Chapter 1
Capítulo 1
Clara e Dubois se encontram em um beco de Paris durante uma tempestade. A tensão entre eles atinge o auge quando uma ameaça externa força uma aliança inesperada.
— Você tem cinco segundos para explicar o que está fazendo aqui — a voz de Clara cortou o ar frio, mais afiada que a lâmina de um punhal.
Dubois inclinou a cabeça, o sorriso provocante iluminado pelo relâmpago distante. — Cinco segundos? Isso é generoso, vindo de quem me segue desde a rue de Rivoli.
Ela sentiu o calor subir pelo pescoço. Não era verdade. Ou era? A chuva começara a cair, fina no início, grossas gotas que batiam no paralelepípedo como dedos impacientes. Clara apertou a bolsa contra o peito, o couro úmido escorregadio sob seus dedos. O beco cheirava a lixo molhado e ferro velho, um contraste cruel com a elegância dos bulevares que ela percorrera minutos antes.
— Você está atrasado para o leilão — disse ela, forçando a voz a permanecer firme. — Ouvi dizer que o lote 47 despertou interesse. O manuscrito de Verlaine.
Dubois tirou um lenço branco do bolso do paletó, enxugando a gola manchada de chuva. O gesto era lento, calculado, como tudo nele. — O manuscrito que sua galeria tanto deseja. Mas a noite é jovem, mademoiselle. E o leilão só começa à meia-noite.
— Meia-noite é daqui a vinte minutos.
— Então estamos ambos com pressa. Que coincidência.
Clara mordeu o lábio. A tempestade crescia, trovões rolando sobre os telhados de Paris como tambores de guerra. Ela podia jurar que ouvira passos atrás dela, na entrada do beco, mas quando virou a cabeça, só viu a cortina de chuva e os reflexos dos postes nas poças.
— Não estamos aqui por acaso — murmurou Dubois, repentinamente sério. O sorriso desaparecera. Ele deu um passo à frente, e Clara recuou, as costas batendo contra a parede úmida. — Há alguém nos seguindo. Não é você, não sou eu. Então quem?
— O quê?
— O lote 47 é uma farsa. O verdadeiro manuscrito nunca esteve à venda. Alguém plantou essa história para nos atrair.
A revelação caiu como um golpe. Clara conhecia Dubois o suficiente para saber quando ele blefava — e quando falava a verdade. A rigidez de seus ombros, a forma como ele desviava o olhar para a escuridão além da chuva. Ele estava com medo.
— Por que me contar isso? — perguntou ela, a voz quase um sussurro.
— Porque você é a única pessoa em Paris que odeia Dubois Antiquités o bastante para não estar do lado dele. E porque, se estivermos sendo enganados, precisamos de alguém em quem confiar.
— Confiar? Nós nos detestamos.
— Exatamente. Por isso é seguro.
O relógio de uma igreja próxima começou a badalar, as primeiras badaladas da meia-noite. Clara sentiu a bolsa vibrar — o celular, um lembrete de que o mundo continuava lá fora, alheio àquele beco encharcado.
— O que você sugere? — perguntou ela, contra todos os seus instintos.
Dubois estendeu a mão, a palma aberta para a chuva. — Venha comigo ao leilão. Fingiremos que somos aliados. Descobriremos quem está por trás disso. Depois, voltaremos a nos odiar como antes.
Uma promessa vazia. Mas Clara olhou para aquela mão estendida, para os olhos escuros que brilhavam sob a chuva, e sentiu algo que não sentia há muito tempo: curiosidade.
— Se isso for uma armadilha — disse ela, sem pegar sua mão —, juro que farei sua vida um inferno.
— Já faz. — Ele sorriu, um sorriso diferente, quase humano. — Mas prometo que não é.
O último trovão sacudiu o chão quando ela finalmente deu o passo, saindo da proteção da parede para a chuva que agora caía sem piedade. Dubois virou-se, o paletó encharcado colado às costas, e começou a andar em direção à luz amarelada da rua.
Clara o seguiu. E, por um instante, o ódio pareceu menos pesado que o medo.
Quando chegaram à calçada, um carro preto parou ao lado deles, o vidro descendo silenciosamente. Uma voz feminina, familiar, cortou a chuva:
— Então é assim que vocês dois se entendem? Sempre achei que precisariam de um empurrão.
Clara reconheceu aquela voz. Era de Solange, a leiloeira. E o sorriso no rosto dela não era amigável.
— O manuscrito — disse Dubois, a mão instintivamente indo ao bolso interno do paletó. — Está seguro.
— Mentira. — Solange riu, um som metálico. — O manuscrito está comigo. Vocês dois vieram atrás de um fantasma. O verdadeiro lote 47 é algo que nenhum de vocês espera.
Ela ergueu uma pasta de couro, e Clara viu, por uma fração de segundo, o selo da Sociedade dos Antiquários. O selo que seu avô lhe ensinara a reconhecer — e temer.
— Entrem no carro. Ou explico tudo para a polícia.
Dubois olhou para Clara. Ela olhou para ele. E, no meio da tempestade, ambos tomaram a mesma decisão.
O carro fechou as portas sobre eles, e a noite de Paris engoliu o beco, deixando apenas a chuva e o eco dos trovões.