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Chapter 2

Capítulo 2 — O Selo na Pele

Bern e Silas fogem da biblioteca, mas o medalhão deixa uma marca no braço de Bern. Eles encontram um diário escondido nos arquivos do porão que revela que o medalhão é a Chave do Véu, um objeto que conecta mundos. O diretor aparece e exige o medalhão, mas Silas hesita, e Bern percebe que não pode confiar em ninguém.

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Bern arrancou a mão do bolso do casaco quando o medalhão queimou sua palma. A luz azul já havia sumido da biblioteca, mas a sensação de calor persistia, como se o metal tivesse grudado em sua pele. Ele abriu os dedos devagar e viu a marca: um círculo com três linhas onduladas, idêntico ao símbolo gravado no medalhão, agora impresso em vermelho vivo em sua carne.

— O que é isso? — Silas segurou seu pulso, os olhos arregalados. — Isso não é normal, Bern.

— Você já disse isso hoje.

Bern fechou a mão, escondendo a marca. A biblioteca estava silenciosa agora, a chama azul extinta, a carta reduzida a cinzas sobre a mesa. Mas o ar ainda vibrava, como se algo tivesse sido despertado e agora respirasse nas sombras.

— Precisamos sair daqui — disse Silas, puxando-o pelo braço. — Agora.

Eles correram pelos corredores escuros do Instituto. As luzes de emergência mal iluminavam o caminho, lançando sombras distorcidas nas paredes. Bern sentia o medalhão pulsar contra seu peito, onde o guardara dentro da camisa. Cada batida era um lembrete do aviso: Não confie em ninguém, nem em quem o trouxe até aqui.

Silas parou de repente, bufando.

— Espera. Para onde estamos indo?

— Para fora. Para o dormitório. Para qualquer lugar longe daquela biblioteca.

— E depois? — Silas inclinou a cabeça, o terno agora desalinhado, o cabelo bagunçado. — O que você vai fazer com aquilo?

Bern não respondeu. Ele não sabia. A carta dizia para guardar o medalhão, mas não explicava o porquê. E a mensagem final — A escuridão permanece — ecoava em sua mente como um presságio.

— Vamos para o meu quarto — disse Bern finalmente. — Lá podemos pensar.

O dormitório ficava no terceiro andar, uma ala antiga que cheirava a mofo e cera de vela. Bern abriu a porta com cuidado, mas o quarto estava vazio, exatamente como ele havia deixado: livros espalhados pela escrivaninha, a cama desfeita, a janela entreaberta deixando entrar o ar frio da noite.

Silas sentou-se na cadeira, as pernas balançando nervosas.

— Mostra o medalhão de novo.

Bern tirou o objeto do bolso. A prata agora parecia mais escura, como se tivesse absorvido a luz azul. O símbolo na superfície brilhava fracamente.

— Isso é um selo — disse Silas, aproximando-se. — Já vi algo assim antes, nos livros de história do Instituto. É um símbolo de vedação. Ou de ligação.

— Ligação com o quê?

— Com o que quer que esteja do outro lado.

Bern franziu a testa.

— Você está falando como se soubesse de algo.

Silas ergueu as mãos, defensivo.

— Só li alguns livros, Bern. Não sou especialista. Mas aquele símbolo… Ele aparece em textos antigos sobre os portais do Instituto.

— Portais?

— Dizem que o Instituto Arcane foi construído sobre um véu, uma barreira entre o mundo dos vivos e algo mais. Os fundadores usavam medalhões como chaves. — Silas apontou para o objeto na mão de Bern. — Esse pode ser uma delas.

Bern sentiu o peso das palavras. O medalhão queimou sua pele, a carta apareceu em sua mesa, a voz no porão… Tudo isso apontava para algo maior, algo que ele não entendia.

— E o que você quer fazer? — perguntou Silas.

— Quero descobrir quem é A.M. E quero saber por que isso foi deixado para mim.

— E se a resposta estiver no porão?

Bern hesitou. A ideia de voltar para aquele lugar o gelava, mas Silas tinha razão. O baú estava lá, e talvez houvesse mais pistas.

— Vamos amanhã, de dia — disse Bern. — Com luz de verdade.

Silas concordou, mas não pareceu convencido. Ele se levantou, ajustou o paletó e caminhou até a porta.

— Durma bem, Bern. Amanhã vamos precisar de cabeça fria.

— Você também.

Quando a porta se fechou, Bern ficou sozinho. Ele olhou para o medalhão mais uma vez. A marca em sua mão ainda ardia. Ele sentou na cama, mas o sono não vinha. A cada minuto, a sensação de que algo o observava crescia.

Ele se levantou e foi até a janela. A noite estava clara, a lua cheia iluminando o pátio do Instituto. Mas algo chamou sua atenção: uma figura parada embaixo de uma árvore, imóvel, olhando para cima. Para seu quarto.

Bern prendeu a respiração. A figura não se mexia. Ele piscou, e quando abriu os olhos, não havia ninguém.

— Só minha cabeça — murmurou.

Mas ele sabia que não era.

Ele fechou a janela e trancou. O medalhão agora estava frio, mas a marca em sua mão pulsava no ritmo de seu coração. Ele deitou, mas o sono só veio quando a primeira luz do amanhecer começou a surgir.

No dia seguinte, Bern acordou com o barulho de batidas na porta. Era Silas, já vestido, com uma mochila nas costas.

— Pronto? — perguntou.

— Pronto.

Eles desceram para o porão. A luz do dia tornava o lugar menos ameaçador, mas o ar continuava pesado. A mesa de madeira ainda estava lá, o baú aberto, o veludo azul desbotado.

Silas revirou as caixas próximas, procurando algo.

— O que você está fazendo?

— Procurando mais documentos. Se o baú estava aqui, talvez haja mais.

Bern ajudou. Eles encontraram pastas empoeiradas, papéis amarelados, mapas antigos. Nada que parecesse relevante. Até que Silas puxou uma caixa no canto, coberta por uma lona.

— Aqui.

Dentro, um diário de capa de couro, com o mesmo símbolo do medalhão gravado na lombada.

Bern abriu. A caligrafia era familiar: a mesma da carta.

"Diário de A.M. — 15 de março de 1923. Hoje o selo foi quebrado. A escuridão começou a se mover. Se alguém ler isto, saiba: o medalhão é a chave, mas também é a corrente. Use com cuidado."

Bern virou as páginas. Mais entradas, todas curtas, todas enigmáticas. A última, datada de 1925, dizia:

"Eles estão vindo. Fechei o véu, mas o selo enfraquece a cada ano. Se o medalhão despertar, a escuridão permanecerá. Não há como impedir."

— Isso foi escrito há quase cem anos — murmurou Silas.

— E a escuridão permanece — completou Bern, repetindo as palavras da chama.

Ele fechou o diário. O medalhão em seu peito pulsou mais forte, como se respondesse.

— Precisamos mostrar isso ao diretor — disse Silas.

— A carta disse para não confiar em ninguém.

— Bern, o diretor pode nos ajudar. Ele sabe o que fazer.

Bern hesitou. A confiança era um luxo que ele não podia mais se dar. Mas Silas estava ali, ao seu lado, e a verdade parecia estar cada vez mais distante.

— Vamos — disse ele, finalmente.

Eles subiram as escadas, mas ao chegar ao corredor leste, uma figura os esperava. O diretor Montenegro, alto, grisalho, com olhos que pareciam enxergar através de tudo.

— Eu sabia que você viria, Bern — disse ele, a voz calma, mas firme. — O medalhão. Dê-me agora.

Bern apertou o objeto contra o peito. O aviso ecoou em sua mente: Não confie em ninguém.

— Por que o senhor quer?

— Porque ele não é seu. Pertence ao Instituto. E você não faz ideia do que despertou.

Silas olhou para Bern, indeciso. A mão do diretor estava estendida, esperando. O medalhão pulsava, quente, vivo.

Bern respirou fundo.

— Não.

O diretor franziu a testa.

— Não?

— Não até eu saber a verdade.

O silêncio se instalou. O diretor não moveu a mão. Seus olhos escureceram.

— Então você terá que descobrir sozinho. Mas saiba: o que está por vir não pode ser desfeito.

Ele virou as costas e se afastou, deixando Bern e Silas parados no corredor, o medalhão queimando na mão de Bern, a marca pulsando em sua pele, e a escuridão, mais uma vez, permanecendo.

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