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Chapter 2

Capítulo 2 — O Sobrevivente

Morgan encontra Matheus vivo e, após o choque inicial, os dois se unem para enfrentar a ameaça que emergiu do Hiato, decidindo formar um grupo para combater o paranormal.

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Morgan congelou. A silhueta de Matheus se destacava contra a luz amarelada que vinha do prédio, imóvel, os olhos fixos nele. O coração de Morgan batia tão forte que parecia querer saltar do peito. Ele vira Matheus ser arrastado pelos tentáculos, ouvira seu grito cortado. Como era possível que estivesse ali?

— Matheus? — a voz de Morgan saiu mais como um sopro do que como uma pergunta.

Matheus deu um passo à frente, e a lua cheia iluminou seu rosto pálido. Havia um corte fino em sua testa, de onde escorria um fio de sangue que se perdia na sobrancelha. Sua camisa estava rasgada no ombro, mas ele parecia inteiro, ereto, respirando.

— Você está vivo — disse Matheus. Não era uma pergunta. Era uma constatação, como se estivesse verificando um fato.

— Eu... eu vi você ser pego — Morgan engoliu em seco, a garganta seca. — Vi o tentáculo te arrastar.

— Ele me arrastou, sim — Matheus tocou o ombro machucado e fez uma careta. — Mas não me engoliu. Consegui me agarrar a uma viga no teto e me esconder atrás dos destroços. Quando os tentáculos recuaram, eu saí.

Morgan piscou, tentando processar a informação. Recuaram? Ele olhou para a porta aberta do prédio. O silêncio continuava absoluto. Nenhum som, nenhum movimento.

— Recuaram? — repetiu. — Para onde?

— Para dentro — Matheus apontou com o queixo para a escuridão além da porta. — A massa de carne se recolheu para o centro da sala, como se estivesse... se alimentando. Depois, ficou imóvel. Eu esperei, esperei, e quando vi que não se mexia mais, vim atrás de você.

Morgan sentiu um arrepio percorrer sua espinha. A massa ainda estava lá. Não tinha desaparecido. Apenas... parado.

— Precisamos ir embora — disse Morgan, dando um passo para trás. — Precisamos avisar alguém, chamar as autoridades, alguma coisa.

— Chamar quem? — a voz de Matheus era calma, quase fria. — Quem vai acreditar em nós? Você viu o que aconteceu. O que aquilo fez com as pessoas. Se contarmos para alguém, vão nos prender, nos internar, nos tratar como loucos.

Morgan sabia que ele tinha razão. A facção sempre operara nas sombras, escondida, justamente por causa do estigma que cercava o paranormal. Nenhuma delegacia, nenhum jornal, nenhum hospital aceitaria aquela história.

— Então o que a gente faz? — a voz de Morgan tremeu. Ele se sentia pequeno, perdido, como uma criança abandonada no escuro.

Matheus se aproximou. Seus olhos, escuros e intensos, fixaram-se nos de Morgan.

— A gente se lembra do motivo pelo qual começamos tudo isso — disse ele. — A gente queria entender o paranormal. Queria provar que ele existia. Agora a gente tem a prova. E a prova está ali, dentro daquele prédio, esperando.

— Esperando? — Morgan sacudiu a cabeça. — Aquilo matou todo mundo, Matheus! Devorou o Arthur, a Helena, o Miguel... devorou todos! Não é uma prova. É um monstro.

— É os dois — Matheus respondeu. — E se a gente não fizer nada, se a gente simplesmente fugir, aquilo pode se espalhar. Pode sair do prédio, pode encontrar outras pessoas, pode... — ele fez uma pausa, os olhos se desviando para a porta. — Pode encontrar um jeito de atravessar de vez.

Morgan engoliu em seco. Atravessar. O Hiato estava enfraquecido, mas não rompido. E se a massa de carne fosse apenas o começo? E se houvesse mais, do outro lado, esperando para entrar?

— O que você está sugerindo? — perguntou, a voz baixa.

— A gente cria um grupo — disse Matheus, os olhos brilhando com uma determinação que Morgan nunca vira antes. — Não uma facção como a nossa, que queria abrir o Hiato. Um grupo que vai protegê-lo. Que vai estudar o que aconteceu, entender o que aquela coisa é, e encontrar uma forma de impedir que algo pior aconteça.

Morgan ficou em silêncio por um longo momento. Seu corpo ainda tremia, sua mente ainda gritava para ele correr, se esconder, esquecer. Mas as palavras de Matheus ecoavam dentro dele, fazendo sentido de uma forma assustadora.

— Sozinhos, a gente não vai conseguir — murmurou.

— Então a gente encontra outras pessoas — Matheus respondeu. — Pessoas que acreditem, que tenham passado por algo parecido, que estejam dispostas a lutar. A gente começa pequeno, mas a gente começa hoje.

Morgan olhou para o prédio mais uma vez. A porta escancarada parecia a boca de uma criatura adormecida. Ele não queria voltar lá. Mas também não queria viver com o medo de que aquilo um dia pudesse alcançá-lo.

— Está bem — disse, finalmente. — Estou dentro.

Matheus estendeu a mão. Morgan olhou para ela, hesitou por um segundo, e então a apertou. A aperto foi firme, seco, como um pacto selado naquela noite fria.

— A gente precisa de um nome — disse Morgan, tentando forçar um sorriso. — Todo grupo tem um nome.

Matheus pensou por um instante, os olhos ainda fixos no prédio.

— Sentinela — disse. — A gente vai ser a Sentinela. O grupo que vigia o Hiato.

Morgan assentiu. Sentinela. Soava bem. Soava como esperança.

Foi então que um som vindo do prédio os fez se virar. Não era um grito, nem um arrastar de tentáculos. Era um som baixo, constante, como uma respiração profunda vinda das entranhas da terra.

Morgan e Matheus trocaram um olhar. O som continuou, ininterrupto, como se algo lá dentro estivesse acordando.

— Acho que a gente não tem muito tempo — disse Matheus, a voz tensa.

— Então a gente começa agora — respondeu Morgan, sentindo o medo se transformar em algo mais sólido, mais firme. — Onde a gente vai?

Matheus apontou para a estrada de terra que levava para longe do prédio.

— Para a cidade. A gente precisa de recursos, de um lugar seguro, de informação. E a gente precisa de pessoas.

Os dois começaram a andar, lado a lado, a lua cheia iluminando o caminho. A respiração vinda do prédio os acompanhou pelos primeiros metros, até que finalmente se perdeu no vento noturno. Morgan não olhou para trás. Não queria ver se algo os seguia.

Mas, no fundo, ele sabia que aquilo não tinha acabado. O Hiato estava aberto. E o que quer que estivesse do outro lado, agora sabia que eles existiam.

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