AIBookCraft

Chapter 1

Capítulo 1

Rafa, um garoto comum de São Paulo, encontra um anel vermelho e preto enterrado no quintal de casa. Ao colocá-lo, descobre que possui superpoderes. Ele decide manter segredo até entender melhor o que está acontecendo.

14 min read

Eu nunca fui de acreditar em sorte. Não que eu fosse um pessimista, desses que veem nuvem escura atrás de cada raio de sol. Era só que, até aquele dia, a vida tinha me ensinado que as coisas aconteciam por razões concretas: você estudava, tirava nota boa; corria, ganhava a partida; pedia com jeito, e a mãe fazia o bolo de cenoura com cobertura de chocolate. Não tinha mágica no meio. Não precisava.

Mas aquela manhã de sábado começou diferente. O sol entrava pela janela do quarto como um fio dourado, desenhando um risco luminoso no chão de madeira. Acordei sem despertador, o que já era um feito para um menino de doze anos que normalmente só abria os olhos quando a minha mãe balançava o meu ombro e dizia "Rafa, vai perder a hora, levanta". Dessa vez, fui eu que me sentei na cama antes mesmo de ouvir o barulho da cafeteira na cozinha.

Escutei o chiado do café passando, o tilintar de uma xícara contra o pires, a voz do meu pai assobiando uma melodia que eu não reconhecia. Ele sempre assobiava quando estava de bom humor. E meu pai, bom humor, era uma coisa rara de se ver. Não que ele fosse bravo, longe disso. Era só que o homem carregava nos ombros um peso que eu entendia só de longe — o peso de ter treinado um dos maiores times do Brasil, o SPFC, e de saber que cada vitória e cada derrota eram julgadas por milhões de pessoas. Mas ali, naquela cozinha ensolarada, ele era só o meu pai, o homem que me ensinara a chutar uma bola antes de aprender a amarrar o cadarço.

Desci as escadas devagar, os pés descalços sentindo a madeira lisa e fria. A casa era antiga, comprada com o suor de anos de trabalho, e tinha esse cheiro de café e de livro velho que eu associava à segurança. Minha mãe estava na pia, lavando uma travessa, a água escorrendo em cascata fina sobre os dedos dela. Ela se virou quando me viu e sorriu, aquele sorriso que fazia os olhos dela virarem duas frestas brilhantes.

— Acordou cedo, meu amor. Está se sentindo bem?

— Tô, mãe. Só não consegui dormir mais.

— Que bom. Vou fazer panquecas. Senta aí.

Meu pai largou o jornal na mesa e me encarou por cima dos óculos de leitura. Ele tinha os olhos castanhos, quase pretos, e uma calvície que começava a se desenhar no alto da cabeça. Ele me examinou como se eu fosse um jogador novo chegando para um treino.

— Dormiu bem, filhote?

— Dormi, pai. Sonhei com um anel. Vermelho e preto.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Anel? — repetiu, como se estivesse processando a informação. — Que tipo de anel?

— Não sei. Era bonito. Parecia brilhar no escuro.

Minha mãe riu baixinho, virando a massa das panquecas na frigideira.

— Talvez seja um sinal. Você andou jogando muito videogame, Rafa.

— Não joguei nada ontem — respondi, defensivo.

Meu pai dobrou o jornal e o deixou sobre a mesa.

— Sonho é só sonho. Depois do café, vamos lá fora. Preciso arrumar o jardim.

Eu não disse nada, mas uma sensação estranha ficou grudada em mim o resto da manhã. Era como se a imagem do anel tivesse ficado gravada atrás das minhas pálpebras, um borrão vermelho e preto que eu via sempre que piscava.

Depois das panquecas com mel e de um copo de leite morno, vesti um short velho e um par de tênis surrados e saí para o quintal. O sol já estava mais forte, mas o chão ainda conservava o orvalho da noite. O jardim era pequeno, cercado por um muro de tijolos à vista, com um pé de limão num canto e uma mangueira que meu pai plantara quando eu nasci. Ele dizia que, quando a árvore crescesse, eu poderia colher as frutas com as minhas próprias mãos. A mangueira já estava alta, as folhas verde-escuras balançando com a brisa.

Meu pai estava ajoelhado perto do canteiro de margaridas, com uma pá de jardinagem na mão, cavando a terra. Ele suava leve, a camiseta branca manchada de terra nos joelhos.

— Vem aqui, Rafa. Me ajuda a virar essa terra.

Ajoelhei-me ao lado dele, sentindo a umidade do solo penetrar o tecido do short. Comecei a cavar com as mãos, os dedos afundando na terra macia. O cheiro era forte, de minhoca e de raiz. Cavamos em silêncio por alguns minutos, apenas o som da terra sendo revolvida e o canto distante de um bem-te-vi.

Foi então que meus dedos tocaram algo duro. Não era uma pedra. Era liso, frio, com uma superfície que parecia polida. Cessei o movimento e cavei com mais cuidado, alargando o buraco com as mãos. Meu pai notou minha hesitação e parou.

— Achou alguma coisa?

— Acho que sim.

Tirei o objeto da terra. Era um anel. Vermelho e preto. Exatamente como o do meu sonho. A joia era feita de um material que parecia metal escuro, com uma pedra vermelha no centro que brilhava com uma luz própria, mesmo debaixo do sol. O anel estava frio, mas, no momento em que toquei a minha pele, senti um calor percorrer o meu braço, como se algo estivesse acordando dentro de mim.

Meu pai se inclinou para olhar.

— Que bonito. Deve ser de algum vizinho que perdeu. Ou de algum parente antigo. Essa casa já teve outros donos.

— Pode ficar com ele? — perguntei, segurando o anel na palma da mão.

Ele coçou o queixo, pensativo.

— Por enquanto, sim. Depois a gente pergunta na vizinhança. Se ninguém reclamar, é seu.

Guardei o anel no bolso do short e senti o calor continuar, pulsando suave contra a minha coxa. Terminamos de cavar o canteiro, plantamos umas sementes de girassol que minha mãe tinha comprado no mercado, e depois fui para o quarto. Fechei a porta, sentei na cama e tirei o anel do bolso.

Ele era lindo. A pedra vermelha parecia conter um fogo interno, um brilho que se movia como se fosse líquido. O preto do metal era tão escuro que parecia sugar a luz ao redor. Coloquei o anel no dedo indicador direito. Serviu perfeitamente, como se tivesse sido feito para mim.

No instante em que o anel se ajustou ao meu dedo, uma onda de energia me atravessou. Era como se cada célula do meu corpo tivesse despertado, vibrando numa frequência que eu nunca tinha sentido. Senti o ar ao meu redor se mover, as cortinas da janela balançarem sem vento, os objetos no criado-mudo tremerem levemente. Levantei a mão e olhei para o anel. A pedra vermelha brilhava com mais intensidade agora, pulsando no ritmo do meu coração.

— O que é isso? — sussurrei para mim mesmo.

Sem pensar, estendi a mão em direção ao copo d'água que estava sobre o criado-mudo. E, antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, o copo flutuou. Levantou-se sozinho, pairando no ar a alguns centímetros da superfície de madeira. Eu arregalei os olhos, o coração disparado. Fechei a mão e o copo caiu, quebrando-se no chão com um estilhaço seco.

— Rafa? Tudo bem aí? — a voz da minha mãe veio do corredor.

— Tudo, mãe! Só derrubei um copo. Vou limpar.

— Toma cuidado com os cacos, querido!

Respirei fundo. O que estava acontecendo? Eu sempre fui um menino comum, que tirava notas medianas na escola, que gostava de futebol e de videogame, que tinha medo do escuro e que ainda dormia com a porta do quarto entreaberta. Não havia nada de especial em mim. Mas aquele anel... ele era especial.

Passei o resto do dia testando. Descobri que, quando usava o anel, conseguia levantar objetos com a mente, mover coisas sem tocá-las. Era como se o anel fosse uma extensão do meu corpo, um novo membro que eu estava aprendendo a controlar. No começo, era desajeitado. Tentei levantar um lápis e ele voou pela janela. Tentei fechar a porta e ela bateu com tanta força que quase quebrou o vidro. Mas, aos poucos, fui pegando o jeito.

No final da tarde, já conseguia fazer uma bola de papel flutuar numa trajetória reta, sem desvios. Sentei no chão do quarto, o suor escorrendo pela testa, e olhei para o anel. Ele brilhava, satisfeito, como se estivesse feliz por ter sido encontrado.

— Quem é você? — perguntei em voz alta.

O anel não respondeu, é claro. Mas senti uma vibração, uma espécie de resposta tátil, como se ele estivesse dizendo "estou aqui".

Jantei com meus pais na mesa da cozinha, ouvindo meu pai contar histórias dos tempos de treinador, as jogadas ensaiadas, os gols de placa, as viradas históricas. Minha mãe ria das partes engraçadas, balançava a cabeça nas partes tensas. Eu comia em silêncio, a mão direita escondida debaixo da mesa, o anel pressionado contra a palma da mão.

Mais tarde, deitado na cama, fiquei olhando para o teto, o anel no dedo, a pedra vermelha pulsando suave no escuro. Eu não sabia o que aquilo significava. Não sabia se era um presente ou um perigo. Mas sabia que, pela primeira vez na vida, eu não era um menino comum. Eu era alguém com um segredo. E segredos, como meu pai sempre dizia, têm o poder de mudar tudo.

No dia seguinte, acordei com o sol entrando pela janela e com a certeza de que algo grande estava prestes a começar. Levantei, vesti uma camiseta qualquer e desci para a cozinha. Meu pai já estava lá, lendo o jornal, uma xícara de café fumegante diante dele.

— Bom dia, filhote. Dormiu bem?

— Dormi, pai.

Sentei à mesa e ele me olhou por cima dos óculos.

— Você está diferente hoje. Mais quieto. Aconteceu alguma coisa?

— Não. Tô bem.

Ele franziu a testa, mas não insistiu. Meu pai sempre respeitava o meu silêncio. Ele dizia que todo homem precisa de um canto onde possa guardar as próprias coisas, e que o papel de um pai não era invadir esse canto, mas ficar de prontidão na porta, pronto para ouvir quando o filho resolvesse falar.

Depois do café, fui para o quintal. O sol estava quente, mas o vento trazia um frescor bom. Sentei debaixo da mangueira, as costas apoiadas no tronco áspero, e tirei o anel do bolso. Coloquei-o no dedo e fechei os olhos. Senti a energia percorrer o meu corpo, um formigamento suave que começava no dedo e se espalhava até a ponta dos cabelos.

Abri os olhos e levantei a mão. Uma folha seca que estava no chão começou a tremer, depois se ergueu, pairando diante de mim. Girei a mão lentamente e a folha girou junto, como se dançasse no ar. Sorri. Era estranho, mas era bom. Era como descobrir que você tem uma asa escondida nas costas.

Foi então que ouvi um barulho. Um som metálico, vindo do outro lado do muro. Algo caiu, alguma coisa de metal batendo no chão. Levantei-me, a curiosidade falando mais alto. O quintal do vizinho era um terreno baldio, cheio de mato alto e entulho. A casa estava desocupada há meses, desde que o seu Antônio, o antigo morador, mudara-se para o interior.

Aproximei-me do muro e espiei por uma fresta entre os tijolos. Vi um vulto. Uma figura alta, vestindo um casaco escuro, mesmo com o calor. A pessoa estava remexendo o entulho, como se procurasse alguma coisa. O coração começou a bater mais rápido. Não era o seu Antônio, que era baixinho e barrigudo. Era alguém mais jovem, mais magro, com movimentos rápidos e precisos.

A figura ergueu a cabeça e olhou diretamente para a fresta onde eu estava. Eu recuei, o susto me fazendo tropeçar nas próprias pernas. Caí sentado no chão, a terra úmida manchando o short. Levantei-me depressa e corri para dentro de casa.

— Mãe! — gritei, a voz saindo mais aguda do que eu gostaria.

— O que foi, Rafa? — ela apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no avental.

— Tem alguém no terreno baldio. Mexendo nas coisas do seu Antônio.

Ela franziu a testa, mas não pareceu alarmada.

— Pode ser algum curioso. Ou algum catador. Não se preocupa, filho. Depois do almoço, a gente dá uma olhada.

Eu não disse nada, mas aquela figura ficou gravada na minha mente. Os olhos que encontraram os meus através da fresta não eram olhos comuns. Eles brilhavam, assim como a pedra do anel brilhava. Um brilho vermelho, intenso, que parecia queimar.

Almocei sem apetite, a comida na boca sem gosto. Meu pai notou meu silêncio e trocou um olhar com minha mãe, mas nenhum dos dois disse nada. Depois do almoço, meu pai foi para a sala ver o jogo do SPFC na televisão. Minha mãe foi lavar a louça. Eu subi para o quarto, fechei a porta e sentei na cama, o anel no dedo, a mente a mil.

Quem era aquela pessoa? E por que estava ali, exatamente no dia seguinte ao que eu encontrara o anel? Não, não podia ser coincidência. O anel tinha que estar ligado àquela figura. E se ela estivesse procurando o anel? E se o anel fosse perigoso?

Olhei para a pedra vermelha. Ela pulsava calma, como se dissesse que estava tudo bem. Mas eu não tinha certeza de nada.

Naquela noite, depois do jantar, meu pai me chamou para o quintal. A noite estava clara, a lua cheia iluminando o jardim com uma luz prateada. Ele estava sentado num banco de madeira perto da mangueira, um copo de água na mão.

— Senta aqui, Rafa.

Sentei ao lado dele. Ficamos em silêncio por um longo tempo, ouvindo os grilos e o vento nas folhas.

— Você está diferente desde ontem — ele disse, finalmente. — Eu conheço você, filho. Sei quando alguma coisa está mexendo com a sua cabeça.

Respirei fundo. A vontade de contar era enorme. Mas como explicar? Como dizer "pai, encontrei um anel mágico no jardim e agora eu consigo levantar coisas com a mente"? Ele ia pensar que eu estava louco. Ou, pior, que eu estava mentindo.

— É nada, pai. Só coisa de criança.

Ele me olhou, os olhos castanhos brilhando na luz da lua.

— Você não é mais criança, Rafa. Tem doze anos. Já é um homem. Pelo menos, está começando a ser. E homens precisam aprender a lidar com os segredos que carregam. Mas também precisam saber que não precisam carregá-los sozinhos.

Ele colocou a mão no meu ombro, um gesto simples, mas que pesava.

— Se um dia você quiser falar, eu estou aqui.

Assenti, a garganta apertada. Ele deu um tapinha no meu ombro e se levantou.

— Vamos dormir. Amanhã tem escola.

Subi para o quarto, tirei o anel e coloquei-o sobre o criado-mudo. Ele brilhou na escuridão, a pedra vermelha pulsando como um coração. Deitei na cama, mas não consegui dormir. Fiquei olhando para o anel, pensando na figura do terreno baldio, nos olhos que brilhavam vermelhos, no poder que pulsava dentro daquela joia.

E, no meio da madrugada, quando a casa estava em silêncio, ouvi um som. Um rangido. A porta do meu quarto se abriu lentamente. Uma figura escura estava parada na soleira. Era a mesma figura do terreno baldio. Os olhos vermelhos brilhavam na escuridão.

— Você encontrou o que é meu — a voz era baixa, rouca, como folhas secas sendo amassadas.

Eu me sentei na cama, o coração batendo tão forte que doía. Minha mão procurou o anel no criado-mudo, mas antes que eu pudesse tocá-lo, a figura avançou.

✦ ✦ ✦
Jogar a partir daqui

Privacy choices

Optional analytics help us improve AIBookCraft. They stay off until you allow them. We still count anonymous page views, without cookies or an ID. Writing, sign-in, and checkout work either way.

Change this choice any time. Read our Privacy Policy.