Chapter 2
Capítulo 2: O Visitante da Noite
Léo tenta descobrir mais sobre o anel misterioso, mas uma visita noturna traz perigo e revelações sobre o poder do rubi.
Léo comeu o último pedaço de pão de queijo e bebeu o resto do suco de limão. A cozinha estava quentinha, com a luz amarela do abajur sobre a mesa. Sua mãe lavava a louça na pia, cantarolando uma música antiga.
— Mãe, você conhece alguma joia antiga? Tipo um anel com uma pedra vermelha? — perguntou ele, tentando soar casual.
Dona Clara parou de cantarolar e virou-se, enxugando as mãos no avental. — Anel? Por que essa pergunta?
— Ah, é que o Miguel falou de um filme que viu. Sobre um anel mágico.
Ela sorriu, os olhos brilhando. — Não sei de filme, mas sua avó tinha um anel de rubi. Ganhou do meu pai quando se casaram. Dizem que rubis trazem proteção. Mas ela perdeu num passeio no parque, anos atrás.
Léo engoliu em seco. O anel no bolso parecia pesar mais. — E nunca acharam?
— Não. Ela ficou tão triste... Dizia que o anel tinha um brilho diferente, como se estivesse vivo.
Ele sentiu um formigamento no dedo onde tinha usado o anel. Vivo. Era exatamente a sensação que ele tivera.
— Vou fazer o dever de casa — disse, levantando-se.
No quarto, Léo fechou a porta e sentou-se na cama. Tirou o anel do bolso e observou-o mais uma vez. As gravações no metal pareciam mais nítidas agora, como se tivessem sido limpas. Ele notou algo que não tinha visto antes: pequenas letras gravadas na parte interna.
Aproximou o anel da luz do abajur. As letras formavam uma palavra estranha: "SEMPRE".
— Sempre? — murmurou. — O que significa?
Ele colocou o anel no dedo novamente. O calor voltou, mais intenso desta vez, subindo pelo braço e espalhando-se pelo peito. Fechou os olhos, e por um instante viu imagens borradas: uma sala escura com velas, uma mão enrugada segurando o anel, um grito distante.
Léo abriu os olhos, ofegante. O quarto estava igual, mas a sombra do abajur parecia dançar nas paredes.
— Isso não é normal — sussurrou.
Ele tirou o anel e guardou-o na gaveta do criado-mudo, debaixo de um caderno. Depois deitou-se, mas não conseguia dormir. Os olhos fixos no teto, ele ouvia os sons da noite: o vento nas árvores, um cachorro latindo ao longe, o relógio da sala marcando as horas.
De repente, um barulho diferente. Algo como passos no jardim.
Léo sentou-se na cama. O coração batia forte. Ele olhou para a janela, que dava para o quintal. As cortinas estavam entreabertas, deixando ver a noite lá fora.
Uma sombra passou rápido.
Ele prendeu a respiração. Será que tinha imaginado? Mas então ouviu novamente: passos lentos, deliberados, na calçada do lado de fora.
Léo levantou-se sem fazer barulho e foi até a janela. Com cuidado, afastou um pedaço da cortina.
Lá embaixo, perto do portão, uma figura encapuzada estava parada. A pessoa vestia um casaco escuro, com o capuz cobrindo o rosto. Mas quando a lua apareceu por entre as nuvens, Léo viu algo que gelou seu sangue: os olhos da figura brilhavam vermelhos.
O homem — ou o que quer que fosse — olhou diretamente para a janela de Léo.
Ele sabia que ele estava ali.
— Léo! — a voz veio de fora, grave e firme. — Eu sei que você tem o anel. Não tente escondê-lo.
Léo recuou, tropeçando no tapete. Caiu sentado no chão, o coração disparado. Quem era aquela pessoa? Como sabia do anel?
— Você não entende o que encontrou — continuou a voz. — O anel não é um brinquedo. Ele pertence a algo maior. Algo que você não pode controlar.
A porta do quarto se abriu. Dona Clara entrou, com uma expressão preocupada.
— Léo? Ouvi um barulho. Está tudo bem?
Ele apontou para a janela, trêmulo. — Lá fora... tem alguém.
Sua mãe foi até a janela e olhou. — Não vejo ninguém, filho. Só as árvores.
Léo levantou-se e correu para a janela. A rua estava vazia. A figura tinha desaparecido.
— Juro que vi alguém — insistiu ele. — Um homem de capuz, com olhos vermelhos. Ele falou do anel.
Dona Clara franziu a testa. — Que anel?
Léo hesitou. Não queria preocupá-la, mas também não podia mentir. Ele abriu a gaveta e tirou o anel.
— Encontrei hoje, no caminho da escola. Pensei que fosse só uma joia bonita, mas... coisas estranhas estão acontecendo.
Sua mãe pegou o anel, examinando-o. A pedra rubi brilhava na luz do abajur. Ela franziu a testa, os olhos fixos na peça.
— Isso... isso é o anel da minha mãe. Tenho certeza. O rubi tem um corte único, e as gravações... — Ela olhou para Léo, assustada. — Onde exatamente você encontrou isso?
— Na rua, perto do meio-fio, perto da escola.
Dona Clara sentou-se na cama, segurando o anel com as duas mãos. — Minha mãe perdeu esse anel há vinte anos. Disse que foi roubado, na verdade. Por um homem estranho, que apareceu no parque e o tirou de sua mão.
— Roubado? — repetiu Léo.
— Sim. Ela nunca mais o viu. E desde então, coisas estranhas aconteceram com ela. Pesadelos, visões... — Ela suspirou. — Ela dizia que o anel tinha um poder. Mas nunca explicou direito.
O vento uivou lá fora, fazendo as folhas das árvores dançarem. Léo sentiu um arrepio.
Nesse momento, o anel brilhou intensamente, pulsando com uma luz vermelha. Dona Clara soltou um grito e deixou-o cair no chão.
O rubi brilhava sozinho, como se tivesse vida própria. E então, do centro da pedra, uma voz sussurrou:
— O portador foi marcado. A busca começou.
Léo e sua mãe se olharam, paralisados.
A luz do anel se apagou, e o quarto ficou em silêncio novamente. Mas ambos sabiam que algo havia mudado. Algo que não poderia ser desfeito.
— Mamãe — disse Léo, a voz baixa. — O que a gente faz agora?
Dona Clara olhou para o anel no chão, depois para o filho. Seus olhos estavam cheios de medo, mas também de determinação.
— A primeira coisa — disse ela, pegando o anel com cuidado — é descobrir a verdade. Antes que ele nos encontre.
Léo assentiu, sentindo o peso da responsabilidade. Lá fora, a noite escondia segredos que ele mal podia imaginar.
Mas ele sabia que não estava sozinho. E, de alguma forma, isso era o mais importante.
O vento uivou novamente, e a lua se escondeu atrás das nuvens, deixando a casa amarela imersa na escuridão.
Do lado de fora, na rua vazia, uma folha seca rodopiou no asfalto. E, por um instante, dois olhos vermelhos brilharam entre as árvores, antes de desaparecerem completamente.