Chapter 1
Capítulo 1
Bern encontra uma carta misteriosa em sua mesa na biblioteca, convocando-o para o porão do Instituto Arcane. Ao investigar com Silas, descobrem um símbolo estranho e uma porta trancada que emite um brilho azul.
— Você não devia ter mexido nisso, Bern — disse a voz atrás dele, calma demais para ser um simples aviso.
Bern congelou com os dedos ainda pairando sobre o envelope amarelado. A carta estava sobre sua mesa na biblioteca do Instituto Arcane, um lugar onde ninguém jamais deixava nada para ninguém. Ele se virou devagar e encontrou Silas apoiado na estante de livros, braços cruzados, o terno elegante destoando do pó que cobria tudo ali.
— Eu não mexi — Bern respondeu, afastando a mão como se o papel pudesse queimar. — Apareceu assim. Juro.
Silas avançou com passos medidos, os olhos fixos no envelope. Seu sorriso habitual, aquele que sempre anunciava uma piada, não apareceu. Ele pegou a carta com dois dedos, virou-a contra a luz fraca da lâmpada de mesa.
— Selo do diretor — murmurou. — Mas o lacre está rompido. Alguém já leu.
— Não fui eu.
— Eu sei. Você é desastrado, não ladrão.
Silas entregou a carta a Bern, que a abriu com cuidado. O papel era áspero, como se tivesse sido molhado e seco várias vezes. A caligrafia era firme, quase impessoal:
"Bern. O porão do Instituto guarda algo que você precisa ver. Venha sozinho ao entardecer. Não conte a ninguém. — A.M."
— A.M.? — Bern franziu a testa. — Quem é A.M.?
Silas inclinou a cabeça, os olhos brilhando com interesse mal disfarçado.
— Alguém que não quer ser identificado. Ou alguém que quer que você pense que não quer ser identificado. Diferença sutil, mas importante.
— Isso é idiota. Pode ser uma armadilha.
— Com certeza é uma armadilha — concordou Silas, agora com o sorriso de volta. — Por isso vou com você.
Bern hesitou. A carta dizia para ir sozinho, mas a presença de Silas era reconfortante, mesmo que ele nunca admitisse. O relógio na parede marcava quinze para as seis. O entardecer estava próximo.
— E se for perigoso?
— Então teremos uma história boa para contar. Ou não teremos, se morrermos. Mas aí não importa, né?
Bern revirou os olhos, mas não argumentou. Guardou a carta no bolso do casaco e seguiu Silas pelos corredores silenciosos do Instituto. As luzes estavam apagadas, os alunos já haviam ido para seus dormitórios. O cheiro de papel velho e cera de vela preenchia o ar.
A porta do porão ficava no fim do corredor leste, atrás de uma cortina vermelha puída. Bern nunca havia descido ali. Diziam que era usado para armazenar arquivos mortos, mas ninguém confirmava.
Silas empurrou a porta. Ela rangeu, revelando uma escada estreita que descia na escuridão.
— Depois de você — disse Silas, com uma reverência exagerada.
— Gentileza sua.
Bern acendeu a lanterna do celular e começou a descer. Os degraus de madeira gemiam sob seu peso. O ar ficava mais frio a cada passo. No final da escada, uma sala ampla se abriu, cheia de caixas empilhadas até o teto. Poças d'água no chão refletiam a luz fraca.
— Tem alguém aí? — Bern chamou. Silêncio.
Silas desceu atrás dele, os olhos percorrendo o ambiente.
— A carta dizia para você vir ver algo. O que exatamente?
— Não sei. Só dizia "algo que você precisa ver".
Eles caminharam entre as pilhas de caixas. Algumas estavam etiquetadas com datas antigas, outras com símbolos que Bern não reconhecia. No centro da sala, uma mesa de madeira sustentava um único objeto: um pequeno baú de metal, fechado com um cadeado enferrujado.
— Achado — disse Silas, estendendo a mão.
— Espera. E se estiver armadilhado?
— Só um jeito de saber.
Silas girou o cadeado. Ele cedeu com um estalo seco. Bern prendeu a respiração enquanto Silas levantava a tampa. Dentro, forrado com veludo azul desbotado, havia um medalhão de prata e um pedaço de papel dobrado.
Bern pegou o papel. A mesma caligrafia:
"Você chegou. Agora entenda: o que está por vir não pode ser desfeito. Guarde o medalhão. E não confie em ninguém, nem em quem o trouxe até aqui."
Ele ergueu os olhos para Silas, que lia por cima de seu ombro. O sorriso de Silas vacilou.
— Isso é estranho — disse Silas, a voz perdendo a leveza habitual.
— Você não escreveu isso?
— Por que eu escreveria? — Silas pareceu ofendido. — Eu vim porque você estava preocupado.
Bern segurou o medalhão. Era frio, mais frio do que deveria. Gravado na superfície, um símbolo que ele nunca tinha visto: um círculo com três linhas onduladas no centro.
— Precisamos levar isso ao diretor — disse Bern.
— Amanhã. Agora está escuro, e essa história já me deu arrepios suficientes.
Eles subiram de volta, mas quando Bern alcançou o topo da escada, algo mudou. A cortina vermelha estava rasgada. E no chão, bem na frente da porta, havia uma pegada molhada, como se alguém tivesse passado por ali instantes antes.
— Não estávamos sozinhos — murmurou Silas.
Bern olhou para o medalhão em sua mão. A carta dizia para não confiar em ninguém. Mas Silas estava ali, a seu lado, e a pegada não era de Silas — ele usava sapatos elegantes, não botas de sola grossa.
— Vamos embora — disse Bern, apertando o medalhão. — Rápido.
Eles correram pelo corredor escuro, mas ao virar a esquina, Bern sentiu algo errado. A porta da biblioteca, que ele tinha certeza de ter fechado, estava escancarada. Luz azulada pulsava de dentro.
Silas parou.
— Isso não é normal.
— Nada hoje é normal.
Bern avançou, o medalhão aquecendo contra sua palma. Quando entrou na biblioteca, viu a fonte da luz: sua mesa. Sobre ela, a carta que ele havia deixado estava queimando com uma chama azul, sem fumaça, sem consumir o papel.
Ele se aproximou, hipnotizado. A chama dançava, formando letras no ar: "A escuridão permanece".
Depois, apagou.
E no silêncio que ficou, Bern ouviu passos atrás de si. Muitos passos. E uma voz que ele não reconheceu:
— Você despertou o que deveria ter ficado adormecido, Bern.
Ele se virou. Não havia ninguém.
Mas o medalhão agora queimava sua mão, e a luz azul ainda pulsava sob sua pele.