Chapter 1
Capítulo 1
Uma jovem besouro-soldado chamada Tálita enfrenta seu primeiro combate real contra uma invasão de monstros aranhas na fronteira do Reino dos Besouros, descobrindo que a guerra é mais cruel do que os treinos sugeriam.
— Eles estão vindo pelo desfiladeiro norte! — gritou alguém lá embaixo, e Tálita sentiu o chão tremer antes mesmo de ver as sombras.
Ela apertou o escudo de quitina contra o peito, o coração batendo tão forte que parecia querer furar a carapaça. Seis ciclos de treino no quartel, e agora, na primeira patrulha de verdade, o inimigo resolvia aparecer.
— Calma, novata — disse Vélos, o comandante de esquadrão, passando por ela com passos firmes. As antenas dele vibravam, captando os sinais de perigo que o vento trazia. — Lembra do que aprendeu. Eles são grandes, mas são burros.
— Grandes é pouco — murmurou Tálita, e não era medo o que sentia. Era algo pior: a certeza de que tudo poderia dar errado.
As primeiras criaturas surgiram entre as pedras do desfiladeiro. Monstros aranhas, com oito patas finas como lanças e olhos vermelhos que brilhavam na penumbra do entardecer. Cada uma tinha o tamanho de três besouros soldados enfileirados. Tálita já tinha visto ilustrações nos manuais, mas desenho nenhum preparava alguém para o cheiro delas — um fedor de terra podre e veneno que entrava pelas narinas e não saía mais.
— Formação em cunha! — ordenou Vélos. — Protejam os flancos!
Tálita ocupou seu posto na lateral esquerda, ao lado de Kézio, um besouro de chifre longo que sempre zombava dela no refeitório. Agora ele não ria. As mandíbulas dele se moviam nervosamente, e Tálita percebeu que o medo dele era igual ao seu.
— Quando eu disser, você avança e golpeia as pernas — disse ele, sem tirar os olhos das aranhas. — Não tenta acertar o corpo. Elas são rápidas demais.
— Eu sei — respondeu Tálita, mas a voz saiu mais fina do que queria.
A primeira aranha atacou.
Ela veio num salto que parecia desafiar a gravidade, as patas dianteiras esticadas como adagas. Vélos gritou uma ordem, e os soldados da frente ergueram os escudos. O impacto foi ensurdecedor — um choque de quitina contra quitina que ecoou pelo desfiladeiro inteiro.
Tálita viu um companheiro ser arremessado para trás, o escudo partido em três pedaços. Outro besouro cravou sua lança no abdômen da aranha, mas a criatura nem pareceu sentir. Ela se virou e, com uma das patas, atravessou o tórax do soldado.
O grito foi curto.
— AGORA! — berrou Vélos.
Tálita correu.
As pernas dela se moviam sozinhas, levando-a para o flanco da aranha. Ela baixou o corpo, deslizou por baixo de uma pata que tentava esmagá-la, e golpeou com a espada curta bem na articulação. A lâmina cortou fundo, e a criatura gemeu — um som úmido, nojento, que vibrou no ar.
A perna cedeu. A aranha tombou para o lado, e Kézio aproveitou para fincar o chifre no olho dela. O monstro se debateu, mas já estava morrendo.
Tálita não teve tempo de comemorar.
Outra aranha surgiu das sombras, derrubando dois soldados que tentavam recuar. O desfiladeiro inteiro se transformou num caos de corpos, gritos e ordens que ninguém mais ouvia.
— Recurvem! — gritou Vélos, mas a voz dele se perdeu no estrondo de mais uma aranha saltando sobre a formação.
Tálita sentiu algo quente escorrer pela testa. Sangue. Ou era dela, ou era de alguém que tinha explodido perto. Ela não sabia mais.
— Tálita! — Kézio agarrou o ombro dela e a puxou para trás, para longe do combate. — Vamos! A ordem é recuar!
— Mas eles ainda estão lá — ela protestou, a respiração saindo em arquejos.
— E nós vamos morrer também se ficarmos! — ele respondeu, e os olhos dele não estavam mais zombeteiros. Estavam cheios de algo que Tálita nunca tinha visto num besouro adulto: desespero.
Ela correu.
Correram juntos por entre as pedras, ouvindo os gritos dos que ficaram para trás. O desfiladeiro ficou para trás, e a planície do Reino dos Besouros se abriu à frente — campo de capim alto e arbustos baixos, onde o sol poente ainda lançava sombras compridas.
Tálita parou, dobrada, tentando recuperar o fôlego. As mãos tremiam. A espada ainda estava suja do sangue da aranha.
— Quantos? — ela conseguiu perguntar.
Kézio contou os sobreviventes com os olhos. Eram oito. Doze tinham ido para a patrulha.
— Quatro — ele respondeu, a voz rouca. — Perdemos quatro.
Ninguém disse nada. O silêncio pesava mais que qualquer lamento.
Foi então que o mensageiro chegou. Uma libélula, ofegante, as asas tremendo de cansaço.
— Comandante Vélos! — ela gritou, pousando na frente deles. — Mensagem urgente do Conselho! A Rainha convocou todos os esquadrões de fronteira para o Salão Central.
Vélos franziu o capacete.
— Pra quê?
— Não sei, senhor. Mas disseram que é sobre... — a libélula hesitou. — Sobre o Reino da Paz. Dizem que caiu.
Tálita sentiu o chão sumir debaixo dos pés. O Reino da Paz. O lugar que todos achavam intocável, protegido por séculos de neutralidade. Se tinha caído...
— Então a guerra vai mudar — murmurou Kézio, e a voz dele não era mais de desespero. Era de algo pior: aceitação.
Vélos endireitou o corpo, o cansaço sumindo do rosto.
— Vamos. Não podemos perder tempo.
Ele começou a caminhar, e os outros o seguiram. Tálita olhou para trás, para o desfiladeiro onde os corpos dos companheiros ainda deviam estar estendidos. O vento trouxe o cheiro de sangue e terra remexida.
Ela apertou a espada e foi atrás.
O Salão Central ficava a meio dia de marcha. Quando chegaram, o sol já tinha se posto há horas, e o céu estava salpicado de estrelas. O salão estava cheio — soldados de todos os cantos do reino, comandantes de esquadrão, anciãos com asas enrugadas e olhos cansados.
No centro, sobre uma plataforma elevada, estava a Rainha Vespa. Não a rainha dos besouros — a própria soberana do Reino dos Besouros, em carne e osso, com as asas translúcidas dobradas nas costas e o olhar que pesava como uma montanha.
— Soldados — disse ela, e a voz dela preencheu o salão sem esforço. — Esta noite recebemos notícias que mudarão tudo que conhecemos.
Tálita prendeu a respiração.
— O Reino da Paz foi invadido. Os monstros escorpiões romperam a barreira sul, e os parasitas... — ela fez uma pausa, e o silêncio ficou absoluto. — Os parasitas se aliaram a eles.
Um murmúrio percorreu a multidão. Parasitas e escorpiões, juntos. Era uma aliança que ninguém tinha previsto.
— Precisamos de voluntários — continuou a Rainha. — Uma missão de reconhecimento até as ruínas do Reino da Paz. Para descobrir o que sobrou, e se há algo que possamos salvar.
Tálita sentiu o olhar de Vélos sobre ela. O comandante não disse nada, mas o que ele queria estava claro.
Ela deu um passo à frente.
— Eu vou.