Chapter 1
Capítulo 1
Os quatro irmãos gêmeos, Kiara, Kira, Kauã e Kaique, vivem felizes com seus pais até que uma bruxa vingativa os amaldiçoa, concedendo-lhes poderes perigosos. Durante a maldição, seus pais morrem tentando protegê-los. Os irmãos ficam sozinhos, lidando com seus novos poderes e com a promessa de descobrir a verdade sobre a bruxa.
A manhã de primavera na vila de Pedra Alta amanhecera dourada e mansa. No jardim da casa azul, quatro crianças brincavam entre as flores, suas risadas ecoando como sinos de cristal. Eram os quadrigêmeos: Kauã, o mais velho por três minutos, de olhos verdes e cabelo castanho despenteado; Kiara, a mais observadora, com os mesmos olhos verdes e uma serenidade que contrastava com sua idade; Kaique, o impulsivo, sempre com um sorriso largo e uma energia inesgotável; e Kira, a caçula, de olhos azuis como o céu e uma doçura que derretia corações. Seus pais, Helena e Ricardo, os observavam da varanda, tomando café e trocando olhares de puro amor.
— Mãe, pai, olhem! — gritou Kauã, correndo atrás de uma borboleta amarela. — Ela vai pousar na minha mão!
Helena riu, passando a mão nos cabelos de Kira, que se aconchegou em seu colo. — Cuidado, meu pequeno aventureiro. As borboletas são livres, como vocês.
Ricardo, com seu jeito calmo, acrescentou: — Mas vocês são a nossa maior aventura. Nada nos faria trocar isso por nada.
A paz daquela manhã, no entanto, era frágil. Na noite anterior, uma velha mulher de capa escura havia sido vista na periferia da vila, murmurando palavras estranhas. Os habitantes de Pedra Alta, supersticiosos, trancaram suas portas. Mas Helena e Ricardo, de coração aberto, acolheram a desconhecida quando ela bateu à sua porta, pedindo abrigo.
— Entre, senhora, a noite é fria — disse a Helena, sem hesitar.
A velha, que se apresentou como Morgana, sorriu de forma torta. Seus olhos brilhavam com uma luz amarelada. Naquela noite, enquanto os quadrigêmeos dormiam, Morgana se levantou e começou a desenhar círculos no chão da sala, murmurando encantamentos. Ricardo a surpreendeu.
— O que está fazendo? — perguntou, alarmado.
— Vocês me receberam com bondade — sussurrou a bruxa, com uma voz que rangia como pedras. — Mas a bondade não é recompensada neste mundo. Darei a vocês um presente que será uma maldição para sempre.
Antes que Ricardo pudesse gritar, Morgana ergueu as mãos e uma luz negra envolveu a casa. Os quadrigêmeos acordaram com o barulho, seus gritos se misturando ao vento que uivava. Quando tentaram correr para os pais, uma barreira invisível os prendeu em seus quartos. Através das frestas, viram os pais tentando proteger a família, mas a magia era forte demais. Helena e Ricardo foram envolvidos por chamas verdes e, em um último olhar de amor para os filhos, desapareceram, deixando apenas cinzas.
A bruxa então se virou para os quatro irmãos, que agora estavam livres da barreira, aterrorizados e chorando.
— Cada um de vocês receberá um poder — disse ela, com uma risada que gelou o ar. — Mas esses poderes serão suas correntes. Vocês nunca terão paz.
Kauã sentiu uma força imensa percorrer seus músculos, mas também uma dor profunda, como se seu corpo estivesse sendo esticado. Ele arrebentou a porta do quarto com um soco, sem querer, e caiu de joelhos. — O que você fez conosco? — gritou.
Kiara, de repente, viu imagens em sua mente: um futuro sombrio, onde seus irmãos se perdiam, onde ela estava sozinha. Tapou os olhos, mas as visões não paravam. — Estou vendo coisas... coisas terríveis! — chorou.
Kaique, ao tentar se levantar, sentiu que podia ouvir os pensamentos dos insetos e das plantas ao redor. Eles falavam de dor, de destruição. O zumbido era ensurdecedor. — Parem! — gritou, agitando os braços.
Kira, a mais nova, tocou o chão e viu pequenas flores brotarem, mas ao mesmo tempo sentiu a tristeza da terra. Ela começou a chorar, e suas lágrimas se transformaram em pequenas pérolas que brilhavam fracamente.
— Perfeito — sibilou Morgana. — Agora, sofrerão para sempre, lembrando-se do que perderam por causa da bondade de seus pais.
Ela desapareceu em uma nuvem de fumaça preta, deixando os quadrigêmeos sozinhos na casa destruída. As chamas verdes haviam consumido a sala, mas o restante da casa estava intacto, como se a magia tivesse poupado o que não importava. Os irmãos se abraçaram, tremendo. O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer trovão.
Kauã, com a força ainda latejando em seus braços, foi o primeiro a falar: — Nós temos que encontrar aquela bruxa. Ela matou nossos pais. Temos que desfazer isso.
— Mas como? — perguntou Kiara, limpando as lágrimas. — Eu vejo o futuro... vejo que vamos sofrer ainda mais se tentarmos.
— Então vamos sofrer juntos — disse Kaique, com a voz firme. — Não vamos deixar que ela vença.
Kira, ainda agarrada ao irmão mais velho, murmurou: — Eu posso sentir as plantas... elas me disseram que há uma maneira. Mas é um caminho perigoso.
Os quatro se entreolharam. Naqueles olhos, misturavam-se medo, raiva e uma chama de determinação. A casa estava em silêncio, mas o vento trazia um som distante: o riso da bruxa, como um eco zombeteiro.
Kauã olhou para os irmãos e disse: — Primeiro, precisamos enterrar nossos pais. Depois, vamos descobrir tudo sobre essa maldição. Não estamos sozinhos. Nós nos temos.
Eles passaram o resto do dia em luto, cavando um pequeno túmulo no jardim, onde as flores agora muchavam. Ao lado da sepultura, Kira plantou uma muda de jasmim, que cresceu instantaneamente, suas flores brancas exalando um perfume doce. Era um lembrete de que, mesmo na dor, a vida continuava.
Ao entardecer, enquanto o sol se punha atrás das montanhas, os quatro irmãos estavam sentados na varanda, exaustos. Foi então que Kaique que ainda ouvia os sussurros do jardim, levantou a cabeça. — Eu ouço algo... alguém está vindo.
Todos se ergueram, prontos para enfrentar o que viesse. Mas em vez da bruxa, um homem alto e magro, de cabelos brancos e olhos gentis, surgiu no caminho. Ele carregava um cajado e uma mochila velha. Ao ver as crianças, parou e inclinou a cabeça.
— Vocês são os quadrigêmeos, não são? — perguntou, com uma voz rouca, mas acolhedora. — Eu sou Elias, um velho amigo de seus pais. Ouvi falar do que aconteceu. Vim ajudar.
Os irmãos trocaram olhares desconfiados, mas havia algo naquele homem que inspirava confiança. Kauã deu um passo à frente. — Como pode nos ajudar?
Elias suspirou, seus olhos se enchendo de tristeza. — Sei sobre a maldição. E sei também que vocês têm um destino maior do que imaginam. Mas precisam ser fortes. A bruxa Morgana não é uma inimiga comum. Ela serve a um poder mais antigo, e vocês foram escolhidos para enfrentá-los.
Kiara, que tentava bloquear as visões, sentiu uma imagem clara: Elias estava falando a verdade, mas algo se escondia em seu coração — um segredo. Ela abriu a boca para questionar, mas antes que pudesse, uma sombra cruzou o céu. Do alto, um corvo negro desceu, pousando no ombro do velho. O corvo tinha olhos vermelhos e brilhava como carvão.
— Esse é seu companheiro? — perguntou Kauã, desconfiado.
Elias acariciou a cabeça do corvo. — Sim. Ele me guia. Mas venham, não podemos ficar aqui. Morgana sabe que vocês estão vivos e voltará para mata-los. Precisamos ir para um lugar seguro.
— E onde é esse lugar? — perguntou Kira, com a voz trêmula.
— A Floresta dos Sussurros. Lá há um santuário onde a magia dela não alcança. Mas a viagem é perigosa, e cada um de vocês terá que controlar seu dom para sobreviver.
Kaique olhou para os irmãos, vendo o medo em seus rostos, mas também a determinação. Ele estendeu a mão para Elias. — Então vamos. Mas, senhor Elias, se descobrirmos que o senhor está nos enganando, juro que usarei essa força para derrubar o que for preciso.
Elias sorriu, um sorriso triste. — jovem Kaique sei que você é muito desconfiavel. Mas confiem em mim por algumas horas. Vocês não estão sozinhos.
Enquanto se preparavam para partir, Kiara sentiu uma visão repentina: ela viu uma estrada coberta de sombras, seus irmãos ao lado, e, no fim, uma luz pálida. Mas também viu o rosto da bruxa, rindo, e ouviu palavras: "O ciclo começou. Nada os salvará."
Ela estremeceu, mas não disse nada. Em vez disso, segurou a mão de Kira e seguiu os outros. O sol havia se posto completamente, e a lua cheia surgia, prateada e fria. O vento uivava, carregando o cheiro de cinzas e promessas não cumpridas.
Os quadrigêmeos e Elias adentraram a noite, deixando para trás a casa azul, o jardim com as flores agora negras, e o túmulo de seus pais. O futuro era incerto, mas uma coisa era clara: a maldição era apenas o começo. E eles estavam dispostos a enfrentar o que viesse, juntos.
No horizonte, o corvo negro voou em círculos, e seu grasnido parecia um aviso. Algo se movia nas sombras, algo antigo e faminto. A jornada dos quadrigêmeos começava, e o primeiro passo era a sobrevivência.