Chapter 1
Capítulo 1 — O Despertar
Marcos de Carvalho, um rapaz de 17 anos que vive em Angola, acorda de um sonho perturbador onde uma criatura gigantesca o confronta numa cidade em ruínas. Depois de um pequeno-almoço apressado, encontra o seu primo Rossano na rua e, enquanto conversam, uma vibração estranha no peito e uma luz vermelha no céu anunciam que algo de errado está a acontecer.
— Ainda não acabou! — gritou Marcos, com os punhos cerrados.
A criatura riu, um som que ecoou entre os edifícios partidos. O chão tremeu. A energia vermelha explodiu, cegando tudo.
Marcos acordou com o próprio grito e estatelou-se no chão do quarto. A testa bateu contra a madeira da cama.
— AI! A MINHA CABEÇA!
Ficou ali sentado, a respirar fundo. A luz da manhã entrava pela janela. O som dos passarinhos e de uma vizinha a cantar música popular enchia o ar. Era o mesmo de sempre.
Olhou para as mãos. Não estavam rasgadas. Não havia sangue.
— Outra vez aquele sonho... — murmurou.
Levantou-se e espreitou pela janela. Lá fora, as ruas de Luanda estavam vivas. Miúdos a jogar à bola, senhoras a vender fruta, o trânsito a buzinar. Nada de monstros, nada de fogo.
O estômago roncou alto.
— Mas preciso é de comer!
Correu para a cozinha. A mãe, dona Rosa, estava à mesa com uma chávena de café. Olhou-o com uma sobrancelha levantada.
— Marcos! Que horas são estas para acordares?
— Bom dia, mãe! Dormiste bem?
— Não mudes de assunto!
Marcos pegou num pão e deu uma dentada enquanto falava.
— Eu não estou a mudar de assunto. Estou apenas a introduzir um novo tema na conversa.
A mãe cruzou os braços.
— Estás a brincar comigo?
— Nunca, mãe! És a pessoa que eu mais respeito neste mundo!
Ela suspirou, mas um sorriso escapou-lhe.
— Depois do pequeno-almoço, vais fazer as tuas tarefas.
— Sim, senhora!
Marcos sentou-se e comeu o pão. Mastigava devagar, a sentir a normalidade do momento. Mas, quando engoliu o último bocado, sentiu uma vibração estranha no peito. Algo quente, rápido, como um bater de asas lá dentro.
Levou a mão ao coração.
A sensação desapareceu.
— O que foi isso? — perguntou a si mesmo.
A mãe não ouviu. Estava a arrumar a louça.
Mais tarde, Marcos saiu de casa com a mochila ao ombro. O sol estava alto. Caminhava devagar, a pensar no sonho. Na criatura. Na energia vermelha.
— MARCOOOOS!
Ele virou-se. Um rapaz aproximava-se a correr, todo suado. Era Rossano, o primo, a quem toda a gente chamava Mbappé por causa da rapidez.
— Primo, alguém está a perseguir-te? — perguntou Marcos.
— Não!
— Então por que corres como se tivesses acabado de roubar um banco?
Rossano parou à frente dele, a recuperar o fôlego.
— Primeiro, eu não roubo bancos. Segundo, tu és um péssimo primo.
Marcos riu-se.
— Estás a rir de quê?
— Da tua cara!
Rossano empurrou-o de leve no ombro.
— Um dia vais precisar da minha ajuda e eu vou lembrar-me disto.
— Está bem, Mbappé. Mas, quando precisares de marcar um golo, também vou lembrar-me de ti.
Rossano sorriu, depois franziu a testa.
— Estás com ar estranho. Aconteceu alguma coisa?
Marcos hesitou.
— Tive um sonho estranho. Uma cidade destruída, uma criatura... parecia real.
— Sonho? Isso é normal, primo. Eu sonho que sou o melhor jogador do mundo.
— Não é igual. Eu senti... uma energia. No peito.
Rossano ia responder, mas parou. Olhou para o céu.
— O que é aquilo?
Marcos seguiu o olhar do primo. No horizonte, uma luz vermelha brilhava no meio das nuvens. Pequena, mas intensa. Como se alguém tivesse acendido um farol no céu.
— Não sei — disse Marcos.
A vibração no peito voltou. Mais forte desta vez.
— Estás a sentir isto? — perguntou Rossano.
— Sim.
A luz cresceu. Ficou maior, mais próxima. Pessoas na rua começaram a apontar.
— Acho que não é um sonho — murmurou Marcos.
O chão tremeu ligeiramente. A luz vermelha pairou sobre eles, como um olho aberto. Depois, uma voz — antiga, profunda — ecoou no ar, vinda de todo o lado ao mesmo tempo:
— Marcos de Carvalho.
Rossano deu um passo atrás.
— Primo... ela disse o teu nome.