Chapter 1
Capítulo 1
Lucas Ngoma, um jovem comum de Luanda, descobre por acaso sua paixão pela poesia ao ler um poema antigo de seu avô. Incentivado pela avó, inscreve-se no Concurso Nacional de Poesia Juvenil. Durante a competição, ele sente uma conexão profunda com as palavras, mas é derrotado. A derrota o abala, mas naquela noite ele tem um sonho misterioso com uma caneta dourada e uma voz que o guia. Ao acordar, encontra um bilhete deixado por sua avó que menciona a 'Caneta da Palavra' e uma herança familiar. O capítulo termina com Lucas decidido a descobrir o significado do sonho e do bilhete.
Lucas Ngoma era um jovem como tantos outros em Luanda. Acordava cedo para ir à escola, ajudava a avó na pequena venda de frutas na esquina, e passava as tardes a jogar futebol com os amigos no bairro. Nunca se destacara por nada de especial, a não ser talvez pela habilidade de contar piadas que faziam todos rir. A sua vida era simples, previsível, e ele gostava assim.
Tudo mudou numa tarde de sábado, quando a chuva forte o obrigou a abrigar-se na pequena livraria do senhor Simão. O cheiro a papel velho e a pó misturava-se com o som da chuva a bater no telhado de zinco. Lucas vagueava entre as estantes, sem saber bem o que procurava, quando os seus olhos tropeçaram num livro pequeno, de capa gasta e título desbotado: “Poemas do Avô Ngola”.
O nome chamou-lhe a atenção. Ngola era o seu apelido, mas nunca ouvira falar de nenhum avô com esse nome. A avó raramente falava do passado da família. Curioso, pegou no livro e abriu-o ao acaso. Leu os primeiros versos:
"O vento leva as palavras que a boca não ousa dizer,
Mas o coração guarda-as como sementes a nascer.
Quando a noite chegar, fecha os olhos, escuta o silêncio:
Há uma caneta que escreve o que o tempo quer esquecer."
Lucas sentiu um arrepio na espinha. Não entendia bem porquê, mas aquelas palavras pareciam falar-lhe diretamente, como se o livro soubesse que ele estava ali, naquela tarde chuvosa. Leu mais alguns poemas, todos sobre a beleza da vida, a dor da perda, a força da esperança. Cada verso parecia uma música que ele nunca ouvira, mas que reconhecia no fundo da alma.
Quando a chuva parou, Lucas comprou o livro com o dinheiro que guardava para um lanche. Correu para casa e passou a noite a ler, vezes sem conta, os poemas do seu suposto avô. Não sabia escrever poesia, mas sentia que, de alguma forma, aquelas palavras eram dele também.
No dia seguinte, a avó Maria encontrou-o com o livro nas mãos, a reler o mesmo poema pela décima vez. Ela suspirou, os olhos toldados por uma névoa de memórias antigas.
— Esse livro pertenceu ao teu bisavô, Ngola — disse ela, sentando-se ao lado dele. — Dizem que ele era um poeta famoso, nos tempos antigos. Que conseguia transformar palavras em algo mágico. Mas nunca gostou de falar disso. Quando morreu, deixou apenas este livro e uma caneta que nunca vi. — A avó hesitou, como se fosse dizer algo mais, mas calou-se.
Lucas sentiu o coração bater mais forte. Uma caneta? Lembrou-se dos versos: "Há uma caneta que escreve o que o tempo quer esquecer." Quis perguntar mais, mas a avó levantou-se e mudou de assunto, como sempre fazia quando o passado vinha à tona.
Na semana seguinte, Lucas soube que haveria um Concurso Nacional de Poesia Juvenil na cidade. As inscrições estavam abertas, e o prémio era uma bolsa de estudos num colégio de prestígio. Os seus amigos riram-se, disseram que poesia era coisa de velhos e de raparigas. Mas Lucas não conseguia tirar os poemas do avô da cabeça. Sentia que, se não tentasse, estaria a trair algo dentro de si.
Inscreveu-se.
No dia da competição, o auditório estava cheio. Dezenas de jovens poetas, alguns já conhecidos em blogs e revistas literárias, outros tímidos como ele. Lucas sentou-se no fundo, o coração aos saltos. Quando chegou a sua vez, subiu ao palco com as pernas a tremer. Mas assim que abriu a boca para declamar o poema que escrevera na noite anterior, algo estranho aconteceu.
As palavras saíram naturais, como se sempre tivessem estado à espera dentro dele. O poema falava de um jovem que encontra um tesouro escondido nos versos de um livro antigo. Enquanto declamava, Lucas sentiu uma energia quente a percorrer-lhe o corpo, como se cada palavra tivesse vida própria. O público ouvia em silêncio, alguns com lágrimas nos olhos.
Terminou o poema sob aplausos. Pela primeira vez na vida, sentiu-se realmente visto. E, por breves momentos, acreditou que podia ganhar.
Mas não ganhou.
O júri deu o primeiro lugar a uma rapariga de cabelos encaracolados chamada Sofia, cujo poema sobre a independência de Angola era politicamente poderoso e emocionante. Lucas ficou em quinto lugar, fora do pódio. Aplaudiu Sofia com um sorriso amarelo, mas por dentro sentia um nó na garganta. A derrota doeu mais do que imaginava.
No caminho de volta para casa, as ruas pareciam mais escuras. A chuva começou a cair outra vez, fina e persistente. Lucas sentou-se no banco da paragem, o livro do avô apertado contra o peito. Pensou que não era bom o suficiente. Que a poesia não era para ele.
Fechou os olhos. As gotas de chuva batiam no telhado do abrigo, criando um ritmo hipnótico. O cansaço da competição pesou-lhe nas pálpebras. E então, adormeceu.
Foi quando o sonho começou.
Lucas estava numa clareira dentro de uma floresta densa, onde as árvores pareciam sussurrar entre si. No centro, havia uma pedra coberta de musgo, e em cima dela, uma caneta antiga, de metal dourado, com desenhos intrincados que brilhavam à luz do luar. Uma voz suave, sábia, ecoou na sua mente:
"Procura a Caneta da Palavra, Lucas. Ela te mostrará o caminho para o teu verdadeiro talento. O teu avô a escondeu para te proteger, mas chegou a hora de a reencontrares. Vai até à floresta do Mayombe. Lá, as palavras ganham asas."
Lucas tentou tocar na caneta, mas a sua mão atravessou-a como névoa. Ouviu passos ao longe, vozes hostis. Virou-se e viu sombras a aproximarem-se. Acordou com um sobressalto, o coração a bater descompassado. A chuva tinha parado. A noite caíra sobre Luanda.
Em casa, a avó esperava-o com um prato de funge e um olhar misterioso.
— Perdeste? — perguntou, como se já soubesse.
Lucas assentiu, ainda a tremer com o sonho.
— Avó, tive um sonho estranho. Ouvi uma voz a falar de uma caneta. Uma caneta dourada... chamada Caneta da Palavra. Disse para eu ir à floresta do Mayombe.
A avó empalideceu. Deixou o prato na mesa e sentou-se, as mãos a tremer.
— Então é verdade — murmurou. — A herança está a despertar em ti.
— Que herança? — perguntou Lucas, confuso.
A avó levantou-se, foi até ao quarto e voltou com um pequeno cofre de madeira. Abriu-o com uma chave que trazia ao pescoço. Dentro, havia um mapa desbotado e uma fotografia amarelada de um homem alto, de olhos profundos, segurando uma caneta igual à do sonho.
— O teu bisavô Ngola era um guardião — disse ela. — Guardião da Caneta da Palavra, um objeto que transforma poesia em poder real. Ele escondeu-a no Mayombe antes de morrer, para que ninguém a usasse com maus fins. Mas a linhagem dos Ngola sempre teve o dom de a encontrar. A voz que ouviste... é a própria caneta a chamar-te.
Lucas olhou para o mapa, para a floresta do Mayombe, um lugar de lendas e perigos. O coração batia forte, mas já não de medo. Era de determinação.
— Vou encontrá-la, avó. Vou descobrir quem sou.
A avó sorriu, com lágrimas nos olhos.
— Então prepara-te, neto. A tua jornada começa amanhã.
Lucas guardou o mapa no bolso e, nessa noite, não conseguiu dormir. O sonho repetia-se na sua mente: a caneta dourada, a clareira, a voz. E a promessa de que, com ela, poderia finalmente vencer a guerra das palavras.
Mas no fundo, ainda que não soubesse, o verdadeiro combate só estava a começar.