Chapter 1
Capítulo 1: A Noite da Fuga
Liver, desprezada por sua matilha por ser considerada sem lobo, decide fugir após mais um dia de humilhações na academia. Durante a fuga em uma noite de neve, é atacada por lobos enviados pelo alfa, mas é salva por Bryan, alfa da matilha Quenvynti, que a leva para seu castelo.
A neve caía sobre Drakens como um véu silencioso, cobrindo as ruas de paralelepípedos e os telhados das casas baixas. Liver apertou o casaco surrado contra o peito, os dedos dormentes de frio, enquanto subia a ladeira que levava à academia de treinamento. As marcas dos cascos dos cavalos estavam meio apagadas na neve fresca, e ela seguiu por elas, baixando a cabeça quando passou por um grupo de lobos que conversavam perto da fonte congelada. Eles nem a olharam. Era como se ela fosse feita de ar e sombra.
— Liver! — a voz de Mya cortou o ar como uma navalha. Ela estava encostada na entrada da academia, com Maybe e Rubi ao lado, os uniformes impecáveis, os cabelos presos em tranças perfeitas. — Achou que poderia se esconder de novo? — Mya sorriu, e aquele sorriso não tinha calor nenhum.
Liver parou, os pés enraizados na neve. As três meninas se aproximaram, e Maybe estendeu o braço para agarrar o ombro dela, mas Liver desviou no último instante. Rubi riu, um som seco e cortante.
— Você sabe que não adianta fugir, sem lobo — disse Rubi, empurrando-a de leve contra a parede de pedra. O frio da pedra atravessou o casaco, e Liver prendeu a respiração. — Por que você simplesmente não vai embora? Ninguém quer você aqui.
Elas não esperavam resposta. Nunca esperavam. Mya deu um passo à frente e cuspiu na neve perto dos pés de Liver.
— Você nem merece estar aqui — sussurrou ela. — Amanhã, na aula de combate, vou garantir que você entenda isso.
Elas se afastaram, rindo baixo, e Liver ficou ali, encostada na parede fria, sentindo o coração bater contra as costelas. Ela respirou fundo, sentiu o cheiro de pinho e neve, e empurrou a parede para se levantar. Não podia desabar. Não ali.
A aula de combate foi pior do que ela imaginava. Lyan estava de bom humor, o que significava que ele estava especialmente cruel. Ele a jogou no chão três vezes, e na terceira vez, ajoelhou-se ao lado dela, o rosto tão perto que ela sentiu o hálito quente.
— Você é uma vergonha — ele disse, a voz baixa, para que só ela ouvisse. — Uma aberração sem lobo. Não entendo por que o alfa ainda permite que você respire o mesmo ar que nós.
Ele se levantou, e os outros estudantes riram. Liver fechou os olhos, contou até cinco, e se levantou. As marcas roxas nos braços doeram quando ela moveu o ombro, mas ela não gemeu. Não ia dar a eles esse prazer.
À noite, no quarto pequeno que dividia com duas outras garotas que a ignoravam, Liver se sentou na cama estreita, olhando pela janela. A neve ainda caía, e a lua estava encoberta. Ela ouvia os passos no corredor, as risadas distantes, e sentia o peso de cada olhar que a atravessava como se ela fosse vidro.
— Não aguento mais — murmurou ela para si mesma, as palavras perdidas no ar frio do quarto. — Não vou ficar aqui para ser pisada.
Ela esperou até que as outras garotas adormecessem. Depois, com cuidado, pegou o pequeno saco de pano que havia preparado nos últimos dias: um pedaço de pão seco, uma garrafa de água, um cobertor fino e uma faca que tinha encontrado na cozinha. Vestiu o casaco, calçou as botas, e abriu a janela. O vento frio bateu em seu rosto, e ela sentiu uma pontada de medo. Mas também algo mais: uma centelha de esperança.
Ela pulou. A neve amorteceu a queda, e ela ficou ali por um momento, deitada no chão branco, olhando para as estrelas que mal apareciam entre as nuvens. Depois se levantou e correu.
A cidade de Drakens ficou para trás enquanto ela avançava pela floresta. As árvores estavam cobertas de gelo, e os galhos estalavam sob seus pés. Ela conhecia o caminho para a fronteira do território — havia explorado aquelas matas nos dias em que ninguém a procurava. Sabia que além do rio congelado começavam as terras da matilha Quenvynti. Um lugar sobre o qual só ouvira histórias vagas. Lobos fortes, diziam. Um alfa justo. Talvez ali ela pudesse recomeçar.
O vento uivava, e a neve caía mais forte agora. Liver apertou o cobertor contra o peito e continuou correndo, as pernas queimando, a respiração saindo em nuvens brancas. Ela não olhou para trás. Não queria ver as luzes da cidade que a rejeitava. Queria apenas seguir em frente.
Foi quando ouviu os uivos. Longe no começo, mas se aproximando rápido. Uivos de lobos em perseguição.
— Não — ela sussurrou, acelerando o passo. — Não, por favor.
Os uivos ficaram mais altos, mais perto. Ela tropeçou em uma raiz escondida na neve e caiu de joelhos, sentindo a dor aguda percorrer a perna. Levantou-se, mancando, mas sabia que não ia conseguir. Eles eram mais rápidos. Mais fortes.
As sombras surgiram entre as árvores. Primeiro um lobo cinzento, depois outro, e mais outro. Três, quatro, cinco. Os olhos brilhavam na escuridão, e os corpos estavam tensos, prontos para o ataque. O líder da matilha, um lobo grande e negro, rosnou, mostrando os dentes.
— O alfa quer você de volta — a voz dele soou na mente de Liver, como um sussurro cheio de gelo. — Você acha que pode fugir?
— Não vou voltar — disse Liver, a voz trêmula, mas firme. Ela sacou a faca, sentindo o cabo frio na palma da mão. — Prefiro morrer aqui.
O lobo negro rosnou mais alto e avançou. Os outros seguiram.
Liver se preparou para o impacto, mas ele não veio. Em vez disso, um rugido poderoso ecoou pela floresta, e uma sombra imensa saltou de trás de uma cachoeira congelada nas proximidades. O lobo negro foi jogado para trás, rolando na neve, e os outros recuaram, Rosnando, confusos.
O novo lobo era enorme, mais alto que qualquer um dos outros, com pelo escuro como a noite e olhos que brilhavam com uma luz dourada. Ele ficou entre Liver e os atacantes, o corpo tenso, o rugido baixo vibrando no ar.
— Saiam do meu território — a voz dele era profunda, calma, mas carregada de autoridade. — Agora.
Os lobos de Drakens hesitaram. O negro se levantou, sacudindo a neve, e olhou para o intruso com um misto de raiva e medo.
— Isso não é da sua conta — ele rosnou.
— Ela está em minhas terras — respondeu o lobo dourado. — Então é da minha conta. Vão embora antes que eu mude de ideia.
Houve um momento de tensão. Depois, o lobo negro virou as costas e correu para a floresta, seguido pelos outros. Os uivos se afastaram, sumindo na noite.
Liver soltou a respiração que estava prendendo. A faca caiu de sua mão na neve. Ela olhou para o lobo enorme, que agora se virava para ela. Ele era imenso, e por um instante, ela sentiu medo de novo. Mas então ele se mexeu, e a luz da lua, que finalmente rompera as nuvens, iluminou seu rosto. Ele não era apenas um lobo. Ele era um homem também, de certa forma. O olhar dele era intenso, mas não cruel. Preocupado, talvez.
Ele se aproximou devagar, e Liver viu que ele mancava levemente. Havia sangue no pelo dele, perto do ombro. Um dos lobos de Drakens devia tê-lo ferido.
— Você está bem? — ele perguntou, a voz mais suave agora.
Liver tentou falar, mas as palavras não saíram. Ela apenas balançou a cabeça, e então o mundo começou a girar. A neve pareceu subir para encontrá-la, e ela sentiu o chão frio contra as costas. Viu o rosto do lobo se inclinar sobre ela, ouviu uma voz distante chamando seu nome, e então tudo escureceu.
Quando acordou, estava deitada em uma cama macia, coberta por um edredom grosso e quente. O quarto era grande, com paredes de pedra e uma lareira acesa que crepitava suavemente. Havia cortinas vermelhas nas janelas, e o cheiro de madeira queimada e ervas enchia o ar.
Liver piscou, confusa. Tentou se sentar, mas uma dor aguda no ombro a fez cair de volta nos travesseiros.
— Calma — disse uma voz masculina. Ela virou a cabeça e viu um homem sentado em uma cadeira ao lado da cama. Ele era alto, de ombros largos, com cabelos escuros e olhos que brilhavam com aquele mesmo tom dourado que ela vira na floresta. Ele usava uma camisa simples de linho, e havia ataduras no ombro direito. — Você está segura agora.
— Onde... onde estou? — a voz dela saiu rouca, fraca.
— No castelo da matilha Quenvynti — ele disse, inclinando-se um pouco para frente. — Meu nome é Bryan. Eu sou o alfa aqui.
Liver o encarou, as lembranças voltando aos poucos. A neve, os lobos, o rugido. Ele a salvara.
— Por que... por que você me trouxe aqui? — ela perguntou, a desconfiança ainda presente em seus olhos.
Bryan sorriu, um sorriso cansado, mas gentil.
— Porque ninguém merece ser deixado para trás — ele respondeu. — Descanse agora. Amanhã conversamos.
Ele se levantou e caminhou até a janela, onde a lua brilhava sobre a neve. Liver fechou os olhos, sentindo o calor do fogo, o colchão macio, a segurança daquele quarto. Pela primeira vez em muito tempo, ela não se sentiu sozinha.
Mas, no fundo, uma voz sussurrava que aquela paz não duraria. O passado a encontraria de novo. E ela teria que estar pronta.