Chapter 1
Capítulo 1
Isabela Moura, médica plantonista, recebe um ferido à bala na emergência. Ao operá-lo, descobre que ele é Lorenzo Santoro, um chefe mafioso. Após salvá-lo, ele a sequestra para garantir seu silêncio.
— Se ele morrer na minha mesa, juro que vou atrás de quem fez isso e arranco os olhos com uma colher.
Isabela Moura não levantou os olhos do prontuário quando a enfermeira Clara Mendes bufou ao lado.
— Dramática — murmurou Clara, ajustando o gorro cirúrgico. — E isso vem de mim, que uma vez ameacei um paciente com um termômetro no nariz.
— Funcionou.
— Ele tomou o remédio, sim. Mas também pediu para trocar de enfermeira.
Isabela finalmente ergueu o olhar, um sorriso cansado nos lábios. A noite no pronto-socorro do Hospital São Judas tinha sido longa. Duas paradas cardíacas, uma crise de apendicite e um homem que tentou explicar como um garfo entrou na própria coxa. Histórias fracas, ela pensava. Até que a porta do corredor se abriu com um baque seco.
A maca chegou antes do grito.
— Ferimento à bala! — berrou o paramédico, já empurrando a maca para dentro. — Perfuração no tórax direito, perda sanguínea severa, instabilidade hemodinâmica!
Isabela largou o prontuário e avançou. O homem na maca estava pálido, o rosto contraído em uma máscara de dor que não escondia a estrutura forte dos ossos. Cabelos negros, molhados de suor. Olhos escuros semiabertos, mas conscientes. Muito conscientes.
— Nome? — perguntou ela, enquanto as mãos já trabalhavam para estancar o sangue.
Ele não respondeu. Os olhos a fixaram com uma intensidade que fez algo gelar na espinha dela.
— Nome? — repetiu, mais firme.
— Lorenzo — a voz saiu rouca, baixa, como se cada sílaba custasse um órgão.
Isabela não precisou de sobrenome. Conhecia a ficha que a polícia tinha enviado na semana passada: Lorenzo Santoro, 35 anos, chefe de uma das maiores organizações criminosas da cidade. Procurado, mas nunca preso. Sempre um passo à frente.
E agora estava ali, sangrando na maca dela.
— Clara, prepara o centro cirúrgico agora! — gritou, enquanto apertava o curativo. — Vamos, rápido!
O homem a agarrou pelo pulso. A força surpreendeu — mesmo ferido, os dedos apertaram como garras.
— Você não me entrega — ele disse. Não era um pedido.
Isabela olhou para a mão dele, depois para os olhos escuros. Havia algo ali que não era só ameaça. Era uma aposta. Ele estava testando até onde ela iria.
— Eu sou médica — respondeu, soltando o pulso com um movimento seco. — Meu juramento não inclui ser entregadora de bandidos. Agora solta, ou vou te sedar e operar dormindo, e aí quem vai reclamar?
O lábio dele se moveu. Quase um sorriso. Mas a mão caiu.
A cirurgia durou três horas. Isabela removeu a bala, reconstruiu o que pôde, fechou o ferimento com a precisão de quem costurava desde o internato. Quando saiu da sala, as pernas tremiam. Não de cansaço. De tensão.
— Ele vai viver — disse para Clara, que a esperava com um café. — Mas vai ficar internado. E a polícia vai querer saber.
— E você vai contar?
Isabela tomou um gole do café. Amargo. Perfeito.
— Não sei ainda.
— Isabela...
— Eu sei, Clara. Sei que ele é um criminoso. Sei que devia ligar agora. Mas, porra, ele olhou para mim como se eu fosse a única pessoa no mundo que podia salvá-lo. E eu salvei. Isso não apaga o que ele fez, mas... não consigo sentir que fiz algo errado.
Clara suspirou, passou a mão nos cabelos loiros curtos.
— Você e esse seu coração de médica. Um dia vai te meter numa encrenca que nem bisturi resolve.
Isabela riu, sem graça.
— Já estou nela.
Voltou ao quarto particular onde Lorenzo estava internado, na ala reservada que ela mesma conseguiu improvisar. Ele dormia, o peito enfaixado subindo e descendo devagar. Isabela sentou na cadeira ao lado e observou o rosto sereno. Sem a tensão da dor, ele parecia quase inofensivo. Quase.
Os olhos dele se abriram.
— Ficou me olhando enquanto eu dormia? — a voz ainda fraca, mas com um tom de provocação que fez Isabela endireitar as costas.
— Verificava sinais vitais. É meu trabalho.
— Claro. E eu sou o paciente agradecido.
— Você é o paciente que vai ficar calado e se recuperar, ou vou chamar a segurança.
Ele sorriu. Dentes brancos, lábios secos. Um sorriso que não combinava com o homem que mandava matar sem piscar.
— Você não vai chamar ninguém, doutora. Porque se chamar, eu moro numa cela. E você morre de curiosidade.
Isabela sentiu o estômago virar. Ele estava certo. Ela queria saber. Quem atirou? Por quê? O que fazia um homem como aquele acabar na mesa de uma médica de plantão?
— Não sou curiosa. Sou profissional.
— Então por que ainda está aqui?
Ela abriu a boca para responder, mas o som que veio não foi sua voz. Foi o alarme do celular de Clara, que entrou correndo no quarto.
— Isabela, temos problema. Dois carros pararam na entrada da emergência. Homens armados. Perguntando por um ferido que deram entrada há pouco.
Lorenzo tentou se sentar, e a dor o fez cair de volta no travesseiro com um grunhido.
— São meus — ele disse. — Meus homens.
— E como eu sei disso? — Isabela já estava de pé.
— Porque se fossem os outros, você já estaria morta.
A frieza com que ele disse aquilo fez Isabela engolir em seco. Ela olhou para Clara, depois para Lorenzo. O homem ferido na cama não parecia mais tão indefeso.
— O que você quer? — perguntou, a voz firme mesmo com o coração acelerado.
— Quero que você saia daqui comigo — ele disse, os olhos escuros prendendo os dela. — Agora. Antes que eles descubram que estou aqui.
— Descubram quem? Os policiais?
— Não. Os homens que atiraram em mim. Eles não vão parar até me ver morto. E se você ficar aqui, vão matar você também por tabela.
Isabela sentiu o peso da escolha. Salvar a vida dele na mesa de cirurgia era uma coisa. Fugir com ele era outra. Muito outra.
— Clara, avisa a segurança para segurar a entrada o máximo que der. Depois vai para casa e finge que não me viu hoje.
— Isabela, você vai mesmo...
— Vou. Não posso deixar um paciente morrer porque fiquei com medo.
Clara apertou os lábios, mas assentiu. Saiu correndo.
Isabela se virou para Lorenzo, que já tentava se levantar, o rosto pálido de esforço.
— Você vai me ajudar ou vai ficar aí parada? — ele perguntou, a voz rouca.
Ela segurou o braço dele, sentindo o calor da pele sob os dedos.
— Se cair, eu deixo você no chão.
— Não vai.
— Não testa.
Ele riu, baixinho, enquanto se apoiava nela. O cheiro de sangue e antisséptico se misturava com algo mais — um perfume amadeirado, masculino. Isabela respirou fundo e o guiou para a saída dos fundos.
Quando a porta do elevador se fechou, ele sussurrou no ouvido dela:
— Você vai se arrepender de ter me salvado, doutora.
— Talvez. Mas hoje, você vive.
O elevador desceu. Lá fora, a noite esperava. E com ela, um beco sem saída e dois homens que não eram de Lorenzo.
— Merda — murmurou ele, ao ver as silhuetas se aproximarem. — É o Ricardo.
Isabela não precisou perguntar quem era. O nome ecoou como um tiro na cabeça dela. Ricardo Alves, o rival. O homem que queria Lorenzo morto.
— Agora você está no meu jogo, doutora — Lorenzo disse, a voz baixa, urgente. — E não tem volta.
Ela sentiu a mão dele apertar a sua. Fria, firme. E, por um segundo, não soube se aquilo era uma promessa ou uma ameaça.