Chapter 3
A Testemunha
— A Testemunha
"Ryan, precisamos conversar. Eu sei o que Ashley fez depois que saiu do restaurante."
Ryan releu a mensagem algumas vezes, tentando entender quem poderia estar por trás daquelas palavras. Em seguida, mostrou o celular para Linda.
— Você conhece esse número?
— Não. Responde e pergunta quem é.
Ryan digitou rapidamente:
"Quem está falando?"
A resposta apareceu poucos segundos depois:
"Meu nome é Daniel. Sou o gerente do restaurante."
Linda se aproximou, surpresa.
— O gerente? Então ele viu o que aconteceu?
Antes que Ryan respondesse, outra mensagem chegou.
"Eu não costumo me envolver em assuntos particulares dos clientes, mas o que aconteceu ontem me deixou desconfortável. Eu vi Ashley sair pela porta dos fundos e ela não estava sozinha."
Ryan sentiu um peso no estômago.
"Com quem ela estava?"
Daniel demorou alguns instantes antes de responder.
"Com um homem que a esperava em um carro preto."
Linda levou a mão à boca.
— Mas ela disse que tinha chamado um táxi.
— Exatamente — respondeu Ryan, sem tirar os olhos da tela.
Daniel explicou que havia observado a movimentação pelas câmeras de segurança. Depois de deixar o restaurante, Ashley caminhou rapidamente até o estacionamento dos fundos, onde um homem saiu de um carro escuro e abriu a porta para ela.
Segundo ele, os dois conversaram por alguns instantes antes de Ashley entrar no veículo.
"Você conseguiu ouvir alguma coisa?", perguntou Ryan.
A resposta demorou.
"Ouvi apenas uma parte da conversa."
Daniel então revelou o que tinha escutado.
Ashley teria dito ao homem:
"Deu certo. Eles pagaram tudo."
Linda fechou os olhos.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Aquela frase era suficiente para destruir a última dúvida que ainda existia. Ashley não havia esquecido a carteira, não tinha sido surpreendida por uma emergência e tampouco saíra às pressas por algum problema inesperado. Ela havia ido embora sabendo exatamente o que estava fazendo.
— Então foi planejado — disse Linda, finalmente.
Ryan permaneceu em silêncio. Ele se lembrava de todas as vezes em que havia defendido Ashley, dizendo que talvez ela estivesse passando por dificuldades ou simplesmente fosse desorganizada. Agora começava a perceber que sua generosidade talvez tivesse sido usada contra ele durante anos.
Daniel ainda tinha outra informação.
"Antes de entrar no carro, Ashley fez uma ligação. Eu estava perto o suficiente para ouvir quando ela disse que agora vocês acreditariam que ela havia ido embora porque não tinha dinheiro."
Ryan apertou o celular.
— Isso é inacreditável.
— Não é apenas falta de consideração — respondeu Linda. — Ela sabia exatamente que você pagaria.
Pouco depois, Daniel enviou outra mensagem.
"Tem mais uma coisa. Ashley deixou um objeto cair perto da porta dos fundos."
"Que objeto?"
"Um envelope."
Ryan imediatamente perguntou se Daniel ainda estava com ele.
"Sim. Guardei porque imaginei que pudesse ser importante."
Uma fotografia acompanhava a mensagem. Nela aparecia um envelope branco, ligeiramente amassado, com uma única letra escrita no canto superior:
R.
Ryan sentiu um arrepio.
— Essa letra é para você — disse Linda.
— Também acho.
Naquela mesma noite, ele voltou ao restaurante para buscar o envelope. Daniel o esperava na entrada e, depois de cumprimentá-lo, entregou o objeto.
— Eu não abri — explicou o gerente. — Achei que você deveria decidir o que fazer.
Ryan agradeceu e abriu o envelope cuidadosamente.
Dentro havia uma folha dobrada.
Ele começou a ler e, antes mesmo de terminar, sua expressão mudou.
Linda percebeu.
— O que está escrito?
Ryan entregou o papel.
No centro da folha havia uma única mensagem:
"Você não conhece Ashley tão bem quanto pensa."
Logo abaixo aparecia um número de telefone e uma segunda frase:
"Ligue antes que ela descubra que eu contei."
Linda ergueu os olhos.
— Quem escreveria isso?
Daniel não fazia ideia. Tudo o que sabia era que o papel estava dentro do envelope quando ele o encontrou.
Ryan guardou o número no celular e esperou até chegar em casa para fazer a ligação. Quando finalmente apertou o botão, ninguém atendeu nas primeiras tentativas. Na quarta chamada, porém, uma mulher respondeu.
— Ryan?
Ele reconheceu a voz imediatamente, embora não soubesse de onde.
— Quem é você?
A mulher respirou fundo antes de responder.
— Meu nome é Sophie. Fui amiga de Ashley durante muitos anos.
Linda aproximou-se e ouviu atentamente.
Sophie parecia nervosa.
— Sei que você deve estar tentando entender o que aconteceu no restaurante, mas aquilo não foi a primeira vez.
Ryan sentiu a garganta apertar.
— O que você quer dizer?
— Estou dizendo que você não é a única pessoa que Ashley enganou.
— Sobre dinheiro?
Houve uma pausa.
— Principalmente sobre dinheiro.
Ryan se levantou da cadeira.
— Explique.
Sophie respirou profundamente.
— Ashley descobriu há muito tempo que você costuma ajudar as pessoas quando elas dizem estar passando por dificuldades. Ela sabia que você evitaria uma discussão para preservar a família e começou a se aproveitar disso. O problema é que, nos últimos meses, as coisas ficaram muito maiores.
— Maiores como?
Antes que Sophie respondesse, a ligação foi interrompida.
Ryan tentou retornar imediatamente, mas o número já estava desligado.
Linda ficou alguns segundos olhando para ele.
— Ela sabia demais para desligar desse jeito.
Ryan assentiu.
Enquanto permanecia sentado, começou a recordar situações que, até então, pareciam insignificantes. Ashley já havia perguntado quanto eles tinham guardado, quanto valia a casa e quanto Ryan recebia no trabalho. Na época, ele havia interpretado aquelas perguntas como simples curiosidade.
Linda também começou a lembrar.
— Ela perguntou sobre nossa poupança alguns meses atrás.
Ryan levantou os olhos.
— Você nunca tinha me contado isso.
— Porque achei que não significava nada.
Agora significava.
Muito.
O celular de Ryan vibrou novamente. Era uma mensagem de Ashley.
"Precisamos conversar. É urgente."
Antes que ele pudesse responder, outra mensagem apareceu:
"E não conte para ninguém o que aconteceu ontem."
Ryan mostrou a tela para Linda.
Ela ficou olhando para aquelas palavras durante alguns segundos.
— Ela está com medo.
— Está — respondeu Ryan. — E isso significa que existe alguma coisa que ela não quer que descubramos.
Naquele momento, um carro preto passou lentamente diante da casa.
Ryan foi até a janela por instinto. O veículo reduziu a velocidade ao chegar em frente à residência, mas logo acelerou e desapareceu na esquina.
Ele permaneceu observando a rua vazia.
Linda se aproximou.
— Você acha que era o mesmo carro?
— Não sei.
Ryan voltou para a mesa e guardou o envelope.
Até aquela noite, ele acreditava que o problema era Ashley não pagar suas próprias contas. Agora percebia que aquela dívida poderia ser apenas a ponta de algo muito maior.
Havia um homem desconhecido, uma testemunha que desaparecera depois de fazer uma revelação, um envelope deixado misteriosamente no restaurante e perguntas sobre o dinheiro da família que antes pareciam inocentes.
E, no centro de tudo, estava Ashley.
Ryan olhou para Linda e segurou sua mão.
— Amanhã vamos descobrir toda a verdade.
Ela apertou seus dedos.
— Desta vez, sem passar a mão na cabeça de ninguém.
Ryan assentiu. Pela primeira vez, a paciência havia dado lugar à cautela.
E, enquanto a casa mergulhava no silêncio da madrugada, nenhum dos dois percebeu que, do outro lado da rua, alguém ainda permanecia dentro de um carro estacionado, observando a luz da janela do casal.