Chapter 2
Capítulo 2: Ecos no Corredor
Arthur passa o dia ansioso após Lucas ler sua fanfic, sem saber se será motivo de piada ou se há algo mais por trás da curiosidade dele. Bruno observa a aproximação entre Lucas e Arthur com desconfiança e provocações veladas. Sofia incentiva Arthur a não fugir, e Lucas tenta se aproximar, sugerindo uma parceria inesperada para um projeto de redação. O capítulo termina com Arthur dividido entre medo e esperança, após Lucas propor que se encontrem depois da aula para conversar sobre escrita.
Arthur nunca sentiu o tempo passar tão devagar quanto naquela tarde. O toque final da última aula de matemática parecia estar a décadas de distância, cada minuto se alongando como uma eternidade. Ele estava inquieto, com o caderno fortemente pressionado contra o peito, como se aquele objeto pudesse protegê-lo de olhares e perguntas. No fundo, temia cada risada, cada cochicho — uma dúvida martelando em sua cabeça: será que Lucas contaria para todo mundo sobre a fanfic? Será que agora seria motivo de piada eterna?
Sofia, como sempre, parecia sentir o clima. Na saída da biblioteca, ela tropeçou ao lado de Arthur, pegando o braço dele antes que ele fugisse para um esconderijo mais seguro.
— Ei, não vai sumir! — disse ela, baixinho. — Ninguém está olhando torto pra você. E, convenhamos, se Lucas quisesse te zoar, já teria feito um escândalo.
Arthur forçou um sorriso, que não chegou aos olhos. — Ou ele está só esperando a plateia certa...
Ela revirou os olhos, mas seu tom ganhou um toque de doçura. — Arthur, olha pra mim. Você não percebeu que ele ficou curioso de verdade? Sabe quantas pessoas ele elogia de verdade? Nem eu consigo contar nos dedos de uma mão... — Sofia apertou de leve o ombro dele. — Relaxa. Confia um pouco em você. E se ele quiser falar mais sobre isso?
Arthur só conseguiu balançar a cabeça. O medo de tudo dar errado era maior do que qualquer esperança.
Quando a campainha para o recreio tocou, Arthur decidiu sair da sala antes de todos, driblando o fluxo de alunos e indo direto para a área mais sossegada do pátio lateral, atrás do ginásio. Ali, os sons da escola pareciam distantes. Ele tirou o caderno da mochila e ficou folheando, relendo trechos da fanfic, sentindo quente o lugar que as mãos de Lucas haviam tocado.
De repente, uma sombra bloqueou o sol matinal. Arthur ergueu os olhos e levou um susto ao ver Bruno Almeida parado à sua frente.
Bruno cruzava os braços, o olhar sério. Sua postura atlética ocupava espaço demais naquele cantinho do colégio. — Tá escondido por quê, Arthur?
Arthur engoliu seco. — Só... pensando.
Bruno sorriu de lado, com um toque de deboche. — Pensando ou escrevendo sobre o Lucas? — Ele olhou diretamente para o caderno nas mãos de Arthur, e o nerd sentiu o coração apertar.
— Não é nada demais — tentou desconversar, mas o tom de Bruno ficou mais incisivo.
— Engraçado, porque o Lucas saiu da biblioteca comentando sobre o texto misterioso que leu. Você tá achando que ele ficou bravo?
Arthur encolheu os ombros. — Não sei. E não é da sua conta.
Bruno deu de ombros, mas havia algo duro em seu olhar, como se tentasse ler algo nas entrelinhas. — Só toma cuidado, tá? Às vezes, a gente acha que conhece as pessoas, mas não conhece. — Ele se afastou e, antes de sair, lançou: — E nem todo talento precisa ser exposto. Às vezes, é melhor guardar segredo mesmo.
Arthur ficou olhando enquanto Bruno se afastava, palavras ecoando em sua mente. Não sou tão invisível assim, pensou. Mas será que queria ser visto daquele jeito?
O sinal de fim do recreio o puxou de volta para a rotina. Na aula seguinte, Arthur sentou-se no lugar de sempre. Mal percebeu o tempo passar, até sentir alguém cutucando seu ombro por trás.
— Ei — falou uma voz familiar. Arthur virou e deu de cara com Lucas.
O sorriso de Lucas era menos aberto do que o de costume, como se ele hesitasse entre a provocação e a sinceridade. — Senta com a gente hoje na hora do trabalho de redação?
Antes que Arthur respondesse, Bruno já estava olhando a cena de longe, recostado na carteira com o queixo apoiado nas mãos, olhos semicerrados.
Arthur hesitou, mas Lucas não parecia disposto a aceitar um não. — Anda, Mendes. Quero ouvir mais sobre esse tal de cavaleiro.
O coração de Arthur quase saltou do peito. Sentou-se ao lado de Lucas, enquanto Sofia se aproximava sorrindo, claramente satisfeita com o desenrolar das coisas.
Durante a atividade, a professora dividiu a turma em duplas para criar um texto colaborativo sobre coragem. Lucas se adiantou:
— Eu e o Arthur formamos uma dupla, dona Clara.
A professora assentiu, surpresa e satisfeita.
Bruno franziu a testa, mas não disse nada.
Arthur olhou para Lucas, as mãos frias de nervoso. — Você tem certeza?
— Tenho. Quero ver se você é tão bom escrevendo junto quanto sozinho — Lucas respondeu, com um sorriso que misturava desafio e brincadeira.
Já sentados em uma mesa afastada, Lucas quis saber:
— Sério, de onde você tira essas ideias? Escrever sobre um cavaleiro que protege o príncipe sem ser visto... é tipo... — Lucas procurou as palavras —... meio triste, mas também bonito.
Arthur corou, sem jeito. — São só histórias. Eu... gosto de imaginar o que ninguém vê. E às vezes, ser invisível é mais fácil do que ser corajoso de verdade.
Lucas olhou para ele, o olhar mais suave. — Às vezes, ser invisível cansa, né?
Arthur assentiu, surpreso pela compreensão.
— Eu também escondo umas coisas — Lucas confidenciou, baixando um pouco a voz. — Só pareço seguro. Mas tem dia que tudo que eu queria era sumir.
Arthur encarou Lucas, sem saber o que responder. Pela primeira vez, viu algo além do garoto popular: uma vulnerabilidade tão familiar...
Sofia apareceu, interrompendo o clima de confissão:
— Já se apaixonaram escrevendo juntos ou posso sentar com vocês? — Ela sorriu abertamente, divertida.
Lucas deu risada, desviando o olhar, enquanto Arthur ficou vermelho da cabeça aos pés.
— Senta aí, Sofia — Lucas disse, fazendo sinal para ela se juntar a eles. — Quem sabe você inspira o Arthur.
— Ele não precisa de inspiração, só de coragem — Sofia cutucou Arthur com o joelho por baixo da mesa.
A conversa desviou para as ideias do texto, misturando risos e provocações. Depois da aula, ao guardar suas coisas, Arthur sentiu a mão de Lucas em seu ombro.
— Ei, posso falar com você depois? — Lucas perguntou, voz baixa, quase tímida. — Sobre... escrita. E sobre o texto. Pode ser na lanchonete, depois das aulas?
Arthur congelou.
Lucas percebeu e sorriu, encostando-se à porta. — Não precisa ficar nervoso, Mendes. Só quero conversar. Juro que não vou te jogar no grupo de memes da galera.
Arthur finalmente concordou com a cabeça, incapaz de esconder o sorriso nervoso.
Quando Lucas se afastou, Bruno apareceu, encostando-se à parede.
— Cuidado, Arthur. O Lucas não é tão simples quanto parece. Ele pode machucar gente como você sem nem perceber.
Arthur ficou em silêncio, mas sentiu a advertência de Bruno pesar.
Mais tarde, encontra Sofia antes de ir para o encontro. Ela passa batom vermelho em frente ao espelho do banheiro, jogando os cabelos ruivos para trás.
— Você vai? — ela pergunta, olhando para ele pelo reflexo.
Arthur sente que está numa encruzilhada. — E se der tudo errado?
— E se der tudo certo? — ela rebate, piscando. — Às vezes, a coragem não está em declarar amor, mas em dar um passo na direção do que você quer.
Arthur ri, nervoso. — Você bem que podia ir comigo.
— Eu? Não vou ser vela nesse romance. Quero detalhes depois.
Com o coração acelerado, Arthur caminha até a lanchonete próxima ao colégio. O céu começa a escurecer, nuvens de chuva ameaçando, mas o ar está cheio de promessas.
Lucas já está lá, sentado em uma mesa perto da janela, mexendo inquieto no celular. Quando vê Arthur se aproximando, sorri — um sorriso mais sincero, menos teatral do que o que exibe diante dos amigos.
— Achei que não vinha — Lucas comenta, batendo de leve no banco ao lado.
Arthur se senta, o silêncio inicial carregado de expectativa. Lucas desliza um papel na direção dele. É a folha da redação, com anotações de ambos.
— Sabe — Lucas começa, encarando a chuva que começa a bater nos vidros —, eu sempre achei que escrever fosse coisa de gente muito inteligente. Ou muito solitária.
— É um pouco dos dois — Arthur responde, sorrindo de leve.
Lucas ri, relaxando. — Você acha que um texto pode mudar quem a gente é?
Arthur pensa, olhando para o próprio reflexo na janela molhada. — Acho que um texto pode mostrar quem a gente sempre foi, mesmo quando ninguém vê.
O silêncio se instala. Lucas parece lutar consigo mesmo, os olhos vasculhando o rosto de Arthur.
Por um instante, tudo some: o barulho da chuva, o medo, o receio. Só restam os dois, sentados lado a lado, compartilhando um segredo silencioso.
— Eu queria tentar escrever mais com você — Lucas diz, baixinho. — Não só para a escola. Pra... descobrir o que acontece quando não estou fingindo ser só o cara popular.
Arthur sente o peito se encher de esperança e terror ao mesmo tempo.
— Tá. Eu... gostaria disso — responde, sem conseguir esconder o brilho nos olhos.
Lucas sorri, olhando-o de verdade dessa vez. — Então amanhã, depois da aula, aqui de novo?
Arthur apenas concorda, mal acreditando no rumo que as coisas tomaram.
Na saída, já sob a chuva fina, Arthur corre até o ponto de ônibus, o caderno protegido sob a camiseta. Atrás dele, Lucas permanece na porta da lanchonete, olhando enquanto Arthur se afasta, como se guardasse um segredo recém-descoberto.
Enquanto espera o ônibus, Arthur percebe algo novo: assim como nas histórias que escreve, talvez o cavaleiro mereça ser visto pelo príncipe no final. Será que dessa vez, a coragem o guiará?
A resposta, ele saberia no próximo encontro.