Chapter 2
Capítulo 2
Dentro do carro de Solange, Clara e Dubois descobrem que o verdadeiro lote 47 não é um manuscrito, mas um segredo sobre suas famílias. Solange oferece um ultimato: cooperar ou perder tudo. O capítulo termina com Solange revelando que o leilão já começou sem eles.
O interior do carro era sufocante, o perfume de Solange — almíscar e rosas secas — misturando-se ao cheiro de couro novo. Clara apertou a bolsa contra o peito, os dedos ainda úmidos da chuva. Dubois sentou-se ao lado dela, o paletó encharcado deixando uma poça no assento. Nenhum dos dois falou.
Solange ligou o motor, o carro deslizando pela rua molhada como uma sombra. Os faróis cortavam a noite, revelando fachadas de pedra e vitrines apagadas. Paris estava adormecida, alheia ao que acontecia dentro daquele veículo.
— Vocês devem estar se perguntando por que fiz isso — disse Solange, a voz calma demais. — A resposta é simples. Preciso de ajuda.
— Ajuda? — Dubois riu, sem humor. — Você nos sequestrou.
— Convidei. A porta estava aberta.
Clara sentiu o estômago revirar. Conhecia Solange há anos — a leiloeira mais respeitada de Paris, dona de uma galeria na rue de Seine. Sempre educada, sempre distante. Mas nunca ameaçadora. Até agora.
— O manuscrito — disse Clara, forçando a voz a sair firme. — Você disse que o verdadeiro lote 47 não é o que esperávamos.
Solange sorriu, um reflexo no retrovisor. — O manuscrito de Verlaine é real, sim. Mas não está à venda. Nunca esteve. Eu o usei como isca.
— Isca para quê?
— Para atrair vocês dois.
O carro fez uma curva brusca, entrando em um bairro que Clara não reconhecia. Prédios antigos, janelas escuras. Nenhum movimento nas calçadas.
— A Sociedade dos Antiquários — continuou Solange — está desaparecendo. Vocês sabem disso. Os leilões encolhem, as coleções são vendidas para estrangeiros. Alguém está comprando tudo, peça por peça, e ninguém sabe quem.
— E o que isso tem a ver conosco? — perguntou Dubois.
Solange estacionou o carro em frente a um edifício cinzento, sem identificação. Ela desligou o motor e virou-se para encará-los, os olhos escuros brilhando sob a luz do painel.
— O comprador é alguém que conhece vocês. Alguém próximo. Muito próximo.
Clara sentiu um arrepio percorrer a espinha. Lembrou-se do avô, das histórias que ele contava sobre a Sociedade, sobre os segredos que guardava. Segredos que ela nunca levara a sério.
— Quem? — perguntou ela.
— Se eu soubesse, não precisaria de vocês. — Solange abriu a porta e saiu, a chuva fina ainda caindo. — Venham. Vou mostrar o verdadeiro lote 47.
Dubois olhou para Clara. Ela balançou a cabeça, um gesto mínimo, mas ele já estava abrindo a porta do lado dele. Seguiram Solange até a entrada do edifício, uma porta de ferro enferrujada que rangeu ao ser aberta.
O interior era um depósito. Caixas empilhadas até o teto, poeira pairando no ar. Uma única lâmpada pendia do centro, iluminando uma mesa de madeira. Sobre ela, uma pasta de couro idêntica à que Solange mostrara no carro.
— O verdadeiro lote 47 — disse Solange, abrindo a pasta. Dentro, não havia um manuscrito. Havia fotografias, documentos, recortes de jornal. — A história das famílias de vocês. O que seus avós fizeram durante a guerra. As alianças que selaram. Os segredos que enterraram.
Clara aproximou-se, as mãos trêmulas. As fotos mostravam seu avô, jovem, ao lado de um homem que ela não reconhecia. E, atrás deles, a fachada da Sociedade dos Antiquários.
— Isso não prova nada — murmurou ela.
— Prove? — Solange riu, um som seco. — Não estou tentando provar nada. Estou tentando salvar o que resta. O comprador quer destruir a Sociedade. E, para isso, precisa de uma única coisa: o diário do seu avô, Clara. O diário que ele escondeu antes de morrer.
— Meu avô não tinha um diário.
— Tinha sim. E você sabe onde está.
Clara sentiu o chão sumir sob seus pés. O diário. Lembrava-se dele, sim — um caderno de capa preta, que o avô mantinha trancado em uma gaveta. Ela nunca o lera. Nunca tivera coragem.
— E se eu tiver? — perguntou ela, a voz quase inaudível.
— Então você entrega a mim. E eu paro o comprador.
— E o que eu ganho com isso?
Solange inclinou a cabeça, os olhos fixos nos de Clara. — A verdade sobre a morte do seu avô. E a chance de proteger o que resta da sua família.
Dubois deu um passo à frente, colocando-se entre elas. — Isso é chantagem.
— É um acordo. — Solange fechou a pasta, os documentos desaparecendo dentro do couro. — Vocês têm até o amanhecer para decidir. Depois disso, o comprador terá o que veio buscar. E todos nós perderemos.
O silêncio caiu sobre o depósito. Clara olhou para Dubois, para a tensão em seus ombros, a forma como ele apertava os punhos. Ele também estava com medo. Mas, por algum motivo, isso a fazia sentir-se menos sozinha.
— Precisamos de tempo — disse Dubois.
— Não temos tempo. — Solange guardou a pasta debaixo do braço. — O leilão já começou. O verdadeiro lote 47 está sendo vendido agora mesmo, sem que ninguém saiba o que é. Se o comprador colocar as mãos nele antes de vocês...
Ela não terminou a frase. Não precisava.
Clara respirou fundo, sentindo o cheiro de poeira e mofo. O diário do avô. A chave para tudo. Ela sabia onde estava — no sótão da casa de infância, esquecido entre caixas de livros e fotografias amareladas.
Mas entregá-lo a Solange? Confiar nela?
— Eu vou buscar o diário — disse Clara, a voz firme apesar do tremor interno. — Mas quero algo em troca.
Solange ergueu uma sobrancelha. — O quê?
— Dubois vem comigo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Dubois olhou para ela, os olhos escuros cheios de surpresa. Solange franziu o cenho, mas depois sorriu, um sorriso lento e calculado.
— Combinado. Mas se tentarem me enganar...
— Sabemos. — Clara virou-se para Dubois. — Vamos.
Eles saíram do depósito, a chuva fina ainda caindo. A noite estava escura, o céu sem estrelas. Clara sentiu o peso da bolsa contra o peito, o coração batendo forte.
— Você está louca — murmurou Dubois, acompanhando-a até a calçada. — Confiar nela?
— Não confio. Mas preciso do diário. E preciso de alguém que me cubra as costas.
— E por que eu?
Clara parou, virando-se para encará-lo. A chuva escorria pelo rosto dele, pelos lábios entreabertos. Ela sentiu o impulso de dizer algo, mas as palavras não vieram.
— Porque você é a única pessoa em Paris que me odeia o suficiente para ser honesto.
Dubois riu, um som rouco. — Justo.
— Então vamos. Antes que amanheça.
— E se o diário não estiver lá?
— Então a gente descobre quem está por trás disso. E acaba com isso de uma vez.
Dubois a observou por um longo momento. Depois, estendeu a mão, a palma aberta. Clara hesitou, mas finalmente a apertou. A mão dele era quente, apesar da chuva.
— Vamos — disse ele.
E, juntos, desapareceram na noite parisiense, deixando Solange para trás, com seu sorriso enigmático e seus segredos.