu uma saída, uma boia de salvação. Um casamento. Um contrato.
Valentina sentiu uma onda de náusea. A própria ideia lhe causava repulsa. Ela sempre sonhou com um amor verdadeiro, com uma união selada por sentimentos, não por cláusulas e prazos. Mas o desespero nos olhos do pai, a perspectiva de vê-lo perder tudo, de ver anos de trabalho virarem pó, a forçou a considerar o impensável.
"Victor, o senhor tem certeza... do que está propondo?" perguntou ela, com a voz tremendo um pouco.
Victor esboçou um sorriso que não alcançou os olhos. "Com toda certeza, Valentina. Doze meses. Um casamento de fachada. Em troca, eu quito todas as dívidas do seu pai e garanto a ele uma aposentadoria tranquila. Em contrapartida, você me concede seu nome, sua presença ao meu lado nos eventos sociais, e... discrição total sobre minha vida pessoal."
Discrição. A palavra ressoou na mente de Valentina como uma sentença. Ela sabia, sem ele precisar dizer, que Victor tinha seus próprios arranjos. Ele era conhecido pela ambição devoradora, pela necessidade de controle absoluto. Casar com ele era abrir mão de uma parte de si mesma, da sua liberdade, dos seus desejos mais profundos.
"E se... se eu não concordar?" ousou ela, com o coração disparado.
O pai se virou para ela, o desespero iluminava o olhar. "Valentina, minha filha..."
Victor soltou um suspiro fingido. "Então, infelizmente, seu pai terá que enfrentar as consequências. A falência vai trazer processos, penhoras... Não será nada agradável para ele, nem para você."
A chantagem era sutil, mas terrivelmente eficaz. Valentina sentiu a pressão aumentar, as paredes se fecharam ao redor. Pensou na infância, nos verões passados na empresa da família, nas risadas do pai quando contava os planos. Pensou na mãe, que partiu cedo demais, deixando um vazio imenso que o pai tentou preencher como pôde. Ela não podia ser a responsável por acabar com tudo isso.
Fechou os olhos e respirou fundo. Quando abriu de novo, uma nova determinação tinha substituído o medo. Ela não ia se deixar abater. Ia aceitar. Pelo pai. Para salvar o que ainda podia ser salvo. Mas não cederia por completo. Iria encontrar um jeito de atravessar essa prova sem perder a alma.
"Eu aceito", disse ela, com a voz firme, ecoando no silêncio tenso da sala. "Eu me caso com você, Victor. Por doze meses."
Um leve sorriso esticou os lábios de Victor. Ele se levantou e se aproximou, estendendo a mão. "Excelente decisão, Valentina. Você não vai se arrepender."
Quando ela colocou a mão na dele, uma sensação estranha a percorreu. A mão de Victor estava fria, quase gelada, mas o olhar era intenso, quase... possessivo. Ela se forçou a sorrir, a representar o papel de noiva agradecida. Mas lá no fundo, uma vozinha dava um alerta.
As semanas seguintes foram um turbilhão. Os preparativos do casamento aconteceram numa atmosfera estranhamente fria. Nada de alegria transbordando, nada de lágrimas de felicidade. Só eficiência calculista. Valentina se deixava levar pelos acontecimentos, tentando não pensar no que estava sacrificando. As visitas à estilista, as provas de vestido, as discussões sobre o cardápio do jantar de noivado... tudo parecia irreal, como se estivesse assistindo à própria vida de fora.
Victor era de uma cortesia impecável, quase demais. A cobria de presentes, organizava jantares luxuosos, apresentava aos contatos como sua futura esposa. Mas as conversas eram superficiais, focadas apenas nos aspectos práticos do acordo. Ele não tentava conhecê-la, nem atravessar a carapaça que ela ergueu. E ela também não tentava entede-lo Só cumpria o papel, sorria, balançava a cabeça.
Numa noite, sozinha no apartamento, mergulhada nas pastas da empresa, uma foto antiga chamou atenção. Era ela, mais jovem, sorrindo, ao lado de Estevão. Os rostos irradiavam felicidade inocente. Estevão. A lembrança a atingiu como um soco. O verão dos 17 anos, as caminhadas na praia, as promessas trocadas sob o céu estrelado. Ele foi seu primeiro amor, seu primeiro tudo. Depois foi embora, sem dizer uma palavra, deixando o coração dela em pedaços.
Ela tentou esquecer, tentou recomeçar. Mas uma parte dela ficou congelada naquele verão, esperando um retorno impossível. E agora, com esse casamento arranjado, com essa vida que não escolheu, o passado voltava a assombrá-la com uma intensidade nova.
Dias antes da cerimônia, andando pelas ruas da cidade para se distrair, ela o viu. De pé na vitrine de uma galeria de arte, o mesmo olhar intenso, a mesma silhueta familiar. Estevão.
O coração dela parou por um segundo. Era ele. Depois de tantos anos. Tinha mudado, claro. Mais segurança, uma maturidade nos traços, mas os olhos... os olhos eram os mesmos, capazes de derreter o gelo mais grosso.
Hesitou. Deveria se aproximar? O que diria? As palavras sumiram. Se sentia como uma adolescente desajeitada, o rosto corado de emoção.
Então, como se tivesse sentido a presença, ele se virou. O olhar dele encontrou o dela, e um brilho de surpresa, depois de reconhecimento, cruzou os olhos dele. Um sorriso lento e lindo iluminou o rosto.
"Valentina?" A voz estava mais grave, mas ainda tão calorosa.
Ela se aproximou, o coração batendo forte. "Estevão... É você mesmo?"
Ele balançou a cabeça, sem desviar os olhos. "Sou eu. O que você está fazendo aqui?"
Ela contou, em poucas palavras, sobre a situação do pai, o casamento próximo. Ele ouviu com atenção, o olhar demonstrando apenas preocupação profunda.
"Eu... voltei pra cidade", disse por fim. "Soube das suas dificuldades. Sinto muito."
Tinha algo no jeito dele falar, no olhar, que a deixava profundamente perturbada. Como se a presença dele fosse uma bênção inesperada, um raio de sol furando as nuvens escuras da vida dela.
"Obrigada, Estevão", murmurou, com a garganta apertada. "É gentil da sua parte."
Ficaram um momento em silêncio, o peso dos anos e dos não-ditos flutuando entre eles. Valentina sentia que o passado alcançava, as lembranças voltando com uma doçura inesperada.
"Eu preciso ir", disse por fim, se sentindo dominada pela emoção. "O Victor me espera."
O nome de Victor fez Estevão franzir levemente a testa, quase imperceptível. "Victor... O magnata?"
Ela assentiu. "Sim. É... complicado."
"Imagino", disse ele, o tom ficando mais distante. "Valentina, se você precisar de qualquer coisa..."
Ela olhou pra ele, o coração cheio de um sentimento que não sabia nomear. "Obrigada, Estevão. De verdade."
Ela se afastou, sentindo o olhar dele nas costas até sumir na esquina. Com o coração acelerado, sabia que o retorno dele não era coincidência. E que aquele casamento de conveniência, que deveria ser só uma transação, tinha acabado de ganhar outra dimensão. A presença de Estevão reacendeu nela uma chama que achava apagada, uma chama que ameaçava consumir as bases frágeis do contrato. O jogo tinha começado, e Valentina sentia que já não era a única a ditar as regras. O contrato, tão claro e frio semanas atrás, começava a se borrar, manchado pela doce nostalgia de um amor perdido, e pela promessa incerta de um futuro apaixonado. A questão já não era só salvar a empresa do pai, mas saber se ela estava pronta para sacrificar a própria felicidade por um dever que só pertencia a ela pela metade. ---