Chapter 1
Capítulo 1
Clara retorna à sua terra natal após anos e, ao descer do autocarro na praça vazia, reencontra Miguel por acaso. O silêncio entre eles é carregado de passado, e um convite inesperado a coloca diante de uma escolha.
— Bom dia senhorita, precisa de ajuda com a mala?
A voz rouca veio de trás, e Tatiana apertou a alça da bolsa antes de se virar. O motor do autocarro ainda roncava na praça vazia, misturando-se ao cheiro de chuva recém-caída sobre o asfalto molhado. Ela desceu os degraus com cuidado, o coração batendo descompassado enquanto os pés tocavam o chão familiar que agora parecia estranho.
— Não, obrigada — respondeu sem olhar, mas a presença atrás dela não se afastou.
Clara atravessou a praça em direção à Rua das Acácias, onde a antiga casa de Dona Isaura ainda existia, segundo a carta que recebera na semana passada. O céu cinzento ameaçava outra chuva, e o frio da tarde penetrava-lhe os ossos. Ela puxou o casaco mais apertado contra o corpo, os passos ecoando no silêncio da cidade pequena.
Virou a esquina e parou.
Miguel estava ali, parado em frente à mercearia do Seu Antunes, com uma caixa de laranjas nos braços. Ele a viu no mesmo instante, os olhos arregalados, o corpo imóvel como se o tempo tivesse congelado. A caixa escorregou-lhe das mãos, as laranjas rolando pelo chão em todas as direções.
— Clara? — a voz saiu num fio, incerta.
Ela não respondeu. As palavras sumiram, engolidas por uma década de silêncio. Ali estava ele, o mesmo Miguel dos verões infinitos, das cartas nunca enviadas, do adeus sem despedida. A barba por fazer, os cabelos mais grisalhos nas têmporas, os olhos ainda verdes como o mar da infância.
— O que... o que faz aqui? — ele perguntou, agachando-se para recolher as laranjas. O movimento era mecânico, os dedos tremendo ligeiramente.
— Vim visitar Dona Isaura — Clara conseguiu dizer, a voz mais firme do que se sentia. — Ela está doente.
Miguel ergueu o rosto, as laranjas amontoadas na caixa novamente. — A mãe? Sabes que ela... que ela é minha tia-avó, não sabes?
Clara sentiu o chão faltar-lhe. Dona Isaura era parente de Miguel? Como pudera esquecer? Durante anos, a senhora fora apenas a vizinha bondosa que a acolhia nos dias de chuva, a mão que lhe dava bolachas de canela. Nunca associara os sobrenomes.
— Não sabia — murmurou, as faces queimando. — A carta... vinha apenas com o nome dela.
Miguel levantou-se, segurando a caixa contra o peito. O vento fresco agitou-lhe o cabelo, e Clara notou o jeito que ele tinha de franzir a testa quando pensava, igual a antes.
— Ela está no hospital — disse ele, a voz mais suave agora. — Tive de vir buscar algumas coisas para ela. Vais até lá?
— Sim, claro. Disseram-me que ela está no quarto 12.
— Fica a dois quarteirões. Posso... posso ir contigo, se quiseres.
O convite pairou no ar, carregado de tudo o que não fora dito. Clara podia recusar, virar as costas, pegar o próximo autocarro de volta. Mas os pés não se moveram.
— Está bem — ouviu-se dizer.
Caminharam lado a lado, a distância de um braço entre eles. As ruas estavam quase desertas; apenas um senhor de chapéu os cumprimentou de longe. O silêncio pesava, mas não era hostil. Era o silêncio de quem tem demasiado para dizer e não sabe por onde começar.
— Como tens passado? — Miguel perguntou finalmente, os olhos fixos à frente. — Ouvi dizer que moravas no Porto.
— Sim, há oito anos. Trabalho numa livraria, perto da Ribeira.
— Livraria? — ele sorriu, um sorriso pequeno que quase passou despercebido. — Sempre disseste que querias trabalhar rodeada de livros.
Clara engoliu em seco. Ele lembrava-se. Lembrava-se daquela noite no terraço, quando ela contara os sonhos que pareciam impossíveis. Antes de tudo ruir.
— E tu? — perguntou, para desviar o assunto. — Continuas na ourivesaria do teu pai?
— Sim. Tomei conta dela depois que ele faleceu, há três anos.
— Lamento — ela disse, e era sincero. O Sr. Artur sempre fora gentil com ela, mesmo quando as coisas terminaram mal.
Miguel assentiu, sem responder. Chegaram ao hospital, um edifício baixo de fachada amarela. Ele segurou a porta para ela passar, e o gesto simples fez Clara recuar no tempo, para quando ele fazia o mesmo no cinema da cidade.
— O quarto 12 é no primeiro andar — indicou ele, seguindo-a.
Dona Isaura estava acordada, sentada na cama com uma camisola de lã azul. Quando viu Clara, os olhos envelhecidos brilharam.
— Menina Clara! — exclamou, estendendo as mãos trémulas. — Achava que não vinhas mais.
Clara aproximou-se, apertando as mãos enrugadas. — Claro que vim, Dona Isaura. Recebi a sua carta e...
— E encontraste o Miguel, não foi? — a senhora sorriu, um sorriso cúmplice. — Eu sabia que iam encontrar-se. O destino tem destas coisas.
Clara sentiu o rosto arder. Olhou para Miguel, que estava encostado à porta, os braços cruzados, um sorriso meio envergonhado nos lábios.
— A senhora planeou isto? — perguntou Clara, sem conseguir esconder a surpresa.
Dona Isaura deu uma gargalhada leve, que logo se transformou em tosse. — Planeiei? Não, minha filha. Apenas pedi que o Miguel fosse buscar as minhas coisas. Não sabia que ias chegar hoje. Mas olha, já que estão os dois aqui...
— Mãe — Miguel interrompeu, a voz firme mas afetuosa. — Não forces.
— Forçar? Eu só quero que vocês conversem. O passado já passou, e vocês são novos demais para viver de mágoas.
O silêncio caiu novamente. Clara olhou para as mãos de Dona Isaura, para as veias azuis sob a pele fina, e sentiu o peso daquelas palavras.
— Tenho de ir — disse Miguel, endireitando-se. — Deixei a ourivesaria fechada. Clara, se precisares de alguma coisa... — ele tirou um cartão do bolso e estendeu-lho. — O meu número está aqui.
Ela pegou no cartão, os dedos roçando os dele por um segundo. O toque foi breve, mas suficiente para acender uma faísca que ela julgava extinta.
— Obrigada — murmurou.
Miguel saiu, e a porta fechou-se com um clique suave. Clara ficou ali, o cartão apertado na mão, o coração a bater descompassado.
— Vais ligar-lhe, não vais? — Dona Isaura perguntou, os olhos brilhando de expectativa.
Clara olhou para o cartão, para o nome gravado em letras douradas: Ourivesaria Miguel & Filhos. Depois guardou-o no bolso do casaco, sentindo o peso dele como uma promessa.
— Talvez — respondeu, mas já sabia que a resposta era sim.