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Chapter 1

Capítulo 1

Sofia Almeida chega à casa herdada, uma construção antiga e isolada, e sente imediatamente uma atmosfera opressiva. Enquanto explora o ambiente, ouve sussurros nas paredes e encontra uma nota enigmática deixada pela antiga moradora. Um barulho vindo do andar de cima a convida a investigar, selando sua decisão de enfrentar os segredos do local.

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A chave rangeu na fechadura como se o metal protestasse contra a invasão. Sofia Almeida girou o punho com firmeza, sentindo o mecanismo ceder com um clique seco. A porta da casa na colina se abriu para um corredor escuro, onde a luz do fim da tarde mal alcançava o chão de madeira. Ela respirou fundo, o cheiro de mofo e verniz antigo enchendo seus pulmões. A herança da tia-avó, uma figura que jamais conhecera, começava ali.

O advogado havia sido claro: ela precisava morar na casa por um ano inteiro. Sem vendas, sem aluguéis, sem exceções. Sofia aceitara por impulso, talvez para fugir da rotina sufocante do escritório de arquitetura na cidade. Agora, parada na soleira, sentiu o peso da decisão. A casa era maior do que imaginava, com janelas altas e uma fachada de pedra que o tempo tornara cinzenta. O jardim estava tomado por ervas daninhas, e uma videira grossa subia pela parede lateral, como se tentasse agarrar a construção.

Ela deu um passo adiante. O assoalho gemeu sob seus pés, e um frio estranho subiu por suas pernas, apesar do calor abafado do lado de fora. Sofia franziu o cenho, ajustando a alça da bolsa no ombro. Era apenas uma casa velha, disse a si mesma. Nada que uma boa reforma não resolvesse. Mas algo na atmosfera a fazia hesitar, como se o ar fosse mais denso ali dentro.

O saguão de entrada era amplo, com um lustre empoeirado pendendo do teto alto. As paredes eram revestidas de papel de parede desbotado, com desenhos florais que mal se distinguiam. À direita, uma escada de madeira maciça levava ao andar superior. À esquerda, uma porta entreaberta deixava entrever uma sala de estar. Sofia caminhou lentamente, seus olhos treinados de arquiteta registrando cada detalhe: a espessura incomum de uma parede, o ângulo estranho de um batente, a maneira como a luz se comportava nos cantos. Havia algo errado na geometria da casa, algo que não se encaixava.

Ela parou diante de um retrato pendurado na parede do corredor. Uma mulher de olhar melancólico, com mãos manchadas de tinta, segurava um pincel contra o peito. A moldura era de madeira escura, com entalhes que pareciam folhas e vinhas. Sofia leu a placa na base: "Eliza Montenegro, 1982". A antiga moradora, a artista reclusa de quem todos na cidade falavam em sussurros. Diziam que ela havia morrido em circunstâncias estranhas, que a casa guardava seus segredos. Sofia sempre achara que eram lendas de interior, mas agora, sob o olhar do retrato, sentiu um calafrio.

Ela se forçou a continuar. A cozinha ficava no fundo do corredor, com azulejos amarelados e uma pia de ferro. Sobre a mesa de madeira, uma folha de papel dobrada chamou sua atenção. Sofia a pegou, desdobrando com cuidado. A caligrafia era elegante, com tinta preta que parecia fresca: "Escute o que as sombras contam, pois nelas reside a memória do que foi."

O papel tremeu em suas mãos. Quem havia deixado aquilo? A casa estava vazia há décadas, segundo o advogado. Ela olhou ao redor, mas a cozinha estava imóvel, apenas o som de seu coração batendo forte. Um sussurro, fino como o vento, passou por seus ouvidos. Era uma voz, ou várias, falando ao mesmo tempo, palavras que ela não conseguia entender. Sofia virou a cabeça bruscamente, mas não havia ninguém. As paredes pareciam vibrar, como se estivessem vivas.

— Isso não é possível — murmurou, apertando o papel contra o peito.

Um baque veio do andar de cima, como uma porta se fechando com violência. Sofia deu um passo para trás, o coração disparado. A casa estava vazia. Ela mesma havia verificado as fechaduras. Mas o som era real, ecoando pelos corredores. Algo se movia lá em cima.

Ela hesitou por um instante, a razão lutando contra o instinto. A arquiteta dentro dela queria encontrar uma explicação lógica: uma corrente de ar, uma dobradiça solta. Mas a sensação de estar sendo observada era forte demais. Sofia respirou fundo, guardou o papel no bolso e começou a subir a escada, os degraus rangendo sob seus pés a cada passo. A luz do entardecer entrava pelas janelas sujas, criando sombras longas e distorcidas nas paredes.

No topo da escada, o corredor se estendia em ambas as direções, com portas fechadas de ambos os lados. O ar estava mais frio ali, e um cheiro de terra úmida impregnava o ambiente. Sofia parou, ouvindo. Nada. Apenas o silêncio pesado da casa. Mas então, o sussurro voltou, mais perto agora, como se viesse de dentro das paredes. Ela pressionou a mão contra o papel de parede, sentindo a textura áspera.

— O que você quer? — perguntou em voz alta, surpresa com sua própria coragem.

Não houve resposta. Apenas o eco de sua voz e, depois, o som de algo se arrastando no chão, vindo da última porta à esquerda. Sofia engoliu em seco. A nota no bolso parecia queimar contra sua pele. Ela precisava saber. Precisava entender o que a casa guardava.

Com passos lentos, ela se aproximou da porta, a mão estendida para a maçaneta. O metal estava gelado, como se tivesse sido exposto ao inverno. Ela girou, e a porta cedeu sem resistência, revelando um quarto escuro. A luz do corredor mal alcançava o interior, mas Sofia pôde ver uma cama, uma escrivaninha e, na parede oposta, um grande espelho emoldurado. O vidro refletia seu próprio rosto pálido, mas por um instante, ela jurou ver uma segunda figura atrás de si, uma silhueta feminina que se dissipou quando ela piscou.

Seu coração disparou. Ela se virou, mas o corredor estava vazio. O sussurro cresceu, transformando-se em palavras claras, quase um grito abafado: "Sofia..."

O nome ecoou pelas paredes, e a jovem arquiteta sentiu o chão tremer sob seus pés. Ela agarrou o batente da porta para se equilibrar, o papel ainda seguro na outra mão. A casa estava acordando, e Sofia sabia, com uma certeza aterrorizante, que não havia mais volta.

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